ESSA É UMA CRISE DE REPRESENTATIVIDADE, MAS NO CASO DO BRASIL É MAIS, É UMA CRISE DE IDENTIDADE tweet

 

Esse é um texto leigo, ainda bem. Sem pretensões, sem “mídias” e médias. Sua mídia é ele mesmo, suas palavras escolhidas para que continue assim: leigo e médio. Ainda assim, claro, uma opinião e por isso mesmo se basta.

 

Vemos as instituições ocidentais sendo cada vez mais questionadas e, na mesma frase, questionamos as políticas estranhas à nós, como são muitas das orientais. Questionamos atos cruéis e ditaduras “bárbaras” mas não refletimos sobre nosso legado. Ao compatriota, a justiça; ao excluído, o justiceiro. Exceto que brasileiros não são compatriotas a não ser por algum evento esportivo. Basta ver que o manto que une em cor as principais manifestações dos últimos anos é nada mais que uma camisa patrocinada (e cara). Somos, antes, “compatotas”, somos pelo que à favorável à nossa patota. Isso espelha a falta de um plano que o senso geral do brasileiro. E o que é um plano? Um pedaço de chão é um plano. E o um pedaço de chão é o que chamamos, hoje, de nação (apesar de nação ser muito mais que isso).

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

Primeiramente, a política. Em poucas palavras, política são escolhas públicas ou escolhas relacionadas ao que é de todos. Por convenção ao longo dos anos, “todos” se refere ao conjunto de cidadãos sob a mesma regra de governança, ou seja, pertencentes à mesma nação ou bloco nacional. Nesse sentido, os políticos seriam representantes escolhidos para colocar em prática as escolhas daqueles quem representam. Mas por que a política virou assunto apenas para entendedores? Por que apenas cientistas políticos e politizados têm a chancela para caiar as raízes do que falam? Não deveríamos todos ser aptos a escolher o que é relevante para uma nação? Assim como os políticos não são meros representantes escolhidos, a política não é mera decisão por um bem comum. Antes fosse.

 

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Protesto ou Copa? A única identidade brasileira que todos acham na gaveta é a camisa da CBF.

 

A primeira pergunta que qualquer pessoa que se diz politizada (dotada de política?) faz a um candidato é: “qual o seu plano de governo?”. Ora, atualmente quase não existem planos de governo, mas planos de poder. Constituição, regimentos, leis e códigos acumulam-se num vade mecum de capa tão dura que a mais calibrosa bala cidadã não seria capaz de perfurar. As políticas se tornaram a escolha daqueles que as fazem para continuar fazendo escolhas para eles mesmos.

 

BRASILEIROS NÃO SÃO COMPATRIOTAS A NÃO SER POR ALGUM EVENTO ESPORTIVO tweet

 

Abismo ou vale?

 

Vivemos tempos perigosos. Ao mesmo tempo em que uma mudança econômica e social importante se aproxima ganham força as vertentes fundamentalistas. Isso no mundo todo, onde pessoas são decapitadas ao contentamento e descontentamento de uma lei. Parece que a tolerância é o grande desafio para o futuro próximo, justamente quando achávamos que havíamos evoluído bastante como civilização. Mas fiquemos com essas duas palavras, tolerância e civilização. Ambas têm muito a ver com política.

 

Civilização é a representação coletiva de um desejo de perseverar como espécie humana. É isso mesmo? Pois se é, acho que estamos num mau momento. Estamos no limite mais perigoso para nossa própria extinção que jamais estivemos, com poluição e epidemias de câncer. E aqui entra uma pergunta provinciana: o que o Brasil (mais conhecido como nós – eu e você) está fazendo a respeito disso? Não vale apelar para o discurso “foram os países industrializados que começaram, mamãe”. A merda já está feita. A escolha (política) é mantermos uma posição infantil ou assumirmos que já estamos grandinhos o suficiente para ajudar a cuidar da casa. Como fazer isso é matéria de diálogo entre as bilhões de partes envolvidas.

 

AO COMPATRIOTA, A JUSTIÇA; AO EXCLUÍDO, O JUSTICEIRO tweet

 

A tolerância é outra atitude que vem tomando bordoadas atualmente. A habilidade de fazer consenso é fundamental para a política. Uma das primeiras coisas que aprendemos é que escolher é perder. Quando a criança escolhe o boneco amarelo, sabe que não terá o verde. Se acha que ao escolher um candidato ou partido não está perdendo, você vive uma ilusão. Nenhuma parte é toda boa ou toda ruim. Ao escolher o seu candidato, a sua política perde um caminho – caminho esse que você pode apenas conjecturar, mas jamais saber com certeza se teria dado certo. Isso não é bom, ou ruim. Isso é a vida. O que vejo é muita gente mimada que cultiva o desprezo pelo que não escolheu para não ter que lidar com o fato de que perdeu ao escolher. Aqui faço um destaque especial para o clima político no Brasil. Ao resumir nossas escolhas políticas entre dois partidos, ao sermos intolerantes, veja quanto estamos perdendo!

 

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Se civilidade e a tolerância poderiam nos ajudar a atravessar um vale obscuro, o preto-e-branco da incivilidade e da intolerância – das falhas como cidadão e como pessoa – espremem esse vale urgente e o transformam num abismo não largo o suficiente para construir uma ponte e não estreito o suficiente para pular. E daí, qual será a política? Com certeza não a do diálogo e nem a da diversidade, pois para atravessar abismos não resta tempo para conversar e muito menos fardos para carregar. Seria absurdamente difícil carregar um vade mecum tão volumoso por todo vale. Poucos arriscariam seu equilíbrio com ele atravessando um abismo.

