Tem sempre alguns poucos dizendo aos outros tantos quais são as normas. Acontece nos condomínios e repartições públicas tanto quanto na ciência, ou veja só, na arte. É um fenômeno social que acontece em muitas áreas. Conforme o tempo passa, um determinado segmento se estratifica, surgem as natas, grupos com presumida docência ou maestria nessa área. Aproveitando-se de vantagens, herdadas ou não, e de configurações sociais favoráveis, essa elite pretende que tudo fique como está. Nenhuma novidade, todos temos experiência com algum tipo de norma sobre como as “coisas são”. Mas não nos deixemos entrar na esfera política.

 

TEM SEMPRE ALGUNS POUCOS DIZENDO AOS OUTROS COMO A ARTE DEVE SER tweet

 

Esse status quo existe em todos os registros históricos, inclusive no que convencionou-se chamar de arte. Aliás, o que convencionou-se como arte pode muito bem ser uma concessão elitista consolidada durante os milênios, feita com os artistas, apreciadores, mecenas, críticos e clérigos agregados ao círculo. Essa arte fica a cargo deles e não de qualquer um. E segue muito forte até hoje. Curiosamente, a figura do artista marginal tornou-se cada vez mais forte e influente nos últimos anos, mas de uma forma diferente. Hoje, a cultura se alimenta dos “marginais” sem as restrições com que fazia antes.

 

Fundação Bienal @ makingarthappen.com

 

Em parte por nossa tendência de viver na média, ou por nosso conforto psíquico em termos nossas opções reduzidas ao que podemos discernir como sendo as melhores, as natas vão coagulando-se em torno do espectro do conhecimento. Elas nutrem-se da ignorância e da falta de interesse ou capacidade de outros.

 

Esses termos, ignorância e desinteresse, não digo no sentido pejorativo, mas literal. Falta de capacidade pode significar: impossibilidade, falta de tempo ou de recursos; ignorância: falta de conhecimento, involuntária ou voluntária. Não podemos saber tudo, portanto na maioria dos momentos queremos (e precisamos) de quem nos diga quais são as melhores escolhas. E presumimos ou fazemos também a escolha de quem são essas pessoas. Dessa forma, nossa lista diminui de inúmeras opções para umas poucas pessoas em quem confiamos para nos dizer quais opções devemos escolher.

 

A arte figura entre as áreas humanas que têm uma disciplina de história que a estuda exclusivamente. Tantas foram as tendências e as particularidades durante a história da arte, que, em algumas épocas, pessoas corriam sério risco de morte por sua obra. Risco mortal em algumas; moral, provavelmente em todas as épocas. A arte, porém, foi, por muito mais tempo até que a ciência (ou o método científico como conhecemos hoje), o meio pelo qual o ser humano correu esses riscos. O risco da arte é sempre social (sem trocadilhos).

 

Quem guarda a vanguarda?

 

QUANDO TUDO É ARTE, PODEMOS TRANQUILAMENTE QUESTIONAR SEU PROPÓSITO tweet

 

Ultimamente, vemos arte em quantidades absurdas. É porque vemos técnica em quantidades absurdas. O que a cultura livre e a era da informação trouxeram parece ser uma euforia e sensação de poder. Experimentam arte, hoje, muitos que não ousariam há algumas décadas. Há uma cultura da experimentação em voga. Porém, qual o papel da nata atual em relação à arte? Pode-se questionar se essa pequena massa crítica que dita as regras é ainda necessária. O primeiro impulso é dizer, finalmente, que não!: a arte estaria se aproximando de ser livre. Por outro lado, que tipo de risco social e, portanto, de evolução cultural, de desafio, existirá para um artista se não há ninguém para dizer como as coisas são? A quem desafiar quando tudo é permitido? Quando tudo é arte, podemos tranquilamente questionar seu propósito.

 denise carbonell @ flickr

 

Há uma confusão a respeito dos caminhos atuais da arte em relação à sua elite, mas temos algumas pistas. Basta ver quem são os primeiros a se refestelar nesse enorme banquete de artistas de rua, hackers, jovens artistas descompromissados e “guerrilheiros” urbanos da arte. Basta ver quem estampa, discretamente ou não, os cantos pálidos das paredes ou as entrelinhas. Sim, as companhias e seus carimbos sociais, as marcas. A elite não está sumindo, afinal, está apenas se tornando mais complexa.

