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SEM UM “MINDSET” DE DESAPEGO, A CULTURA NÃO SERÁ HORIZONTAL: ELA CONTINUARÁ SENDO DOMINADA PELO EGO
Mario Kaphan  tweet

 

Apesar de levar o nome de gestão horizontal, onde a maioria dos funcionários de uma empresa tem cargos equivalentes, no caso da empresa brasileira Vagas isso pode ser considerado um eufemismo. Em uma genuína experiência de gestão, todos que trabalham lá podem ser fielmente chamados colaboradores, palavra que muitas outras empresas adotaram como mantra mas que pouco se vê no cotidiano delas.

 

Mario Kaphan, um dos fundadores e ex-CEO (abriu mão do cargo em função da visão de gestão que agora coloca em prática), no entanto, não tem nenhuma pretensão com a holocracia do Vagas a não ser a prosperidade da própria empresa. Deixa claro, sempre, que é uma experiência em constante evolução e que muito provavelmente não funcionaria da mesma forma em outros lugares.

 

Evolução e prosperidade, aliás, que parecem em uma lua de mel. O Vagas tem uma presença fortíssima como ferramenta de recrutamento entre as maiores empresas brasileiras e também é tanto pioneira como referência em comunidades online e redes sociais; seus números estão entre os maiores do mundo no Linkedin e Facebook, por exemplo. E tudo isso, sem gastar nenhum centavo em marketing ou mídia.

 

Nem é preciso mencionar que quem trabalha lá não quer sair de jeito nenhum. Na empresa, não existe chefe mesmo. Tudo – desde questões estratégicas a até mesmo demissões e salários – tudo é decidido por matriz com times de especialistas versus comitês formados por uma pessoa de cada especialidade. Assim, preservando a diversidade, como Mario deixa claro inclusive sobre o posicionamento da empresa, surge um caso sobre como um empreedimento do futuro tem ligações claras com o coletivo e o que o desapego pode ensinar sobre carreira.

 

Abaixo, 5 perguntas para Mario Kaphan e, depois, caminhos para quem quiser saber mais sobre a experiência.

 

1.

PURO: É de se pensar: uma empresa crucial para o sistema de carreiras das maiores empresas do Brasil é uma empresa sem chefes. Você considera isso uma mensagem clara de que as empresas precisam repensar seu repertório quando se trata de pessoas?

 

Mario Kaphan: Não, nós absolutamente não nos colocamos nesse papel. Ao contrário, os nossos produtos atendem a empresas com as mais diferentes culturas, e nós aprendemos com elas todo dia. A vasta maioria não faz ideia de como somos organizados. Mas é inegável que as nossas ideias e aprendizado até aqui, que agora estão sendo um pouco mais difundidos, também já inspiraram algumas pessoas a promoverem mudanças em suas empresas.

 

 

2.

P: Tecnologias e técnicas evoluem freneticamente hoje, inclusive novos processos de inovação dentro das empresas, que surgem quase que a cada ano. Mas aquelas que geralmente envolvem pessoas acabam durando décadas, como o organograma, por exemplo. Você acha que isso acontece porque as pessoas são imprevisíveis?

 

MK: Há uma cultura de gestão de empresas que não pode nem deve ser descartada: ela precisa evoluir – e vem evoluindo paulatinamente – para adaptar-se aos novos tempos. Praticamente todas as empresas do mundo – inclusive as que desenvolvem as tecnologias que estão mudando o mundo! – se baseiam em estruturas hierárquicas, e seria impensável que elas mudassem radicalmente em um curto espaço de tempo, até porque um dos pressupostos seria a mudança das pessoas que as compõem…

 

3.

P: Hoje sua empresa tem quase duas centenas de pessoas. Você considera esse modelo viável para empresas maiores que o Vagas?

 

MK: Há muitos exemplos de empresas com milhares de pessoas que adotam modelos horizontais de gestão. O Brasil tem um caso pioneiro (com mais de 30 anos): a Semco. Outra pioneira, nos EUA, é a W.L.Gore. Exemplos mais recentes que ganharam destaque são a Wholefoods, a Zappos, a Valve, a Morning Star. Quanto ao nosso modelo, eu pessoalmente acredito que ele está bem estruturado para acomodar uma VAGAS.com com o dobro ou triplo do tamanho atual. E que, se e quando chegarmos lá, ele já terá sido suficientemente hackeado e modificado para que possamos prosseguir em nosso caminho.

 

4.

P: Chefes não existem. Mas algumas pessoas ganham mais que outras? Qual é o critério? Há desconforto entre os colegas?

 

MK: Na VAGAS.com a remuneração das pessoas busca refletir a sua contribuição à realização de nosso projeto comum, e o principal parâmetro para isso é um processo de avaliação das pessoas pelas pessoas (inclusive por si próprias) segundo quatro eixos: conhecimento do nosso negócio, foco em resultados, competências técnicas e vivência da cultura. O que se busca é justiça interna e um bom grau de alinhamento com o mercado. Eu tenho certeza que ninguém proporia salários idênticos para todos.

 

5.

P: Na interação do dia-a-dia existe um modelo baseado em consenso e controvérsias. E um dos comportamentos que você evidencia é o desapego. Quanto o desapego é importante em uma cultura empresarial sem chefes?

 

MK: Ele é fundamental. É pressuposto na VAGAS.com que as pessoas queiram – e tenham prazer em – integrar um ambiente em que o processo decisório é consensual, o que significa que todos os participantes concordam (ou, no máximo, consentem) com o seu resultado e irão engajar-se em sua realização, mesmo que tenham proposto inicialmente soluções diferentes. Sem um “mindset”  de desapego, de prazer pela boa controvérsia e até de ver a sua ideia suplantada por outra melhor, a cultura não será horizontal: ela continuará sendo dominada pelo ego.

 

 

Outros caminhos

PURO – Holocracia – o fenômeno dos coletivos

Case Vagas no Mix Prize – artigo

Cultura empresarial Vagas – site

Semco – O mais peculiar local de trabalho do mundo – artigo

Flat organization – wikipedia

 

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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