É POSSÍVEL PARA A MULTIDÃO CRIAR ALGO DE QUALIDADE? tweet

 

A multidão de dados e de participantes já é realidade. Com novas tecnologias de inter-conexão e redes de informação, crescem as possibilidades para o uso dessa multidão como fonte de multidados. O termo crowdsource, que surgiu em meados dos anos 2000, tem sido largamente usado para todo tipo de empreendimento que envolva muitas pessoas inter-conectadas. A expressão surgiu como um contraponto ao outsourcing, a terceirização nas empresas. O fato é que o uso de informação da multidão não é algo tão novo, mas com certeza escalou a um nível sem precedentes por meio da informatização.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

Em um artigo de 2009, o crowdsourcing chegou a ser chamado de “mito”, mas, apesar de ter razão em alguns pontos, o autor, Dan Woods, não compreendeu a abrangência do conceito. A verdade é que o termo é muito mais amplo que sua concepção original e geralmente causa confusões e polêmicas quanto a ser uma estratégica eficaz. Não tenha dúvidas de que é.

 

Muitos modelos de negócio deram certo com essa nova safra de dados, colhidos à medida que vão amadurecendo nos milhões dispositivos que invadem escritórios, casas e pessoas. A maioria deles – Apple,Google, Facebook, iStockPhoto, TaskRabbit, Quora, etc – são campos férteis onde a informação floresce, de forma razoavelmente controlada.  O maior varejista do mundo, a Amazon, também usa o crowdsourcing. Ao observar plataformas como eBay, onde a multidão povoa o negócio com seus próprios negócios, a Amazon percebeu que, para conseguir perseverar globalmente, teria que pulverizar-se em micronegociações. Novamente, a multidão é a fonte de dados e dinheiro. Mas não se engane: apesar dessas empresas inovarem criativamente em seus modelos de negócio, suas comunidades não geram criatividade per se.

 

Uma multidão de variáveis

 

Alçar projetos com base na massa é uma tarefa com muitos desafios. Os que tiveram a visão pelo menos um pouco acertada do novo paradigma que surgiu com a internet na virada do século são hoje gigantes que valem bilhões. Mas nem mesmo esses visionários podem levar o crédito total pela condução de suas empresas naquele começo da rede. Elas foram um produto da emergência da era da informação, suas estruturas foram crescendo com a própria rede. Somente nos últimos anos podemos distinguir projetos que fazem uso guiado das massas, numa espécie de nado à tona, para respirar os supostos benefícios do crowdsource.

 

Dentre as aplicações mais apreciadas estão as competições, como o 99Designs e as colaborações, como o sistema operacional Linux, mas essas são apenas algumas das muitas facetas do fenômeno. Apesar de serem modelos muitos diferentes entre si, todos aqueles baseados em multidão têm algo em comum.

 

Então, listemos algumas variáveis:

 

1) Contribuidor: voluntário | não voluntário

2) Contribuição: commodity | personalizada

3) Motivação: instrínseca | extrínseca

4) Resultado: esperado | diverso

5) Ambiente: aberto | fechado

6) Regra: colaborativa | cooperativa | competitiva | singular (?)

 

 

 

O que conta é o resultado

 

Todos os quesitos são importantes para o entendimento da questão, mas, ao pensarmos sobre criatividade e multidões, e para não alongar o texto, as chaves são: o tipo de contribuidor, o tipo de contribuição e o resultado. Um contribuidor criativo tende a ser voluntário. E sua contribuição, para agregar criativamente, precisa ser personalizada. E, acima de tudo, o resultado buscado em uma jornada criativa é diverso; o que se espera é um resultado de qualidade diferente. Essa é a caracterização fundamental que explica por que um outro modelo de multidados dificilmente poderá alcançar uma veia criativa.

 

A única exceção seria quando se trata de uma regra competitiva, o caso de muitos sites de concursos de design e até mesmo de serviços. Apesar de muito criticada por profissionais da Economia Criativa, as redes competitivas são, sim, crowdsourcing. Entretanto, até mesmo nesses casos a tendência é uma média, já que cada um é por si e o único fator de impacto seria o maior número possível de participantes, deixando de lado outros fatores como qualidade dos contribuidores e, principalmente, a subjetividade do resultado. Ou seja, existem muitas ideias diferentes entre si e o processo de avaliação quase não vale a pena, porque também se torna subjetivo. Muitas vezes não há melhor ou pior resultado, há apenas resultados diferentes e esses resultados não necessariamente evoluem para solução do problema.

