No século XVI, Giordano Bruno ampliou a teoria de Nicolau Copérnico de que a Terra não era o centro do universo, como pregava a Igreja Católica. Essa era uma mudança tão grande de paradigma que séculos se passaram até que suas ideias fossem, finalmente, aceitas. Foram os primeiros passos de uma tomada de consciência sobre a verdadeira posição do ser humano no contexto do cosmo.

 

Em 1960, satélites registraram as primeiras imagens da Terra de fora dela. Mais tarde houve o  primeiro ponto de vista humano à respeito: “A Terra é Azul”, disse Yuri Gagarin. Em alguns anos surgiu a nossa concepção de planeta, para além do “mundo” em que vivemos. Passamos a enxergar a Terra, e ter uma prova de que os mapas que víamos desenhados eram realmente os continentes em que estávamos, e sobretudo com uma visão humana. Tudo isso pode ter contribuído para o início da mudança mental e social em relação ao que pensamos sobre nosso planeta, sua finitude (agora cabe em uma foto) e nosso papel no consumo individualista ocidental. Que consequências poderia trazer o fato de que hoje temos acesso quase irrestrito ao mapa preciso do nosso planeta, com ferramentas de extração de milhares de dados em segundos?

 

O MODO COMO ENXERGAMOS O MUNDO MUDOU QUANDO PUDEMOS VÊ-LO DE FORA. tweet

 

©© Andor Bencze @ flickr

 

Imagens do coletivo

 

Nesse mapa, avançamos com câmeras que espalham-se por grande parte das metrópoles mundias, em milhões de esquinas, e estão nos notebooks, tablets, telefones, carros, aviões e casas. Temos virtualmente imagens de todos os lugares habitados. O que entendemos como privacidade está gradativamente mudando a medida em que nos acostumamos a ser observados. Com uma diferença fundamental em relação a processos anteriores: as ferramentas se interseccionam, as imagens aparecem em sites, que ligam mapas, que contêm imagens, nomes e referências pessoais. Perdemos o controle sobre como essas informações são usadas. O controle foi perdido no momento em que empresas vislumbraram o enorme potencial de achar não pessoas, mas consumidores, públicos-alvo de seus esforços de vendas.

 

Entre a esfera privada, em casas, carros, condomínios e escritórios, e a esfera íntima, nos nossos aparelhos móveis e computadores, sensores que nem imaginamos vão se instalar numa simbiose estranha com os próprios objetos, aguardando o momento de captarem o que que que seja. No futuro, se descobrirão sensores secretos que antes não estavam lá, com propósitos dos mais variados, mas que sempre podem ser usados para tornar pública uma informação.

 

AS FERRAMENTAS DE PUBLICIDADE SE INTERSECCIONAM, NÃO HÁ MAIS CONTROLE tweet

 

Vídeos e imagens existem hoje ao infinito, mas o mais importante é a banalidade das ferramentas de manipulação. Elas ajudam a criar e recriar significados, ou seja, a viralizar determinados conteúdos, fato a que estamos constantemente expostos. Além das câmeras, milhares de outros tipos de sensores vão inundar o cotidiano. Programas que prometem avaliar sensações, emoções e comportamento entrarão no grande mapa virtual dessa nova camada social, a camada de dados. O mapa não é mais um plano. É um holograma em 4 dimensões onde estão posicionados nossas informações — as que queremos e as que não queremos — na largura, altura, profundidade e tempo.

 

©© Jeroen_Elfferich @ flickr

 

A publicidade do conhecimento

 

Em contraponto à privacidade, a publicidade dos dados pode trazer novas fronteiras ao conhecimento. Ao analizar grandes quantidades de dados a humanidade pode atingir um outro estágio na compreensão de seu próprio cosmo, até no nível mais complexo, o microcosmo.

 

Novas possibilidades para governos compreenderem a complexidade de suas sociedades e da ciência descobrir novos caminhos dentro da complexidade.Estatísticas sobre comportamento de massa em relação à violência, alimentação, pobreza e transporte serão escrutinados e usados, pela primeira vez, em referências cruzadas à outros dados complexos, trazendo resultados que nunca antes foram vislumbrados. Um exemplo interessante é do cientista Deb Roy que levou ao extremo a invasão de privacidade de sua família em prol da ciência.

 

IDEIAS COMPLEXAS IRÃO SE CRUZAR COMO NUNCA ANTES FOI POSSÍVEL tweet

 

 

 

A cultura hacker que traz o conceito de abertura de informações na sua essência, é, ao mesmo tempo, temida e ovacionada ao redor do mundo. Hackers, hoje, têm eventos disputadíssimos e muito divulgados, como o Hackaton. Enquanto presidentes de vários países mostram sua indignação com a espionagem norte-americana com sua agência NSA, outros órgãos públicos adotam a estratégia de hackear as instuições na busca de inovação e abertura.

 

Assim como a noção de trabalho e de modo de vida mudou com o advento da industrialização, provavelmente a noção de privacidade também mudará. Novos becos e refúgios serão criados para que as pessoas mantenham a integridade de sua intimidade, para guardar o que não podem compartilhar com a sociedade, mas o novo arranjo será o determinador dos limites legais que devem surgir nas próximas décadas.

 

©© Brian Klug @ flickr

 

Imagem destaque – ©© Thomas Tolkien @ flickr

Imagem 1 – ©© Andor Bencze @ flickr

Imagem 2 – ©© Jeroen_Elfferich @ flickr

Imagem 3 – ©© Brian Klug @ flickr


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Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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