 

Não à toa, diversos artistas supostamente atacam e vandalizam as marcas com a sua arte. Mas essa praticam a de usar o fortíssimo veículo da arte para fins lucrativos, o mecenato, não é tão novo assim é não pode ser vencido facilmente. Afinal um artista tem que ganhar a vida. Nada, nada, serão, esses mesmos artistas, convidados a “ações” com intuitos tais que não vão contra seus princípios. O problema é que, assim como qualquer expressão social relevante, a arte serve de festim farto para a publicidade. Seus indultos são sedutores demais.

 

ANY ADVERTISEMENT IN PUBLIC SPACE THAT GIVES YOU NO CHOICE WHETER YOU SEE IT OR NOT IS YOURS. IT BELONGS TO YOU IT’S YOURS TO TAKE, REARRANGE AND RE-USE. ASKING FOR PERMISSION IS LIKE ASKING TO KEEP A ROCK SOMEONE JUST THREW IN YOUR HEAD.
Banksy  tweet

Mariginais, eis quem são

 

Se, antes, marginais poderiam ser qualquer um porque os padrões estavam definidos, e os bons eram os poucos a estabelecer vencer o status quo, hoje, há que ser bom a fim de encontrar sua verdadeira vanguarda, e poucos são.

 

Como alternativa, já vemos cada vez mais um tipo de arte que aborda o que o consumismo não nos deixa ver, o que nos é insuportável, nossos dejetos, nossos cantos escuros, o trato dos nossos excluídos, e isso se tornará cada vez mais sutil. Cada vez mais os guerrilheiros, com sua alcunha apropriada para o urbano, irão infiltrar-se em nossos preconceitos cada vez mais difíceis. Somente assim talvez seja possível esgueirar-se por entre os tentáculos do mercado e cutuca-lo por dentro.

 

Leo Eloy @ 31bienal.org.br

 

Como contraponto, porque não há marginalidade sem o leito do rio, como dissemos, para refletir como a questão de arte alternativa é complexa, recomendo o documentário da BBC onde o pensador Roger Scruton questiona e lança o argumento de “Porque a Beleza Importa”. Nele, apesar de que de certa forma conservadoramente, Scruton resgata uma questão importante sobre o que faz uma obra ser bela e sobre porque pode ser que estejamos de alguma forma tentando nos encontrar nessa pós-modernidade complexa.

 

Um filme conservador para explicar os rejeitados? Exatamante. Deixe os preconceitos “moderninhos” de lado e pense sobre como o belo tem a ver com as vanguardas de todas as épocas e como os marginais muitas vezes nos vomitaram o seu belo como ponto de partida para uma evolução cultural. Numa época em que uma pilha de cadeiras é parte de uma exposição como a Bienal de Artes, que podemos dizer sobre a técnica (ars) de empilhar cadeiras?

 

Cultura da abundância

 

Quando se tem mais que se pode lidar, muito mais que se pode contar, tendemos para o que simplifica, como já foi falado acima. Quando sobram nomes, pessoas, artistas, técnicas e arte, arrisco pelo menos um marginal e esse é, como uma ironia para a história da arte, o artista anônimo. Aquele que faz da escassez atual – a de desinformação – uma arma e assalta nossos sentidos.

 

Nesse caos imagético, a essência e a estética, de que muitos questionam o papel hoje, são mais necessárias que nunca. E o sentido que buscamos na arte, como humanos, continua firme e forte, sendo a eterna procura espiritual pela relação essencial com a nossa própria natureza que é, também, a natureza de que fazemos parte. Até que alguém a desafie de novo.

 

 

Imagem destaque – Denise Carbonell @ flickr

Imagem 1 – Leo Eloy – 31a. Bienal

Imagem 3 – Fundação Bienal @ makingarthappen.com

Imagem 3 – Denise Carbonell @ flickr

 

Outros caminhos

É artista e não sabe explicar sua obra? – imagem

Zezão – site

Paper Boy transforma o metrô em arte política – notícia

Banksy tenta vender sua arte anonimamente em NY – notícia

Outsider Art – site

 

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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