Estamos em uma mudança de era para o Design. Há alguns anos, os métodos e as principais vertentes da disciplina enfrentam uma transformação pautada pela informação. Novos nichos surgiram, como a abordagem do Design Thinking, Arquitetura de Informação, Visualização de Dados, Design de Jogos e Design de Experiência de Usuário, entre outros.

 

Mas nenhum passará por tantos solavancos quanto o que deu a fama e a popularidade aos designers durante o século passado, o bom e velho Design Industrial. Assim como várias outras instituições que conhecemos bem, como escolas públicas e currículo profissional, o DI foi concebido para suprir a demanda gerada pela industrialização.

 

NENHUMA DAS ÁREAS DO DESIGN SOFRERÁ TANTAS MUDANÇAS COMO O DESIGN INDUSTRIAL. tweet

 

Sem dúvida, a contribuição do Design para a evolução tecnológica e produtiva foi imensa. E programada. Cada evolução, cuidadosamente calculada para não ser menos, nem mais do que o mercado consumidor desejava. Os excessos, que fiquem com a propaganda, assim como o presumido controle desse desejo.

 

Slow Fast Food

 

A conspiração da lâmpada

 

Um designer se forma para encontrar a melhor solução possível, para o melhor produto possível dessa solução. E, de preferência, no menor custo operacional e maior otimização produtiva. Acontece que esses dois fatores são contraditórios. É o que diz o documentário europeu The Lightbulb Conspiracy. Prática muito bem documentada e assumida em determinadas épocas da era industrial, o filme mostra como a obsolescência faz parte do mercado de consumo. Assista:


 

 

Não há como negar que algo que se chama Design Industrial ou de Produto seja totalmente voltado para a produção serial da indústria. Os designers começaram a encontrar soluções para demandas que as corporações buscavam – ou criavam – no mercado. A profissão literalmente evoluiu conforme evoluía o mercado de consumo. O que resulta disso é que os profissionais desenhavam para a indústria e não para as pessoas. E como para as empresas do século passado não há pessoas e sim consumidores finais (século passado?), toda a lógica de conceitos como usabilidade e eficiência passa pelo que a empresa considera, através dos métodos de Marketing e afins, que o consumidor acha importante.

 

HOUVE UMA ÉPOCA EM QUE AS COISAS PASSAVAM DE PAI PRA FILHO. tweet


©© marketoonist.com
Quanto tempo até esse produto ficar obsoleto? Mais ou menos 5 minutos após anunciarmos nosso próximo modelo. Ha-ha-ha-ha

 

É preciso separar mudanças “cosméticas” e melhorias reguladas – novidades – de mudanças tecnológicas, de mídia, plataforma ou conceito – inovações. Trata-se da evidente diferença entre computadores com editor de texto e máquinas de escrever e destas máquinas para outras em que os tipos não enroscavam (um diferencial anunciado por algumas marcas na época).

 

Fadiga dos materiais ou energia de uma nova perspectiva?

 

Uma busca superficial na internet, em teoria, traz os resultados mais relevantes (inclusive filtrados para um designer). Ao buscar sobre obsolescência como motor da sociedade, não encontramos empresas, corporações, economistas ou governos falando sobre isso. Não na mesma internet em que se fala abundantemente sobre sustentabilidade e ecologia. Como se sentem os designers em relação ao assunto? Não há consenso.

 

A LÓGICA DO DESIGN DE PRODUTO ESTÁ NA ÓBVIA PRISÃO FORMADA PELA LÓGICA DE CONSUMO. tweet

 

Presos à lógica de mercado, os argumentos de ambos os lados se tornam cansados. Como deveria ser criado um produto, então? Seria a sustentabilidade, nessa visão, um mito? Como toda cisma, há um misto de esperança e descrença. Defensores do mercado de consumo questionam como sobreviveria uma economia em que produtos duram a vida toda. Ambientalistas questionam como sobreviverá o mundo se eles não durarem. Isso tudo não muda o fato de que a mudança se desenha.

