O ATO DE CRIAR NÃO É NECESSARIAMENTE O DE FAZER ALGO INÉDITO. tweet

A criatividade é um assunto paradoxal. Muito se fala sobre a inovação e o novo, mas também sobre como as melhores ideias nascem do óbvio e “por quê ninguém pensou nisso antes?”.

 

Ser criativo é uma condição social. É claro: somos criativos em relação aos outros e ao ambiente em que vivemos. As frases feitas daquele artigo sobre criatividade que você leu em algum lugar são verdadeiras: a criatividade é uma condição humana, todos somos criativos. Isso significa nada mais que isso: somos adaptáveis. Frases mirabolantes, piadas, desenhos ou invenções são apenas algumas das manifestações mais aguçadas e livres da criatividade. Todos são capazes de, em algum momento, dar um salto criativo que outra pessoa não deu.

 

© Ren West @ Wikimedia

 

Se você der um palito de madeira a um presidiário em uma solitária, pode demorar mais, ou menos, mas ele vai achar um uso novo para aquele palito. Uma arma? Uma escova de dentes? Um passatempo? Não importa. Nossa condição biológica nos leva a adaptar a nós mesmos e as coisas ao nosso redor. Adaptar-nos é evoluir, adaptar as coisas é inventar.

 

Atos verdadeiros de criação seriam muito raros se levássemos em conta as definições mais antigas. Aliás, segundo essas crenças, criação só houve uma vez. Uma singularidade. Mas a criação é muito mais corriqueira do que imaginamos, ao menos no que diz respeito a nós e ao que nos interessa. Acontece e nem nos damos conta. Quando rebatemos a frase de um amigo, organizando suas sentenças e colocando ali nossos próprios argumentos e repertório, ao construir um novo argumento, estamos criando. Qualquer desenho ou palavra sobre um papel é um ato de criação, de alguma forma

 

© Rodrigo Franco

 

Isso porque o ato de criar não é necessariamente o de fazer algo inédito, mas sim o de rearranjar os elementos novamente (de forma nova). Pode ser longo, breve, contínuo ou não. Na prática, qualquer desenho ou matearalização de um pensamento é, de certa forma, inédito, porque nenhum pensamento é igual a outro o quanto possamos mensurar que seja. Não podemos.

 

ADAPTAR-NOS É EVOLUIR, ADAPTAR AS COISAS É INVENTAR. tweet

 

Gosto muito dos escritos de Edgar Morin, que diz que as ideias são seres de espírito, ou seja, vivem. Nascem, têm vida própria e influenciam nosso mundo de forma ativa. Não nos toma muito trabalho pensar a respeito. Chegamos a matar por uma ideia – ou um ideal, que é a consolidação e endeusamento de uma ideia, tornando-a uma verdade absoluta a ser seguida. Dessa forma, as ideias têm muito mais força do que imaginamos e muito mais influência também. Relacionam-se conosco, comunicam-se e influenciam as formas de pensar. São ancestrais de ideologias e pensamentos dos quais nem lembramos mais. São pensamentos que não sabemos como surgiram, mas se formos a fundo descobriremos seus pais longínquos, como velhinhos sentados que nos olham e dizem que sempre estiveram lá.

 

Portanto não há vergonha nenhuma ter uma ideia que dizem já existir. É muito provável que ela já tenha existido, vivido e morrido há muito tempo e da qual existam apenas saudades esquecidas. Mas quando revivemos essa ideia, a fazemos renascer, a criamos, porque nasce em ambiente diferente e com novos estímulos pode ser tornar um novo ser, com novo potencial.

 

É ridícula a perseguição que sofre uma ideia (dita) não inédita, em primeiro lugar porque é o ineditismo depende da normalização (imprinting) da ideia, quer dizer, pelo seu reconhecimento social abrangente e válido. E em segundo lugar porque uma ideia nunca é completamente idêntica a outra. Se é feita por outra pessoa, que chegou a ela e a concebeu com métodos que sejam ligeiramente diferentes, em local diferente e em contato com diferente platéia, isso já é material suficiente para que seja outra coisa ou, pelo menos, que tenha outra finalidade.