 

Abaixo uma ilustração especulativa sobre as variáveis:

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

Um por todos

 

Quando a força motriz desses modelos é uma commoditie, regras simples e abertura costumam deixar que a multidão faça seu trabalho. Como eletricidade para um motor, contanto que a fonte de energia não mude, tudo continua girando. Aumento de transações, mais cadastros, mais conversas, mais dados, mais “likes”. Quando o resultado é esperado, a multidão cumpre seu papel sem maiores espasmos. É assim em um dos mais antigos modos conhecidos, a democracia. Mas, ao tratarmos de criatividade, massas e colaboração, tudo fica mais complicado.

 

MUITAS PLATAFORMAS DE CONCURSOS EXISTEM PORQUE SÃO OS ÚNICOS MODELOS MAIS OU MENOS VIÁVEIS PARA A CRIATIVIDADE DAS MULTIDÕES tweet

 

Ideias são contribuições pessoais, mesmo em relação ao crowdsourcing. Se são pessoais, poderia-se dizer que uma ideia é proprietária, já que (ainda) não se pode entrar na cabeça do autor. Porém, como disse Benjamin Frankilin, citado por Steven Johnson em seu fantástico De Onde Vêm as Boas Ideias, uma ideia, assim que se torna pública, não pode mais ser estancada. Uma vez exposta, não há sentido em alegar propriedade. Ninguém é realmente dono de um pensamento. Portanto, uma simples ideia pode ter, em seu DNA, algo diferente que vai servir de novo padrão para o que vem pela frente, e isso só é possível pela característica viral que as ideias tomam na sociedade.

 

Um estudo recente sugere que as pessoas naturalmente dão menos valor a obras que pensam ser feitas por mais pessoas – e tendem a valorizar mais uma obra feita por uma ou poucas pessoas. Aparentemente, todos imaginam e dão valor ao modo como a obra é feita.

 

É DITO QUE UMA IMAGEM VALE POR MIL PALAVRAS, MAS PARA DIZER ISSO USAMOS PALAVRAS E NÃO IMAGENS. tweet

©© jinterwas @ flickr

O tipo de contribuição e o método importam no processo criativo mais que o próprio contribuidor. O contribuidor tende a ser voluntário, mas inspiração nasce onde menos se espera. Por isso, mesmo sem querer alguém pode levar outra pessoa à evoluir no processo. Mas não é essa a percepção geral que se têm. Se uma obra é fruto de muitas pessoas, fica difícil compactuar com o não pertencimento. Queremos que o fruto de nosso empenho seja nosso de alguma maneira.

 

A questão não é formar multidões sábias. É conhecer como extrair sabedoria das multidões; portanto a sabedoria está no conhecimento e não na informação. A diferença está entre querer que uma produção criativa em massa seja guiada – algo ainda não alcançado – ou buscar uma extração guiada de criatividade originada na massa. No primeiro caso, uma tentantiva de nadar, no oceano de dados brutos, de uma costa a outra. No segundo, o verdadeiro sentido do crowdsource (crowd: multidão; source: fonte, origem), sendo o conhecimento que tem origem na multidão. Esse sentido usa o conceito de emergência, plenamente presente nas dinâmicas da natureza.

 

SE AS PIRÂMIDES TIVESSEM SIDO FEITAS POR APENAS 2 PESSOAS, A CONSIDERARÍAMOS UMA OBRA AINDA MAIOR tweet

 

Haveria um meio termo? Provavelmente; com certeza usando menos pessoas, em um processo mais harmonioso, como já é feito em muitos projetos de forma desestruturada. Em uma era de fragmentação e hiperconectividade, a sintonia torna-se um conceito que pode muito bem amarrar as pontas da criatividade coletiva. Quem quiser saber mais sobre esse meio termo, deixe um comentário.

 

Imagem em destaque: familymwr @ flickr

Imagem 1: Rodrigo Franco @ PURO

Gráfico: Rodrigo Franco @ PURO

Imagem 3:  jinterwas @ flickr

 

Outros caminhos

PURO

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Crowdsourcing – wikipedia

O despontar do Crowdsourcing – artigo

Criatividade não é um esporte de grupo – video

Artistas solo criam as melhores obras – artigo

O mito do crowdsourcing – artigo

Multidões podem encontrar doenças que médicos deixam escapar – artigo

99Designs – site

Canva – site

TaskRabbit – site

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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