5p

José Michel é engenheiro civil e pioneiro do chamado movimento Maker no Brasil. Há muitos anos acostumado com as agruras de se criar inovações industriais por aqui, Michel usou suas experiências nos anos de projetos especiais para se dedicar aos projetos pessoais depois que vendeu seu negócio.

Após conhecer diversos espaços inovadores em diversos países, o espírito inquieto o levou a estabelecer contato com a TechShop, uma das empresas pioneiras em espaços de produção individual, os chamados maker spaces. Michel tem sido desde então, um defensor da livre iniciativa para quem quer fazer não só por fazer – mas para se realizar – e com isso despertar um novo tipo de pensamento entre os brasileiros.

 

Seguem as 5 perguntas a José Michel:

1.

PURO: É possível dizer quando a produção de bens de consumo será predominamentente individual? Como a classe industrial vai responder ao surgimento de consumidores que produzem seus próprios produtos?

 

José Michel: É um exercício intelectual muito interessante. Exceto num cenário pós apocalíptico, acho que isso nunca irá acontecer. Além de vários bens de consumo precisarem de fabricação seriada, por escala ou por tecnologia, a fabricação individual tem limites importantes e é bastante seletiva.

Como exemplo cito uma experiência de Thomas Thwaites de construir uma torradeira do zero usando apenas matérias primas primárias . Foi numa mina  de ferro e com o minério fabricou o aço, fabricou sua própria resina plástica a partir de vegetais e daí por diante. Vale a pena ver o TED com a experiência. Completamente inviável sobre todos os aspectos.

Porém, acredito  que a produção individual terá um crescimento exponencial até sua saturação, o que muito provavelmente ocorrerá pelo esgotamento da nossa disponibilidade de tempo e recursos.

Por mais que apreciemos o design de certos produtos industriais, buscamos cada vez mais o design pessoal que reflita nossos anseios de beleza e funcionalidade que nenhuma indústria vai poder nos entregar.

Lembrando “A Riqueza da Nações” e até “O Capital” a lógica industrial se realimenta num círculo virtuoso, desde que respeite a sustentabilidade e o meio ambiente. Não consigo transportar a mesma lógica, caso a indústria fosse ultrapassada pelo fabricante pessoal.

Tenho acompanhado algumas corporações industriais  que estão observando de perto o Movimento Maker, com a certeza que serão afetados pelas mudanças. Felizmente, a maioria delas enxerga muito positivamente este novo tempo.

A grande aposta a ser feita, a meu ver, são as fábricas digitais onde a partir de um arquivo do cliente, possam entregar pequenos e grandes lotes de diversos tipos de produtos.

 

2.

P: E por falar em abstração, há quem diga que a rede de modelos virtuais, arquivos e objetos CAD (computer aided design) virtuais que está ser formando seja mais importante até que as próprias impressoras 3D. Seria a impressão 3D o mais próximo em que estamos do teletransporte?

 

JM: A tecnologia de impressão 3D pessoal e industrial está apenas nascendo. Imprimi um suporte de 25 gramas do pisca-pisca da minha moto em sete horas e durou dois quarteirões! Até a última vez que me informei, há mais ou menos um ano, era possível imprimir 80 materiais diferentes.

O grande investimento em tecnologia, que já está sendo feito, é o desenvolvimento dos milhares de materiais que passarão a ser impressos.  Não tenho dúvida que o valor dos arquivos já disponíveis é muito maior que o das impressoras, mesmo porque eles são válidos para novas tecnologias de impressão 3D que com certeza vão começar a aparecer.

Para o teletransporte de coisas, não tenho dúvida que a impressão 3D é uma alternativa. Para o teletransporte de pessoas, acredito muito mais no conceito da “Singularity” aquele momento quando todo conteúdo de um cérebro humano poderá estar contido num hard disk e portanto “baixado” em outro local. Sobre o teletransporte de seres vivos, não acredito e não tenho mais tempo de vida suficiente para ser desmentido.

 

3.

P: Quais os desafios de se implantar uma cultura DIY (Do It Yourself – Faça Você Mesmo, em inglês) no Brasil?

 

JM: Há pelo menos sete anos venho estudando e frequentando a cultura DIY de diversos países nos cinco continentes. Sem exagero, DIY  é uma característica muito particular dos Americanos. Faz parte da sua genética e da sua história. Mesmo nos países europeus, a distância para os americanos é enorme.

Aqui no Brasil estamos com uma boa janela de oportunidade, e as barreiras culturais vem caindo muito rapidamente. Pela distância que estávamos há cinco anos, acho que a gente evoluiu bastante neste período. Em termos de insumos já é possível achar no Brasil a maioria das necessidades, embora os preços e os impostos sejam um desafio enorme. Outro desafio é a falta de conteúdo nacional. Existem aproximadamente 140 programas de TV americanos sobre DiY, no Brasil 4. Mídia impressa ainda pior.

O crescimento  do número de cursos, espaços e comunidades ligadas ao Maker Movement, por aqui, é grande e com muito espaço para crescer.

 

4.

P: Ouvimos de muitos que o problema do brasileiro é a execução. Por outro lado, grande parcela da população brasileira, pobre e imersa em adversidades, se vira como pode e executa obras complexas sem a menor cerimônia. Qual a sua opinião sobre esse paradoxo?

 

JM: Ainda existe muita ferrugem cultural a ser removida. Por que encarar uma escada e um rolo de pintura, se com 20% do preço de uma lata de tinta eu acho alguém que faz esse trabalho para mim? A gente se acostumou com a mão de obra barata e desqualificada e nem parou para pensar que pintar um quarto pode ser muito divertido. Nós fomos muito bem treinados para mandar fazer.

Não acho que o brasileiro tenha problema com a execução, faltam recursos, estímulo e iniciativa. Habilidades e criatividade não faltam.

Felizmente, pouco a pouco, a coisa vai mudando. Acompanho algumas famílias de classe média muito baixa. Começo a ver um interesse muito maior em aprender novas técnicas, desde o conserto de eletrodomésticos até a procura de conteúdo técnico na Internet.

 

5.

P: Há espaço para o movimento Maker nas escolas? Como você imagina um experimento nesse sentido?

 

JM: Há um espaço gigantesco! A educação mão na massa é o que mais me estimula a seguir agitando o Movimento Maker. Estamos muito perto do zero, portanto tudo está por vir. Sinto um interesse crescente dos educadores, das escolas e dos alunos, e começo a ver uma cobrança por parte dos pais por uma educação mais direta e desregulamentada.

Ainda assim, acredito que as atividades Maker devam ser extra curriculares, sem programa definido, sem notas e completamente livres. Forçar o aluno a participar não vai funcionar e pode matar o interesse.

Eu começaria por pequenos kits educativos de baixo custo, que já começam aparecer no mercado, pequenas oficinas móveis, e traria os pais para participar.

 

Outros caminhos

PURO
Uma nova era pra quem gosta de fazer
Designers projetam para o que não importa

Thomas Thwaites – TED – vídeo

Makers – A nova revolução industrial – livro

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

Saiba mais sobre inovação&criatividade.

Nunca mandamos spam. Abominamos spam. Aliás, se lembrarmos de enviar alguma coisa, deve ser algo muito, mas muito bom mesmo!

Inscrito com sucesso!