DESIGN É A CAPACIDADE DE MODIFICAR OS AMBIENTES PARA SATISFAZER NECESSIDADES E CRIAR SIGNIFICADO
John Haskins tweet

 

Se essa definição do design estiver próxima da correta, então estivemos fazendo um péssimo trabalho nos últimos 100 anos, pelo menos. Em todos os aspectos. Estamos, sim, criando significados, muitos, mas também estamos vendendo-os pelo que temos de ar, água, terra, árvores e qualidade de vida. E tempo, muito tempo.

 

O design ganhou importância nos últimos anos, principalmente por causa da apopasia em relação às mudanças frenéticas por que estamos passando. Como uma disciplina que estuda a mudança, as empresas (maior força política atual) voltaram-se para esse novo modo de pensar. Mas por que, entre tantas ciências e áreas, por que o design? Talvez por causa da busca pelo mistério, a abertura que existe nos processos; essa abertura, principalmente nos últimos anos, recebe com muito entusiasmo outras áreas do conhecimento e estimula a diversidade. Isso, infelizmente, ainda não é uma regra nos meandros científicos de ponta.

 

Fato: a evolução tecnológica já é mais rápida que a capacidade da sociedade em absorver toda sua complexidade. Claro, as tecnologias de mais impacto são assimiladas, mas somente na proporção em que o contexto da pessoa permite. Passamos do ponto em que simplesmente a energia elétrica pode nos impedir de fazer algo necessário: comida, por exemplo. No Brasil, uma em cada dez pessoas acha que HTML é uma doença. Ignorância? Culpa do sistema educacional desastroso? Não. Para essas pessoas, o HTML é absorvido pelo seu contexto apenas enquanto informação na tela. E isso basta.

 

TUDO O QUE ABRAÇA E PENSA A DIVERSIDADE VAI GANHAR UMA INEVITÁVEL IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA tweet

 

©© Busk-Hertzog @ wikimedia

 

1% mercado, 99% irrelevância

 

Nille Juul-Sørensen, designer dinamarquês, levanta a questão: “temos que começar a projetar como se déssemos a mínima”. Hoje somos sufocados por milhares de objetos, cadeiras coloridas, celulares de todos os tamanhos, xícaras engraçadinhas, restaurantes divertidos. Tudo isso é uma estratégia para preencher cada nicho de mercado, ou seja, cada poro que resta do nosso copo. Já somos mercadorias físicas e virtuais. Mas a pergunta fica: isso realmente importa? Quantas pessoas ou empresas estão dispostas a mergulhar nos verdadeiros nichos, nos vazios que deixam a sociedade e os governos?

 

Estamos cegados pelo movimento inebriante do carrossel de consumo. Quando começamos a nos incomodar, caem novidades de paraquedas. Nesse quesito, a cultura influi bastante. Os países nórdicos, de onde vem Nille, têm uma tradição de levar o design no nível estratégico desde o começo do século. Isso quer dizer que, em determinado momento, eles pararam para avaliar o futuro, como nação, e traçaram um plano. Não há resposta certa, há apenas uma necessidade de pensamento crítico. Mas, se já nos projetos comerciais e industriais, o que é projetado tem uma distância enorme para adaptação e aceitação social, que dirá projetos de impacto social em si.

 

OS DESIGNERS DE HOJE PROJETAM PARA O 1% QUE COMPRAM IMPORTÂNCIA tweet

 

A lógica de consumo e adição de valor está atingindo um ponto de crise. Mas essa lógica é incrivelmente adaptativa. Muitas das nossas áreas de questionamento e contracultura já estão novamente caindo nas amarras complexas da Era da Informação, totalmente envenenadas por um pensamento conservador do consumo. É o caso da música e da arte.

 

Objetos, ambientes, visuais, claro que tudo isso importa. Esse artigo é um esforço de provocação. A questão de obedecer a uma regra estritamente de mercado é um dos mais importantes paradigmas que o design tem que quebrar. A medida em que o consumidor ganha poder, o design pode se libertar das suas raízes industriais e legar sua forma de pensar à sociedade da forma mais importante do que nunca.

 

Pacto com o impacto

 

Isso significa levar em conta qualquer conceito que possa causar impacto. Um exemplo: costumamos associar o belo ao fútil. Mas o belo é uma parte fundamental da nossa relação com a natureza. Pensado de forma aberta, o belo é uma forma de conectar pessoas, lugares e objetos. Para causar impacto, portanto, o belo deve ser investigado em relação a todas as disciplinas e não somente as de artes ou filosofia. O que é belo para o matemático? Abandone os preconceitos, ou use-os com sabedoria.

 

MUITAS DAS ÁREAS DE PENSAMENTO E CONTRACULTURA ESTÃO ENVENENADAS PELO PENSAMENTO DE MERCADO tweet

 

O design usa diversas estruturas e processos para endereçar problemas. O próprio Nille sugere uma: 

Três “mundos”que se entrelaçam no tempo – o Agora, o Novo e o Posterior.

1) Agora, precisamos de embalagens plásticas em cada alimento que compramos.

 

2) O que vamos fazer quando, no Novo cenário, as mudanças climáticas começarem a ficar insuportáveis por causa dessa conduta?

 

3) Do que vamos precisar no cenário Posterior, quando o valor do material de cada objeto for maior do que o valor que damos para seu uso e até mesmo o plástico ficar inviável?

 

As corporações usam o design sistematicamente há mais de um século e estão começando a acordar para as novas tendências. Já usam estratégias sociais (e não falo só de midias sociais) e ferramentas etnográficas. Elas têm até planos bem traçados para a tendência de consumo compartilhado: vão coletar itens velhos e reciclá-los. Temos pouco tempo antes que esse sistema prenda nossa atenção, novamente, ao que importa para ele. Agora, do que precisamos para começar a projetar o que realmente importa?

 

 

 

Nota

Justamente quando a disciplina do design parece estar sob uma pressão de mudança, o Senado brasileiro aprovou (novembro, 2014) uma lei que regulamenta a profissão. Trata-se de uma demanda de mais de 30 anos no país. Infelizmente, o que caracateriza um designer, nessa lei, é de viés completamente antigo e baseado na lógica que esse texto critica:

 

“Art. 2º Designer é, para os fins desta Lei, todo

aquele que desempenha atividade especializada de caráter

técnico-científico, criativo e artístico para a elaboração

de projetos de design passíveis de seriação ou

industrialização que atendam, tanto no aspecto de uso

quanto no aspecto de percepção, necessidades materiais e de

informação visual.”

 

Os grifos são meus. Longe de criticar a importância dessa conquista. Sei que é uma grande vitória da profissão, porém, como designer que se preze, os termos no longo prazo me incomodam.

 

Outros caminhos

PURO – Bonitinha e ordinária – a velha pedra no sapato do design

Lei de regulamentação ddos designers – PDF

Designers projetam para 1% – artigo

Uma nova filosofia de consumo: reusar, reciclar, relegar – artigo

Design that Matters – site

Estudo da IKEA sobre a rotina de pessoas em algumas cidades do mundo – site

Uma em cada 10 pessoas pensa que HTML é uma doença – notícia

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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