COMO CONSTRUIR UM LUGAR QUE ESTIMULE A CRIATIVIDADE? tweet

 

Não é de hoje que o local de trabalho de artistas e pessoas consideradas criativas causa fascínio. Todos pensam encontrar nesses lugares algo que os empreste o que admiram em seus donos. Ou talvez queiram ser transportadas, de alguma maneira, ao imaginário do autor. Mas o que deixam de ver é que, geralmente, esses lugares não são criativos ou não inspiram por si só – apenas carregam a aura da pessoa e (por tabela) do trabalho que a ocupam durante um tempo.

 

O que quero dizer é que ateliês, oficinas e escritórios de gênios ou criativos são apenas lugares modificados para que sua mente ou imaginação fiquem à vontade. São muito pessoais. No mais, carregam impressões e referências muitos específicas ao processo criativo dessas pessoas e não elementos gerais da criatividade. Por isso vemos tanta diferença entre o escritório de Carlos Drummond de Andrade, com mesa e cadeira, máquina de escrever, quadros nas paredes, estantes cheias de livros, típico de um funcionário público, como ele foi, e, por exemplo, Picasso, com quadros espalhados, modelos vivos, bacias e pratarias ornamentadas por todo lado.

 

 

@Idea Fixa
Ateliê de Picasso

 

Carlos-Drummond-de-Andrade-1
Drummond em seu ambiente

 

 

Apesar de relacionarmos o estúdio de Picasso com lugares “mais criativos”, isso não é necessariamente verdade. O lugar não faz uma pessoa criativa, mas acolhe a criatividade dessa pessoa. O que equivale dizer que ele não pode criar, mas pode inspirar, confortar ou, pelo contrário, deprimir, exaurir, sufocar uma ideia. Pessoas transformam lugares que, por sua vez, as transformam. E veja que lugar é diferente de espaço; este último é uma distância, área ou volume determinados. Apenas isso. Já lugar é um espaço que adquiriu significado. Quatro paredes formam um espaço; um quarto se torna um lugar.

 

Se a nossa tendência é dar significado e valor aos espaços que habitamos, poderíamos dizer que temos que eles uma relação que nos toca de várias formas. Os espaços com que não nos identificamos, com o que não temos história (pessoal ou social) ou que não significam nada para nós seriam, então não-lugares. Não precisamos andar muito em grandes cidades para tropeçar espaços degradados, feios, sujos e não habitados. Espaços que nem as autoridades “lembram” de cuidar, pois não representam nada nem para essas instituições, que dirá para pessoas.

 

QUATRO PAREDES FORMAM UM ESPAÇO; O QUARTO SE TORNA UM LUGAR tweet

 

Apenas construir um espaço não o faz criativo, ou seja, não faz com que inspire e conforte a nossa criatividade. Usar objetos e símbolos considerados criativos, sem identidade com os participantes e com o ecossistema não fará com que pessoas o considerem significativo.

 

©© Open Data Institute Knowledge for Everyone @ flickr
Open Data Institute – Londres

 

O lugar como protagonista

 

No caso de estúdios e ateliês claramente o protagonista é o artista. O lugar entra como coadjuvante, não sem despertar curiosidade: como uma obra criativa é feita? A que horas do dia? Com quais ferramentas? Tudo isso faz parte da aura de uma obra daqueles considerados grandes artistas quanto à nossa apreciação pela técnica e pela estética.

 

ENTRE OS DESEJOS DAS PESSOAS E AS IMPOSIÇÕES DE MONUMENTOS, DEVEMOS PROCURAR ESPAÇO PARA A CRIATIVIDADE tweet

 

Quando o lugar é especialmente importante, assume o centro do significado atribuído a ele. É assim com marcos como, por exemplo, as Maravilhas do Mundo Antigo, como as pirâmides de Gizé. A aura está predominantemente no lugar, ele é obra de si mesmo. Nele, cada detalhe é parte importante de uma história e de um significado que diz respeito a ele próprio.

 

Esses lugares, portanto, são: 1) Particulares – subjetivos e íntimos ou 2) Monumentais – impessoais e dominantes. Qualquer um dos dois casos não é a melhor opção para se construir um local voltado a abarcar criatividades diversas que influenciem todos os participantes; qualquer um deles estaria restringindo, julgando ou modelando excessivamente os participantes.

 

 

Pessoas como protagonistas

 

Para não deixar o ambiente em segundo plano ou sequestrando a energia criativa, devemos buscar um meio termo, mais apropriado até mesmo ao termo ambiente, que, nesse caso podemos definir como lugar que envolve pessoas, objetos e redes de conexões (sociais, de signos etc).

 

Nesse sentido, as pessoas que participam do ambiente — e também suas aspirações, medos, preconceitos e significados — são a cola que liga espaços e objetos. A coletividade é o que faz tudo ter sentido. Se não convém usar os lugares pessoais e monumentais como modelo, podemos sugerir o seguinte: o lugar pessoal como espaço interior e o lugar monumental como ecossistema.