 

AO RESUMIR NOSSAS ESCOLHAS POLÍTICAS ENTRE DOIS PARTIDOS, AO SERMOS INTOLERANTES, VEJA O QUE ESTAMOS PERDENDO! tweet

 

Egopolítica ou ecopolítica?

 

Corrupção é um bicho social e não político. Por isso é tão diverso e tão adaptativo. Mas o problema não são só propinas e descalabros administrativos. Não são apenas os políticos que não nos representam mais, mas as políticas. Ou, melhor dizendo, os castelos políticos, as instituições. Com a aceleração da troca de informação, as instituições não dão mais conta de representar os consensos com que foram criadas. Elas estão, aos olhos atuais, rígidas, despropositadas, estéreis. Incapazes de dialogar, num momento de conversas instantâneas. Foram feitas para durar, mas se tornaram duras. Formam, agora, um arrecife morto onde não se troca mais, que não floresce e não permeia; um sistema insalubre de pedras solitárias que se alimentam do seu musgo. Um ecossistema podre.

 

O mundo todo vive uma instabilidade representativa forte. Como essa noção (representatividade) é essencial à democracia, esta também sofre duros golpes. Nos últimos 5 anos aconteceram protestos em mais de 20 países e governos foram depostos. E meio ao surgimento de redes de comunicação entre bilhões de pessoas e o escancaramento do sentimento social que emerge sem pedir licença, governos estão rebolando para acalmar os ânimos. Enquanto isso, tentam entender o que está acontecendo, assim como nós mesmos.

 

Hoje temos uma presidente eleita e gritos por impedimento. Clamores por impeachment são completamente válidos, mas não no caso do Brasil atual. Nós não temos um plano como sociedade. Não há discussão de alternativas, apenas um afã para mudar. Por exemplo: onde entra o Congresso, nosso mais perigoso amigo, nesse clamor? Ao ir às ruas pedir “um Brasil mais justo e sem corrupção” estamos usando a mesma retórica de um governo que não sabe se comunicar. É o tipo de pedido genérico que qualquer oportunista pode vestir como um casaco da última moda. É como gritar aos quatro ventos: “Não vai ter Copa” e depois assistir ao evento no sofá da casa e ter que ouvir notícias do aparente sucesso internacional dos jogos.

 

A PRIMEIRA COISA QUE APRENDEMOS É QUE ESCOLHER É PERDER tweet

 

Nem dá pra entrar em méritos técnicos, como financiamento privado de campanha. Ou se um impeachment seria possível. Talvez essas questões façam parte do plano que não temos, onde entraria a discussão sobre mandatos, interesses políticos e sociais – aliados à educação de verdade e acesso à informação. É claríssimo que interesse privado se contrapõe à interesse público, assim como no cerne as palavras privado e público se opõem. Não significa que não devam coexistir e (para manter o discurso) se tolerar. A relação entre eles é o fundamento da atual sociedade ocidental. Parece exagero, mas, com a sombra da ditadura escurecendo milhões de pessoas nas ruas, e a intolerância sendo o âmago de uma ditadura, é possível questionar, quando começarmos a cortar cabeças?

 

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Essa é, obviamente, uma crise de representatividade, mas no caso do Brasil é mais, é uma crise de identidade. Confrontamo-nos com uma imagem de cultura e não estamos gostando. Estamos percebendo que não gostamos dos nossos políticos. Pouco a pouco vamos também notando que os políticos somos nós – eles são, literalmente, nossas escolhas – e isso dói demais.

 

Dói demais perceber que escolhemos políticos como escolhemos o boneco amarelo, para nosso conforto e nosso deleite, e, agora que os políticos escolheram também seus bonecos, saímos à rua para reclamar que perdemos. Ora é claro que perdemos! Mas não por escolher. Perdemos porque não temos um plano, não temos um pedaço de terra e corremos risco quiçá de ter uma nação.

 

Sobre os protestos de 15 de março de 2015

 

Apesar de lideranças dúbias e reivindicações autoritárias, as manifestações na rua são a maneira que o povo brasileiro descobriu para ter sua voz ouvida. Os atos geram algum tipo de consequência política, mesmo que muitas vezes fraca do ponto de vista prático. Mas são muito válidas. Um poder Executivo que tem a palavra “diálogo” na sua retórica mas não sabe dialogar. Os ministros convocados para falar logo após o ato (incrivelmente a Presidente não se deu esse trabalho) foram vagos e distoantes, ecoando o discurso do partido e não uma voz de líder e repetindo ladainhas na tentativa de forçar o Congresso a uma atitude que não depende de ladainhas.

 

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A oposição se sai tímida, com vídeos caseiros nas redes sociais, sob o pretexto de tentar conversar, mas na verdade existe o medo de um pronunciamento e posicionamento forte. Provavelmente também tem muito a perder. Agora, incrivelmente o Congresso Nacional não faz jus a sua importância, em manobras que só reforçam o que esse texto critica, o plano de poder, com os presidentes das casas do Legislativo jogando com barganhas políticas podres. As manifestações foram muito importantes, mas não se sabe ainda para o quê. Esse é o principal problema. Está valendo a pena?

 


Outros caminhos

Jornadas de Junho (2013) – wikipedia

Revoltas em 2013 – artigo

Protesto ou Copa? – site

Vade Mecum – wikipedia

Crise de representatividade é histórica – artigo

A crise de representatividade sob o ponto de vista do pluripartidarismo – artigo

Política para Leigos – site

Reforma política – o que pode mudar no Brasil e o que está em jogo – artigo

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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