NINGUÉM CONSEGUE TER, AINDA, A DIMENSÃO DA INTELIGÊNCIA DAS MULTIDÕES. tweet

 

Os meios de produção em massa de conhecimento começam a atingir o usuário médio de internet. O tempo necessário para aprender a produzir e compartilhar informação é muito menor hoje que há poucos anos. Saímos de um cenário em que havia produção em massa simplesmente porque havia muita gente no mundo, para um cenário em que há muita gente produzindo conteúdo, em termos absolutos.

 

Essa simples diferença tem impacto fundamental na diversidade do conhecimento produzido. O que antes ficava restrito a círculos pequenos, agora poder estar acessível ao um número muito grande de pessoas, as contribuições e comentários são onipresentes e a evolução técnica permite mudanças rápidas de forma simples. Tudo isso deixa o cenário empolgante e ao mesmo tempo difuso.

 

© Tim Parkinson @ Flickr

 

TER PROPRIEDADE SOBRE UMA IDEIA, HOJE EM DIA, ESTÁ FICANDO INVIÁVEL. tweet

 

Aqui entram os mecanismos de busca e os grandes portais, que agregam ou listam esse conteúdo, de acordo com suas próprias regras. Se temos mais acesso que antes, podemos afirmar com certeza que não temos acesso a tudo que é produzido. Por outro lado, a informação existe, sem dúvida, e a única coisa que impede que seja encontrada é a cara e árdua tarefa tecnológica e estrutural de montar uma empresa como o Google.

A facilidade de engajamento e criação de informação fez com que diversas empresas e instituições criassem métodos para aproveitar a multidão. Os métodos e plataformas, de tão novos, batem de frente com a norma atual sobre autoria e domínio intelectual.

Propriedade

 

Sem entrar no âmbito legal, acho que o mais importante é reunir um consenso razoável sobre o próprio termo, propriedade intelectual. Temos como pensar em termos de propriedade quando falamos sobre informação, ideias, conceitos? O crowdsourcing, como ferramenta de negócio, começa a esbarrar em questões como essa: faz sentido voltar-se para a multidão em busca de respostas e negócios e depois apropriar-se disso?

Toda informação na rede, de certa forma, é capaz de receber um registro de entrada. Esse log nos diz cronologicamente quando aquela informação entrou e podemos rastrear sua influência na rede até um certo grau. É nossa tentativa de responder a perguntas como, Quem teve a ideia primeiro, quem foi original?, perguntas que derivam da mentalidade constituída da propriedade intelectual. Faz diferença?

 

© Rodrigo Franco

Essa mentalidade foi adaptada daquela mais antiga ligada à posse de terra, ser o primeiro a chegar a um lugar, de acordo com a ética dominante, dá o direito legítimo à propriedade. Mas, se todos já estão lá, faz mais sentido pensar em uso. Qual o uso faço da informação é o que importa, e uso não tem dono. Mesmo porque ter propriedade sobre uma ideia, hoje em dia, está ficando inviável.

 

PESSOAS REÚNEM-SE AO REDOR DE UM INTERESSE COMUM DESDE SEMPRE tweet

 

A vertente mais promissora é aquela que busca retribuir as pessoas pela informação que produzem e existem muitas formas de fazer isso. Dinheiro é apenas uma delas. Quando usamos um serviço como a busca do Google, estamos usufruindo da informação da coletividade, mas estamos também retribuindo com dados sobre nossos interesses e comportamento.

 

É claro que grandes corporações, valendo-se de leis fatigadas e dessintonizadas, lutam para manter o status de donos de grande parte das ideias, principalmente da metade do século XX para cá. Uma rocha ainda resistente, mas que, tudo indica, vai ceder.

 

Comunidade como ferramenta

 

A questão que surge dessa tendência é como gerenciar ou guiar essa produção massiva de informação. Quais regras ou estudos sobre a própria sociedade podemos extrapolar para a condução de uma rede? O conceito de comunidade não é, de forma alguma, novo. Pessoas reúnem-se em grupos em torno de um interesse comum desde sempre. Interesses em comum são a alma da comunidade e influenciam em sua força e no grau de interatividade das pessoas. É importante lembrar que a comunidade existe dentro e fora da rede, sendo um e outro apenas representações de um conjunto de pessoas.