 

Apesar da mesma lógica ser usada desde o princípio pela indústria de software, nesse caso pode ser mais facilmente questionada pois não envolve descarte. Aplicativos, sob o pretexto quase sempre correto de que estão corrigindo erros, atualizam-se o tempo todo. Com isso, já está claro que surge também um ciclo de consumo de bens culturais ou virtuais com a mesma gana frenética dos bens físicos. Entre físico e virtual, como vamos lidar com esse dilúvio de coisas?

 

Sombras desse medo, algumas ideias já surgem na cultura atual. O artista Thijs Rijker inventou as Suicide Machines, máquinas que se suicidam. Se alcançássemos a singularidade tecnológica, talvez seja esse o sombrio prospecto para as máquinas, senão por vontade, seja por vocação. Alguns aplicativos de comunicação móvel já destroem (supostamente) as mensagens logo após serem entregues. Outros dão acesso ao compartilhamento de objetos e aparelhos, como bicicletas, carros e apartamentos.

 

Muitos apostam que essa tendência será a clareira no céu para o Design. Para além do compartilhamento do uso, o compartilhaento de plataformas. O conceito do Phonebloks ilustra bem a proposta: um celular com uma base adaptável que evolui tanto com as necessidades quanto com as atualizações tecnológicas. Ou seja, câmeras melhores para quem gosta de câmeras, e câmeras mais atualizadas se for o caso, mas sem jogar o aparelho fora. troca-se apenas o módulo que precisa ser trocado.

 

 

A questão do módulo é interessante porque a especialização atual permite que isso seja feito de forma lucrativa. Os módulos, de outra forma, são usados também no processo do Quirky. Esta plataforma promete viabilizar qualquer ideia que se prove boa segundo métodos bem definidos e uma linha de produção que envolve milhares de pessoas colaborando em cada projeto, em cada etapa de produção. E todas recebem uma parte proporcional da receita gerada pelo produto final. Apenas alguns exemplos do que pode vir a ser o novo Design de Produto.

 

quirkyQuirky

 

Outras reflexões comçam a surgir. O Slow Design, braço do movimento Slow (devagar), que começou na Itália na década de 1980 com o Slow Food em oposição ao fast food, é parte de uma tentativa dos designers de responder ao questionamento do consumo atual. Sua origem é atribuída a um artigo de 2002 de Alastair Fuad-Luke. Desta as relações entre objetos e interações e as pessoas, e dá ao tempo a devida importância.

 

O movimento questiona o modo de vida descartável e coloca a qualidade de vida e do ambiente em primeiro lugar. Há outros representantes em áreas correlatas como o Slow Fashion (moda) e até mesmo Slow Cities (cidades). Não como uma resposta, mas como uma das respostas.

 

ESTÁ EM ANDAMENTO UMA TRANSFERÊNCIA DE PODER QUE PROMETE MUDAR AS RELAÇÕES DE CONSUMO. tweet

 

Não se pode falar em m mudanças no Design sem citar a nova era da impressão 3D, um assunto que demanda mais aprofundamento por seu provável impacto na sociedade como um todo. Como os designers vão lidar com o fato de que, agora, o usuário final (para as indústrias, consumidor final) vai fazer seu próprios produtos?

 

Essa transferência de poder promete mudar radicalmente as relações de consumo, principalmente porque vem aliada à cultura aberta da internet: vamos ter acesso ao conceito e poderemos transformar em realidade a qualquer momento. Uma cultura do executor  já deu sinais de renascimento, talvez possamos falar na era da democratização do Design.

pure_design

Cerâmica sustentável por Pure Design

Notas

Consultados:

Goethe Institute

The Verge

Wikipedia

 

Outros Caminhos

PURO

Uma nova era para quem gosta de fazer

Uma ideia na mão é melhor que duas na cabeça

 

Obsolescência Programada – wikipedia

Ending The Depression With Planned Obsolescence – documento (1932)

Apple´s planned obsolescence strategy: the coolness factor – artigo

Obsolescência planejada: armadilha silenciosa na sociedade de consumo – artigo

Quirky – plataforma

Phonebloks – segundo vídeo e artigo

Suicide Machines – artigo

Slow Design – wikipedia e artigo

Slow Movement – wikipedia

Cittá Slow – site

A revlução das impressoras 3D – artigo

 

 

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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