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Não há como negar as turbulências por que passa a Educação atualmente, espremida entre novas lógicas de acesso à informação e questionamentos sobre formatos e processos. É claro que em um ambiente de turbulências as pessoas buscam alternativas. É nesse contexto que surge a Multiversidade, um movimento que busca apoiar a jornada individual de aprendizado ressaltando a autonomia e as escolhas pessoais.

Nos modelos universitários, a titulação – bacharel, mestre, doutor – é uma chancela concedida para distinguir os que “sabem” dos que não “sabem”, uma tradição meio escolástica que rende polêmicas antigas no meio acadêmico, considerado egocêntrico, e também claramente hierárquica, pautada no “quem não sabe só aprende com quem sabe”. Por outro lado, é fato que essa chancela é uma tecnologia social criada com o tempo e que facilita o direcionamento e a eficiência da produção de conhecimento – pelo menos dentro desse mesmo sistema acadêmico. Essa talvez seja uma das inquietações que surgem de uma iniciativa como a de Alex Bretas e outros parceiros: será que não estamos muito bons em gerar conhecimento de uma só maneira? Se parece que a educação está patinando em um caminho só, quem sabe a aprendizagem ofereça a diversidade que pulsa abaixo desse aterro de doutrinas .

O mineiro Alex tem trilhado sua jornada para ensinar a Educação a desaprender. Participa de vários movimentos nacionais e internacionais relacionados ao tema. Criador de iniciativas como Kit Educação Fora da Caixa, com ferramentas de aprendizagem inovadoras e o Doutorado Informal, precursor do Multiversidade, ele expõe as diferenças que fazem parte de seu trabalho em relação à educação como conhecemos hoje:  

1.

PURO: Por que embarcar em um aprendizado independente?

Alex Bretas: Existem várias razões. Primeiro, porque aprender dessa forma tende a ser muito prazeroso. Sabe, quando aprendemos ou fazemos algo simplesmente porque aquilo nos preenche de satisfação por dentro? Segundo, porque o aprendizado independente é uma porta para a materialização dos nossos sonhos.

Se conquistamos a habilidade necessária para persistir num caminho educacional autônomo, pavimentamos a estrada para nos tornarmos muito bons naquilo que fazemos. Por fim, num mundo cada vez mais mutante, veloz e cheio de informações, guiar a própria aprendizagem e saber como acessar os recursos para se desenvolver está se tornando quase um imperativo.

2.

P: Sem “autoridades” para avaliar a qualidade do aprendizado, qual o papel da comunidade que se envolve nos ciclos?

AB: Na Multiversidade, apostamos no aprendizado independente, mas isso não significa que as interações sociais fiquem de lado, muito pelo contrário. É justamente na educação feita com autonomia que mais se necessita de rede, de comunidade e de vínculos. Um dos papéis da comunidade nesse processo é ajudar o aprendiz a avaliar o que ele está produzindo.

A fim de potencializar isso, criamos uma estrutura de ciclos bimestrais em que, ao final de cada ciclo, os aprendizes são convidados a apresentar os resultados de suas investigações num evento aberto ao público, inclusive com a presença de especialistas de diversas áreas do conhecimento. Acreditamos que essa estrutura os ajudará a obter feedbacks importantes para que eles possam recalibrar a rota e até mesmo conduzir novas explorações.

3.

P: A principal característica do meio acadêmico tradicional é o método, que deve ser reprodutível, validado e “aceito” pelos pares. O aprendizado independente se preocupa com isso?

AB: Não acredito que haja na ciência (ou nas ciências, já que é difícil falar de um meio científico uniforme) um único método ou conjunto de procedimentos infalíveis. Paul Feyerabend, filósofo austríaco, elucidou como diversos cientistas “burlaram” o “método científico” em momentos cruciais da história da humanidade.

O aprendizado independente preocupa-se com a efetividade de dado resultado num certo contexto, ou seja, não há tentativas desesperadas de se alcançar um determinado padrão de verdade ou lei universal (ideias que a própria ciência nas últimas décadas já tem descartado). Se eu construo uma aprendizagem de tal forma que a comunidade ao meu redor é beneficiada e eu também, então essa é uma aprendizagem válida.

4.

P: Existe uma titulação na aprendizagem independente?

JM: Formalmente falando, não, mas certamente há outros modos de se reconhecer que alguém aprendeu determinada coisa, ainda que de maneira independente. Há pouco tempo concluí um processo de mais de dois anos que chamei de “doutorado informal”, e as entregas resultantes desse percurso (livros, no caso) são um jeito de as pessoas me “avaliarem”.

Cada vez mais, acredito que vamos reconhecer as pessoas pelas contribuições concretas que elas fazem em vez de diplomas. Ainda assim, mesmo na educação informal ou não formal existem abordagens que estão sendo utilizadas para facilitar as dinâmicas de reconhecimento, como por exemplo os portfólios e as open badges. Na Multiversidade, pretendemos implementar esses dispositivos.

5.

P: O propósito do meio acadêmico é gerar conhecimento para a humanidade. Qual o propósito da Multiversidade?

JM: Ajudar as pessoas a viverem uma vida mais plena por meio da conquista de autonomia na aprendizagem. Temos esse foco muito claro nas pessoas pois acreditamos que quando alguém se sente pleno – isto é, seguro, pertencido e realizado -, aumenta muito a chance dessa pessoa fazer uma contribuição significativa para a humanidade. A relação entre levar uma vida plena e autônoma e construir conhecimento útil para o mundo é direta.

 

Outros caminhos

Multiversidade
[As inscrições para a Multiversidade já estão abertas. saiba mais no link]

Kit Educação Fora da Caixa

International Democratic Education Network (IDEN)

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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