 

FAZ SENTIDO UM NEGÓCIO APELAR PARA O COLETIVO EM BUSCA DE IDEIAS E DEPOIS APROPRIAR-SE DELAS? tweet

 

Na rede, a gestão de comunidades tem ganhado espaço. É uma atividade que usa as aglomerações de pessoas, como redes sociais, fóruns e portais para obter resultados específicos, geralmente ligados à produção de valor, financeiro ou não. Por mais genérico que possa parecer, é nessa definição onde encontramos oportunidades valiosas para resolver problemas ou oferecer valor. Pessoas aglomeram-se por razões específicas, por meio de interações e dinâmicas específicas, com muitas variáveis. Mas sempre em torno de um forte interesse em comum. A pesca, por exemplo.

 

©©vastateparksstaff @ Flickr

 

O Big Banging da Coletividade

 

O uso da informação coletiva aponta para dois caminhos. Usar as informações que emergem naturalmente do grupo como o faz o chamado Big Data e a exemplo do TweetMap de Harvard; ou canalizar o coletivo para a produção de informações específicas, como tentam algumas empresas e outros projetos, como o sensacional The Johnny Cash Project. Seria algo como o crowdsourcing passivo (emergente) e o crowdsourcing ativo, dois caminhos que começam a ser trilhados por empresas e indivíduos. Atualmente temos muitos projetos dependentes e independentes que exploram a inteligência coletiva.

 

A MULTIDÃO PRODUZ TANTO QUANTO A  INTERFACE PERMITE INDIVIDUALMENTE. O RESTO É EMERGÊNCIA. tweet

 

Outra área que cresce muito explora os dados gerados em áreas ainda não digitalizadas. Em livros, por exemplo. Com o Google Books, o Google tem o singelo objetivo de digitalizar todo o acervo de livros produzido pela humanidade. Isso teria implicações que podemos imaginar, mas não ainda medir. Com alguns anos de andamento, as possibilidades de busca e interpretação dos dados são virtualmente infinitas. Um exemplo é o conceito de n-gramas (n-grams), que significa um termo ou texto (poderia ser o termo “criatividade”) repetido ao longo de um parâmetro, por exemplo, em relação ao tempo. Hoje podemos buscar qualquer expressão ou palavra em todo o acervo já digitalizado, desde séculos atrás. O Google disponibilizou no seu projeto do Books um Ngram Viewer, permitindo, inclusive, a comparação com mais de um termo. Seguindo o exemplo, segue o gráfico do termo (n-grama) “criatividade” versus o termo “inovação”:

 

@Google Ngram Viewer

 

A INTERPRETAÇÃO DA MATÉRIA BRUTA DE INFORMAÇÕES TEM DIVERSOS AGENTES E DIVERSOS PROPÓSITOS tweet

 

O que acontece se extrapolarmos a análise e o uso dos dados para uma aplicação em tempo real? Existem vários projetos que querem uma experiência interativa baseada nas reações do espectador. Na área de música e entretenimento, surgiu o Algorave, um projeto em que DJs usam algorítmos para tocar sequências musicais que variam de acordo com o a reação de quem está na pista. São usados sistemas como IXI Lang, overtone, puredata, Max/MSP, SuperCollider, Impromptu e Fluxus. Um exemplo de como somos cada vez mais retro-alimentados pelos dados que produzimos e que interpretamos.

 

Que a unanimidade é burra, todo mundo já sabe. Mas ninguém tem ainda a dimensão da inteligência divergente das multidões. E, principalmente, como lidar com isso, já que o processamento dessa matéria bruta será feito por diferentes agentes, para diferentes propósitos. Em breve, será feito, mais provavelmente, por um algorítmo que faz o papel de uma inteligência otimizada. E novamente relegaremos à inteligência artificial os números e relatórios nos quais baseamos nossa visão de mundo e, em alguns casos, até o próprio ato de interpretar.

 

Outros caminhos

The Johnny Cash Project – site

Código Aberto (Open Source) – Wikipedia

TewwtMap – aplicativo

Use of Mass Collaboration – TED

Ngrams – aplicativo e TED

Algorytms Raves – artigo

Algorave – site

 

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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