AS NARRATIVAS DÃO SENTIDO ÀS NOSSAS VIDAS tweet

 

Um homem do neolítico, esbaforido, pula pedras e arbustos com grande agilidade. Entre folhas e pedregulhos, foge de uma besta imensa, quase dez vezes maior que ele. Quando se esconde em uma rocha elevada, avalia sua situação. Sua lança está quebrada e está encurralado entre a fera e o desfiladeiro. Mas tem uma vantagem: somente ele tem a exata noção de sua situação. Somente ele é capaz de avaliar que, sozinho, nem a lança intacta o salvaria. É quando decide reverter o jogo a seu favor.

 

No começo do século vinte e um, um outro ser humano médio passa salas e baias com pressa, olha as pessoas e observa por um momento o comportamento delas; entre telefonemas e cafezinhos, entre gestos e suspiros. Senta-se em frente a uma tela e pondera se lê e-mails (o que, lembra, seu avô chamaria de “despachar”) ou se continua aquele seu texto guardado… bem… entre gestos e suspiros. Resolve que prefere enfrentar a fera.

 

Lá no futuro do quem sabe?, distante, ou nem tanto, uma moça experimenta com um aparelho recém comprado para seu laboratório. É uma peça não muito grande, do tamanho de uma impressora de comida, com uma lente transparente e comandos simples. Selecionado o período do tempo que tem interesse, faz um gesto no holograma azul. Na lente, surge uma cena nítida do passado. Nela, a mulher observa atentamente como um homem de milhares de anos atrás se vê encurralado atrás de uma pedra e espera ansiosamente – como a próxima cena de um filme – o desfecho da história.

 

©‎©‎ Rodrigo Franco @ PURO

 

As três pessoas, de tão diferentes, só poderiam mesmo estar separadas por milênios. Mas, por serem pessoas, têm muito em comum. Além, é claro, da mesma linha evolutiva, elas têm uma narrativa. Não só a narrativa desse texto, que as une. Seja sobre um mamute ou sobre presente, passado e futuro, cada um deles tem para si e para a sua realização pessoal uma história para contar. A diferença, porém, é como se conta a história.

 

NOSSO GOSTO POR MITOS CONSTITUIU A NOSSA PRÓPRIA PERSONALIDADE tweet

 

Voz, letra e número

 

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Para o homem pré-histórico, o veículo principal foi a voz. Com ela, as gerações perpetuaram as mesmas histórias por milênios, gerando linguagem, cultura e conhecimento e, efetivamente, mudando biologicamente a forma como o cérebro funciona. O homem do neolítico, se sobreviver, prestará um grande serviço para humanidade ao chegar a seus pares e contar sua história. Dessa forma, essa experiência poderá ser reproduzida e muitos humanos prosperarão. A única forma de isso acontecer é se as histórias foram repetidas entre pais e filhos, para que o conhecimento não se perca. Dessa época, herdamos o gosto por mitos e lendas, das quais, afinal, se constituiu nossa própria personalidade.

 

Já o homem que escreve praticamente imóvel em sua cadeira, mexendo apenas as sobrancelhas conforme o desconforto da tela iluminada arranha seus olhos, presta contas diferentemente. Cada palavra é gravada assim que é escrita, e o contexto pode mudar ou ser refletido e mudado conforme seu interesse. Desde que foi adotada a escrita, há muitos e muitos anos, a humanidade não faz outra coisa que refletir (e ver-se refletida) nos livros, os mais famosos deles ainda com resquícios das grandes lendas dos antepassados. Não só as pessoas ailmentavam a humanidade com histórias, mas elas mesmas passaram a se retro-alimentar, por séculos e séculos. Algumas foram esquecidas e depois retomadas, outras marcaram profundamente a consciência humana. Uma após a outra.