 

Em uma era em que ficamos obsecados pelo novo, costumamos chamar uma ideia de velha com alguns meses ou dias de publicação. Se olharmos com calma, veremos que, muito provavelmente, essa notícia resgata antigos pensamentos embrulhados em novo papel.

 

OS PADRÕES SÃO OS BLOCOS ONDE PODEMOS PISAR MAIS FIRMEMENTE PARA AVANÇAR NO PENSAMENTO. tweet

 

Não podemos afirmar que algo seja realmente inédito, que nunca tenha existido em algum tempo, em algum lugar. Nos agarramos ao valor que uma ideia pode nos trazer declarando que é nossa e usamos o artifício da ordem cronológica; é minha porque tive a ideia primeiro. Assim, para que somente uma pessoa usufrua desse valor, uma cópia ou um plágio não poderia ser permitido. Essa propriedade faz tanto sentido quanto ter posse de palavras. Num âmbito maior, as ideais e o pensamento são a constituição de algo maior para todos nós. Se pensamos em posse para poder usufruir a ideia, faz muito mais sentido aceitar o uso e não a posse. Esse prejuízo da criatividade é um paradigma que está em vias de ser quebrado.

 

Em sua famosa série Everything is a Remix (que recomendo fortemente), Kirby Ferguson argumenta que o processo criativo é composto por 3 fases: Copiar, Transformar e Combinar. Eu adiciono uma quarta e fundamental etapa que é a de Associar, mas esta funciona como uma cola que liga as demais, formando uma sequência assim: Copiar > Associar > Transformar > Associar > Combinar. Um outro verbo que gosto muito é perceber, que poderia muito bem se encaixar no começo do ciclo.

 

 

PENSAR SOBRE COMO A CRIATIVIDADE FUNCIONA AJUDA A ENXERGAR MELHOR ONDE NOS ENCAIXAMOS NO PROCESSO E NÃO O CONTRÁRIO. DEVEMOS TOMAR CUIDADO PARA NÃO DEIXAR O PROCESSO TOMAR CONTA. tweet

 

@ Rodrigo Franco

 

O cérebro humano é um exímio reconhecedor de padrões. Esse aspecto, que permeia todo o processo criativo, de certa forma está ligado à etapa de associar. Mas é tão inerente ao jeito que o ser humano raciocina que podemos imaginar como sendo uma cola. A cada etapa, Copiar, Associar, Transformar, Combinar, o que fazemos é repetidamente comparar os padrões que alcançamos e moldar a ideia. Os padrões, por mais abstratos que sejam, são os blocos onde podemos pisar firmemente para avançar.

 

 

 

Tentar sistematizar como a criatividade funciona é apenas um artifício e estamos longe de alcançar sua complexidade. Em parte porque a memória, responsável por tudo que constituímos como pessoa e também como reconhecemos padrões e fazemos associações, não é sistemática. Tanto que existem vários diagramas, testemunhos, estudos e livros sobre o assunto.

 

Existem, porém, cada vez mais processos criativos categorizados. Um modelo muito interessante de sistematização é o Triz40, uma matriz conceitual que “ajuda a resolver contradições”. Você escolhe uma característica do problema e avança comparando-a a outros conceitos de acordo com a matriz. Por exemplo, segmentar, combinar, separar, tudo isso com centenas de associações com outras ações. Pode ser útil para questões mais práticas da criatividade, como engenharia.

 

Sendo a criatividade umas das mais fortes expressões da individualidade, era de se esperar que cada pessoa tivesse seu próprio processo criativo. Algumas semelhanças podem ser apontadas, mas não existem regras. Ainda bem.

 

Se você precisa criar e não sabe por onde começar, que tal dar uma olhada no que já foi feito, estudar referências (copiar…) e dar início ao ciclo?

 

Você já pensou sobre o SEU processo criativo?

 

 

Outros caminhos

PURO

Copiar

Associar

Transformar

Combinar

 

TED – Lista com 10 palestras sobre criatividade

Steven Johnson – De onde vêm as boas ideias e Emergência

Edgar Morin – O Método (6 volumes) – Volume 4

From Chess to Dreams – artigo

10 vídeos sobre criatividade – artigo

Triz40 – ferramenta

Psycology Today – seção de criatividade

Johnatan Milne – Go! The art of change

Ken Robinson – autor e pensador

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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