COMO MORREM AS COISAS NA INTERNET? OU MELHOR, COMO VIVEM? tweet

 

Como morrem as coisas na Era da Informação? Muitas respostas passariam por fracassos comerciais, substituição, obsolescência; outras pelo esquecimento ou um simples botão de excluir. Melhor seria perguntar como vivem as coisas na rede. No sentido de existência, mesmo. Bom, para a existência, a noção de tempo é importante, seja ela real ou fruto da nossa imaginação. O tempo define a duração de uma coisa, e, na dinâmica atual, o tempo começa a se fragmentar, há uma confusão entre o que é relevante e o que não é. Até mesmo datas importantes – 1453. 1500, 1789, 2001… – não serão mais necessariamente pontos de referência. Ainda hoje pensamos ter uma certeza histórica de que batalhas e descobrimentos aconteceram nas datas que nos foram ditas. E todo historiador sabe que não é em assim; foram mais processos históricos que eventos. Mesmo assim, eram processos que tinham certa linearidade. Hoje, tudo parece acontecer ao mesmo tempo.

 

Como era a primeira versão do seu site de notícias favorito? Quantos e-mails você guarda com carinho? E quanto à primeira foto que você usou para lhe representar em algum site? Não estão mais lá. Mas, na sua carteira, você provavelmente sorri em um 3×4 gasto. O seu RG representa o que vamos chamar de instituição pré-internet. Seu perfil nas redes sociais faz parte de uma instituição da Era da Informação. A diferença: no caso do seu Registro Geral, você tem acesso apenas à ponta, ao ícone de todo um sistema de informações, que é o documento ali plastificado. Todo o resto da instituição fica com o governo, onde você não tem acesso. Por isso, modificar, atualizar – ou evoluir – uma instituição pré-internet não acontece com frequência. Já na rede, o acesso é muito mais fácil, de forma que a instituição é, na verdade, um conjunto de muitas redes sociais, plataformas, sites, que formam representações (instâncias), todas elas evoluindo sem cessar. É um conjunto, porque com a internet temos acesso e enxergamos as suas partes.

 

©© Surian Soosay @ flickr

 

Apesar de parecer um enorme depositário de informações, onde elas apenas se acumulam, a internet é, na verdade um repositório – um “lugar” onde elas evoluem por si e se relacionam com a evolução de outras informações. Porém, como sabemos, a internet não é um “lugar”. As coisas não se acumulam, não existe “onde”. O tempo passa, na rede, diferentemente do que passa fora dela? Poderíamos dizer que vários tempos passam na rede, porque os blocos de informação tem seu próprio tempo. Com a rede de informação, temos um lapso de tempo, como uma lente com a qual enxergamos uma parcela do que está acontecendo, um intervalo em que acontecem as conexões mais relevantes; nas extremidades dessa lente, as noções passam a ficar embaçadas e além delas praticamente invisíveis (ou talvez inexistentes).

 

PODEMOS VER ALGUNS MOMENTOS DA INTERNET DO PASSADO, MAS NÃO PODEMOS TÊ-LA DE VOLTA tweet

 

Se a internet fosse um “poço de conhecimento” como querem alguns, seria realmente possível retirar praticamente qualquer conhecimento dela. Isso está longe de ser verdade. Conseguimos ver notícias ou até mesmo sites de outrora, como propõe, por exemplo, a ferramenta Wayback da Internet Archive (com ressalvas), mas não há a possibilidade de ter de volta a internet de 2001 como ela era, por exemplo. Essa internet não existe mais. Dessa forma, é como se o que está na rede acompanhasse nosso ritmo de vida e a cadencia da sociedade. Mas, calma. A internet do passado não morreu. De fato, nós não somos os mesmos que éramos em 2001 –  e também não morremos. Nós vivemos.

 

Vida e obra

 

Por que é tão difícil sumir da rede sem deixar vestígios? Como morrer na internet? Existem muitos casos onde a pessoa falece fisicamente, porém seus perfis, cadastros e presença virtual – sua instituição – prevalece. Ainda não existe uma empresa que explore Existem poucas empresas que exploram a morte, de maneiras quase prosaicas, por exemplo, ajudando a reunir as políticas de uso cada plataforma, juntamente às leis de cada país para efetivamente enterrar as personas virtuais.

 

Existe quem questione se a morte na rede deve ser levada à cabo. Em 2011, surgiu o aplicativo If I Die, para o Facebook, que publica mensagens da pessoa apenas depois de sua morte (física). Outro, o Eterni.me, reúne informações sobre o falecido e monta uma plataforma que a emula online para uma conversa depois que ele se foi. Seria uma tentativa de perdurar mesmo após o desaparecimento físico. Esse tipo de iniciativa se torna possível porque as instituições, que são conglomerados de dados qualificados, são muito mais perenes que qualquer informação avulsa; sua evolução tem mais relevância na rede, suas conexões deixam mais rastros. Isso se deve ao fato de que, geralmente, elas são parte essencial de outras instituições, sejam empresas ou outras pessoas. Um simples cadastro, por exemplo, faz parte da instituição da pessoa, mas também da instituição da empresa que o possui. E esse tipo de informação não é do que as empresas abrem mão facilmente.