 

DESDE QUE FOI ADOTADA A ESCRITA, A HUMANIDADE VÊ-SE REFLETIDA NOS LIVROS tweet

 

Mais perto dos dias em que senta nosso escritor, uns 30 anos antes do momento em que olha para sua tela, uma nova consciência parece ter surgido, uma rede entre máquinas de escrever-refletir. Milhões delas agora são ligadas de um jeito quase orgânico, num fluxo alucinante. Além de se retro-alimentar, agora as histórias se repetem, com mudanças ou não, aos milhões. Esse mesmo padrão pode ser observado no mecanismo com que os seres evoluem; estariam nossas histórias ganhando vida própria? Eis que, finalmente, o jeito de contar histórias parece ter ficado cara com a complexidade que merece.

 

O fio da meada

 

A mulher ajeita o avental e faz um gesto com os dedos. Na lente de ultra-resolução, a imagem desacelera e o homem pré-histórico olha rapidamente de trás da pedra para o mamute enfurecido. Sua mão aperta a borda serrilhada para ganhar equlíbrio, enquanto escuta o vento forte vindo do desfiladeiro. Das muitas ações que são possíveis, ele escolherá uma. E essa mesma ação encadeará novos acontecimentos ou servirá de exemplo para outras ações. Em cima de sua história, muitas outras surgirão.

 

Hoje, começamos a brincar com a mesma lente dessa máquina do tempo. Como a mulher do futuro, que tem a vantagem de assistir à história de uma outra perspectiva, temos muitas simulações dos rumos que as histórias vão tomar e as histórias realmente tomam mais que um rumo. As narrativas derivam muitas outras, cada pessoa empresta para si e compartilha com os outros sua versão dos acontecimentos. A concepção de tempo, na narrativa, está mudando.

 

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Na pré-história, a cultura era cíclica; as histórias duravam uma geração. Na era da escrita, a cultura se tornou linear; as histórias evoluíam uma após a outra. Na era da informação, a cultura é diversa, as histórias convivem ao mesmo tempo.

 

E por falar em tempo: esse é o único elemento fixo na equação das narrativas. Apesar da mente humana conseguir ligar fatos não lineares, simulações e alegorias, para algo fazer sentido o tempo é crucial. É ele o fio da meada que reúne as narrativas tanto das lendas antigas quanto dos fragmentos atuais. Elas, hoje, acontecem ao mesmo tempo, mas o tempo de cada uma ainda faz sentido. Esses fragmentos, agora, fazem sentido sob uma ótica pessoal – o tempo do observador – como o homem pré-histórico está fazendo sentido para a mulher que o observa do futuro.

 

O DESAFIO DO NARRADOR SERÁ MANTER A SANIDADE DE SUA HISTÓRIA tweet

 

Em um mundo complexo, de muitas narrativas, a mente humana ainda se prova capaz de flanar entre histórias, encontrando sentidos pessoais em cada uma delas. Grandes histórias, daquelas que mudam as pessoas, têm agora, mais do que nunca, muitos outros enredos costurados dentro delas. Cada espectador toma para si esses pedaços, atribui significado e compartilha novamente. O desafio para uma empresa, um narrador, um storyteller – ou qualquer dos nomes que agora se dá a isso – será manter o senso do tempo único em meio aos fragmentos, para que a sua história possa ter vida longa.

 

O senso de tempo em relação à sociedade é exatamente o que torna possível que uma grande história possa ser contada de muitas formas. Ser apropriada por cada pessoa e, ainda assim, gerar muitos outros significados. O caminho não parece fácil. Enquanto isso, pela lente da máquina, a mulher de avental tem a nítida impressão que o homem ancestral olhou para ela por um segundo… antes de sair de trás da pedra.

 

@ Wikipedia

 

Imagem destaque: Wikimedia Commons

Imagem 1: ©© Rodrigo Franco @ PURO

Imagem 2: Montagem / imagens de Wikipedia

Imagem 3: Filme  “Os 12 Macacos”

Imagem 4: Wikipedia

 

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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