Aponte para um carro bonito e pergunte a qualquer pessoa na rua o que ela gosta mais naquele carro. “O design”, provavelmente será a resposta. Em boa parte do mundo, o Design é reconhecido apenas por sua vertente, digamos, mais aparente. Seja um objeto ou um cartaz, “o design é bonito”. Apesar de não ser absolutamente um erro, esse comportamento reduz muito o seu verdadeiro significado. Isso acontece com maior frequência nos países menos industrializados, como é o caso do Brasil. E o motivo é que a profissão do designer foi concebida, em suas duas mais conhecidas disciplinas, o desenho industrial e o design gráfico, como apoio para a indústria. Há apenas uma década, existiam por aqui praticamente apenas as duas disciplinas: industrial e gráfico.

 

ATÉ UMA DÉCADA ATRÁS EXISTIAM DOIS TIPOS DE DESIGN NO BRASIL tweet

 

Porém, como as indústrias aqui são pouco desenvolvidas, a familiaridade das pessoas com a finalidade dos dois designs é pequena até hoje. “Design” se tornou quase sinônimo de “gráfico”. No país, a palavra poderia ser usada em português mas manteve sua origem da língua inglesa, provavelmente porque “desenho” estivesse muito ligado às artes plásticas, mais distante do sentido que deveria ter.

 

Em países como os EUA, onde a disciplina também é muito conhecida como uma profissão de inventores, costuma-se associar o design, também, com a funcionalidade. É comum ouvir dos norte-americanos frases como “the machine’s design is very good” (o design da máquina é muito bom). Não querem dizer que é “bonita”, mas sim que é inteligente ou que serve ao propósito de forma boa. Propósito, como veremos, é uma palavra chave para o Design.

 

©© Kevin Dooley @ flickr

 

O que parece estranho é que as empresas não estão muito interessadas no que o Design realmente é. Tanto é verdade que levam a questão do Design Thinking como se fosse uma novíssima corrente de pensamento quando é, na verdade, apenas uma abordagem que leva em conta o Design. Design Thinking não é o divisor de águas (mesmo que muitas empresas “inovadoras” estejam tentando te convencer disso). Quando trouxe à tona o termo, David Kelley, da Ideo, provavelmente estava tentando trazer junto exatamente o questionamento desse texto. Pensar como designer, não é tentar fazer algo ficar bonito. Essa é uma das pequenas partes do processo. Pensar como designer não é “unir forma e funcionalidade”, outra parte do processo. Pensar como designer é justamente um processo – assim como a própria criatividade.

 

DESIGN THINKING NÃO É NENHUM DIVISOR DE ÁGUAS tweet

 

A parte pelo todo

 

Voltemos ao Brasil. O desconhecimento da profissão por aqui é patente. Basta ver as vagas de emprego para designers: seu leque vai apenas de webdesigner a designer gráfico na maioria dos casos. Quando mais, o designer invade áreas da publicidade (ou é laçado por elas) onde se confunde com direção de arte. Isso acontece por questões técnicas, já que os softwares usados por essas áreas costumam ser os mesmos.

 

E o que vemos é isso: a técnica reduzindo uma área inteira que tem ramos diversos e férteis a apenas algumas aplicações que são úteis a processos que hoje são quase mecanizados. Mas e quanto ao designer de experiência de usuário ou designer de interfaces? Felizmente essas profissões surgiram recentemente no Brasil e muitas vezes veem-se reféns, de novo, da técnica. Em vez de pensar ou usar o design e aplicá-lo à web (webdesigner), à experiência (user experience) ou ao visual (design gráfico), o profissional se vê moldado pelas convenções técnicas e softwares e faz somente como uma linha de montagem. Se você perguntar a um designer de interfaces o que ele faz, dirá sem pestanejar: wireframes. Desse jeito, parece que o “fazer wireframes” é que faz um designer de interfaces e não o contrário.

 

DESIGN SIGNIFICA CAUSAR IMPACTO NO MUNDO E NÃO FAZER UMA MESA
David Kelley tweet

 

Sem entrar no mérito de coisas como designer de sobrancelhas, o ponto é que não se pode deixar a forte especialização tirar do designer a obrigação de pensar. Aliado à falta de conhecimento sobre a profissão que é visível nas empresas brasileiras, podemos perder a oportunidade de enquadrar uma profissão que pode ajudar muito nos novos desafios de inovação; e também frente a países que a levam muito mais a sério.

 

Internet Archive Book Images_flickr

 

O que (deveria) faz(er) um designer

 

Existem muitas definições do Design. Eu gosto dessa: o Design busca unir identidade e propósito no contexto humano social e econômico. Parece muito generalista? E é! Por isso o design está em alta nos dias de hoje, em que inovação é a palavra de ordem. O designer deveria ter um coração de generalista dentro de sua especialidade.

 

Existem muitas especialidades e muitas mais estão por vir. Mas o Design é, sobretudo, um processo de identificação e solução de problemas para pessoas. Por isso os conceitos de identidade, que é relativo à identificação do problema (de quem, pra quem?); e propósito, ligado à solução (para quê?). Antes do gráfico, do infográfico, do layout, do wireframe ou da homepage: qual é o problema e quais os passos necessários para resolvê-lo?

 

SAIBA O QUE É DESIGN ANTES DE CONTRATAR UM DESIGNER tweet

 

Em alguns casos essa lógica acontece automática e rapidamente. Existem trabalhos simples, que estão dentro da mecânica do dia-a-dia? Claro. Mas perder-se nesse cotidiano puramente técnico impede o profissional de ser designer, ou seja, de poder repensar o próprio cotidiano. O designer deveria fazer o esperado, mas também inventar novos “esperados”. Dessa forma, tem de existir espaço e tempo para aprender sobre o problema e processos mecanizados não dão esse benefício. É por isso que o Design tem o potencial de unir áreas do conhecimento no mesmo problema; para ele, preconceitos sobre identidade e propósito não levam a lugar nenhum.

 

Novos nichos não param de surgir, como, por exemplo, o design de serviços. Esses profissionais cuidam da experiência e da jornada de um usuário de serviços de acordo uma uma nova lógica que coloca o serviço – e não necessariamente o produto – como objeto principal. Para eles, inclusive um produto é, na verdade, um serviço. É um exemplo de que o jogo pode ser repensado a todo instante. A própria cadeira evoluiu e hoje se reinventa face às grandes mudanças que estão por vir (e não vêm sempre?).

 

Portanto, da próxima vez em que quiser contratar um designer, pense nos problemas que ele pode resolver para você e não na quantidade de “e-mails marketing” ou “folders” que ele pode entregar. Se você quer apenas peças, esse profissional é outro e não um designer. Então, quem sabe, os aspirantes à essa profissão fundamental possam prestar o vestibular sabendo que sua verdadeira vocação vai ser valorizada e quem sabe o desenho industrial e o design gráfico, juntamente com outros que estão pipocando, deixem de representar pequenas partes e façam parte de um todo.

 

Outros caminhos

Atualização: Esse artigo muito bom do designer Maurício Manhães

 

David Kelley – Design é mágico – video

Por que o design – e não a tecnologia – vai moldar o futuro – artigo

Entrevista com Luli Radfahrer – video

O que é Design? Uma pergunta etnocêntrica – artigo

Filosofia do Design – site

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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