 

©© Surian Soosay @ flickr

 

Veremos surgir, em alguns anos, políticas e ações voltadas para lidar com a representação de pessoas na rede, seja em vida ou em morte. Os dados pessoais têm sofrido ataque sistemático de criminosos, governos, empresas e da própria dinâmica da internet. Já é difícil, em vida, controlar sua instituição, e na morte a questão fica sem dono; o que resta é esperar que a lente da rede perca o foco e que lentamente esses dados percam a relevância com o tempo. A União Européia garantiu recentemente por meio de uma lei o “direito de ser esquecido”, que obriga empresas como o Google a retirar dados mediante a solicitação do cidadão.

 

INSTITUIÇÕES COM MAIS RELEVÂNCIA E MAIS CONEXÕES DURAM MAIS NA INTERNET tweet

 

Na internet, empresas e pessoas costumam ser relevantes por mais tempo na lente do acontecimento atual. Suas instâncias, seus momentos atuais são mais duradouros. Com o surgimento das redes sociais, multiplicaram-se as conexões interpessoais e entre empresas e pessoas. Quem tem mais conexões dura mais (esse é, aliás, a lógica de relevância que o Google dá aos seus resultados de busca). Se traçarmos um gráfico dos últimos 10 anos em que se destaque termos na internet, a maior parte deles certamente será de pessoas ou empresas, ou até mesmo grandes eventos com nos quais, agora, temos participação indireta e não tínhamos antes: guerras, eleições e desastres. Eventos que se tornaram instituições na e por causa da rede.

 

A humanidade sempre foi dependente da tecnologia e hoje sua sobrevivência e relações sociais parecem mais do que nunca acorrentadas a ela. Mas a dependência, antes de ser da própria tecnologia, é da atualização tecnológica. Produz-se o dobro de tecnologia atualmente que há alguns anos e nossas vidas são inundadas de dispositivos e aplicativos para todo o tipo de tarefa. Por isso, tecnologias desaparecem muito mais rapidamente hoje do que em qualquer outra época. Sufocados, nosso instinto é procurar como esquecer e descartar para continuarmos sãos. Na verdade não são as tecnologias que “morrem”, mas suas instâncias, seus protótipos, seus testes e experiências. Não podemos nem dizer que elas efetivamente morrem, elas mudam; acontece que, hoje, milhões de pessoas participam mais ativamente de sua evolução.

 

O QUE MORRE NÃO É A INSTITUIÇÃO, MAS SUAS MUITAS INSTÂNCIAS tweet

 

©© Surian Soosay @ flickr

 

Menos é mais

 

O paradoxo é que, nesse cenário, o valor da escassez supera o da abundância. O que é raro, o que significa dizer o que é mais difícil de reproduzir, tem mais valor. No sentido do virtual, onde tudo é facilmente reprodutível, qual é o valor de uma informação? O quão rápido essa informação perde significado? Quantos dias dura um “meme”? Por isso, são as instituições de que falamos que têm mais significado e mais valor.

 

Um sintoma de que o descarte de informações será necessário: começam a surgir sistemas e plataformas onde a informação é descartada ou onde falta uma parte, a exemplo dos aplicativos Snapchat (destrói a prova) e Secret (destrói a identidade). O que levanta a questão de que não há privacidade na internet senão a morte virtual dos dados e da informação. Quando não há freio para o excesso, nós mesmos nos tornamos o freio, ou o para-choque. Isso acontece também com informação. Mais e mais formas de descartar, escolher e fazer curadoria do que não interessa vão surgir. Mas e quanto às pessoas?

 

EXISTE A TENTAÇÃO DE VIVER DIGITALMENTE MESMO APÓS NOSSA MORTE tweet

 

Nada mais natural para o ser humano ter que se desfazer das coisas, já que a morte é uma certeza na vida, talvez a única. Aceitar a morte virtual está a quantos passos de aceitar nossa morte física? No ocidente, é raro quem se disponha a discutir a morte como uma coisa banal – não seria a coisa mais banal da vida? – e assuntos relacionados a isso são rotulados como mórbidos, mas afastado de seu real significado. Como sociedade virtual, temos um caminho estranho a nós. Há, sim, a tentação de deixar que nossas imagens virtuais nos sobrevivam na rede. Porém, como vimos, a rede é um fluxo e só um vivo poderia viver nela, reforçando suas conexões e fortalecendo suas instituições. Pelo jeito, estamos tornando virtual um comportamento bem atual: não convivemos bem com o nosso próprio fim.

 

Todas as imagens – ©© Surian Soosay @ flickr


Outros caminhos

Como se preparar para sua pós-vida digital? – artigo

Self Descruted Online Notes – ferramenta

Google cumpre decisão da União Europeia – reportagem

Extinction Timeline – infográfico

Snapchat – aplicativo

Secret – aplicativo

Morrendo a boa morte – artigo

Eu morri muitas vezes, e você também – artigo

The New Digital Age – livro

Avatares oferecem uma vida digital após a morte – artigo

If I Die – aplicativo

Como apagar sua existência na internet (2013) – reportagem

Delete your account – ferramenta

Wayback Machine – ferramenta

 

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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