 

 Divulgação
Casa da Cultura Digital, São Paulo, SP

 

Assim, um lugar criativo poderia:

 

1) no interior, usar alguns ambientes particulares (entre outros)

2) no exterior, usar um ambiente monumental

 

como forma de:

 

1) ganhar significados personalizados e se alimentar da diversidade

2) ganhar significados sociais e alimentar a diversidade

 

Por isso, uma exposição ou um museu, no sentido mais tradicional, frequentemente não têm nada de criativos. Em um lugar criativo, a construção é do coletivo em relação aos espaços, pesssoas e objetos.

 

 

Lugar – como usar

 

Além dos conceitos pessoas/ espaços, existem diversos outros que impactam a experiência e a interação. Mas, como se trata de uma construção, somente a experimentação pode trazer novos conceitos relacionados ao particular e ao ecossistema.

 

 

Paredes ou espaço aberto? 

Cada um tem o seu propósito. A tendência atual é achar que grandes espaços abertos e compartilhados estimulam a criatividade. Mas como extrair o precioso material criativo dos lugares particulares (a exemplo dos ateliês)? Paredes ou, para efeito de ideia, barreiras, podem servir como avisos de particularidade, para separar pequenos grupos, para requerer silêncio. E também servem como divulgadoras de ideias, como é o caso de um mural. Espaços abertos pressupõem participação, transparência e visibilidade. E um conceito interessante, que é a visão do todo e a possibilidade de escolha sem surpresas. Importante lembrar que um espaço criativo fervilha com a colaboração, mas nem sempre um espaço colaborativo (Ex.: escritórios compartilhados) são ambientes criativos.

 

Ambientes transmitem cultura 

Pessoas alimentam lugares com sua personalidade; e os lugares, portanto adicionam e retransmitem essa massa cultural. Muitas vezes, deixar o lugar transmitir sua mensagem causa uma grande transformação nas pessoas. Aqui, se pode ver a inspiração que a ideia de lugar monumental pode ter, se usada em proveito da criatividade.

 

Participação na construção do espaço 

Quando quem vai usar participa da construção do espaço, automaticamente se constrói significado. É uma oportunidade de aplicar personalidade e ganhar experiência, e tudo isso é revisitado toda vez que se está no ambiente. O coletivo ganha força e, posteriormente, pode reverter essa força em criatividade com mais facilidade.

 

Exponha materiais crus 

Percepção prosaica, mas que tem um porquê. Mesmo que seja inconsciente, materiais crus nos ligam com a prima mater, com o que é primitivo. Madeira, terra, ferro, pedras são começos de coisas a serem criadas e trabalhadas. Isso causa uma sensação de aconchego pois não estamos diante de uma obra terminada que tem que significar algo, mas estamos diante de algo que não nos ameaça.

 

Preste atenção às interações não intencionais das pessoas que usam o espaço 

Uma velha lição do Design: preste atenção em como as pessoas fazem as coisas. E crie sobre isso. Usando gostos e práticas particulares, as pessoas são a melhor fonte para criar o espaço que elas querem. Deixe-as fazer e use.

 

Dê permissão: estimule o “sim” 

Um lugar permissivo tende a ser mais criativo. A questão principal é o acesso, tanto a espaços, como a coisas e a pessoas. O que há por trás daquela porta onde está escrito “Acesso Restrito”? Provavelmente um estoque de coisas que podem servir para criar algo.

 

Use os limites como inspiração 

Que tão usar o “não”?  Seguindo a máxima de que a criatividade cresce na adversidade, usar os limites físicos ou sociais de um lugar podem trazer resultados interessantes, a exemplo do que já foi dito em relação às paredes. Imagine, por exemplo, uma exposição no escuro, ou um jogo coletivo em espaço pequeno.

 

Deixe coisas por fazer 

Não deixe tudo pronto. Comece e deixe espaço para que as pessoas construam as coisas e o lugar.

 

*

Percepções livremente tirados e evoluídos do livro Make Space, da d.school em Stanford (EUA).

 

 

©© John Nash @ flicker
d.school – Universidade de Stanford, EUA

 

Imagens:

Destaque: ©© Wolfgang Sterneck @ flickr

Imagem 1: @ Idea Fixa

Imagem 2: sem crédito

Imagem 3: Casa de Cultura Digital @ Startupi

Imagem 4: ©© Open Data Institute Knowledge for Everyone @ flickr

Imagem5: ©© John Nash @ flickr

 

 

Outros caminhos

PURO – Criar é muito simples

Os espaços dos criativos e famosos – galeria

Artistas e seus estúdios – galeria

Make Space – livro

O conceito de lugar – artigo

Prefácio para “Farewell” de Carlos Drummond de Andrade – texto

 

Lugares

 

Cidade Buzziana – site

Ricardo Brennand e seu espaço – wikipedia

Dragão do Mar Centro de Arte e Cultura – site

Casa da Cultura Digital – site

Escola São Paulo de Economia Criativa – site

Bairros criativos – artigo

Oliva Creative Factory – site

Building 550 – d.school Stanford – site

Escola Palomar – wikipedia

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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