Quantas vezes você já parou pra refletir sobre seu processo criativo? tweet

Esse foi meu desafio por duas semanas, tempo em que criei e documentei algo partindo do zero. Do ideal ao material. Você tem três maneiras de ler esse texto (Nem preciso dizer qual a minha sugestão):

A → B

B → A

Somente A ou B

A

[1] Há algum tempo penso em fazer algum tipo de brinquedo para me desafiar a fazer algo manual. Quando fazemos algo com o uso de mão e ferramentas estamos, de certa forma, testando pré-conceitos, colocando algo de que gostamos muito quando está dentro do nosso ninho ideal no mundo para ser testado. Isso é algo que gosto muito de fazer: quebrar pré-conceitos. Ou talvez ter a satisfação de ver que essa ideia sobrevive!

[2] Pois então, no Natal surgiu a oportunidade de materializar algo para a Manu, minha sobrinha. Aliada ao acesso que tive a uma cortadora a laser e à facilidade com programas gráficos, a coisa toda ficou irresistível.

[3] Algumas das vantagens da cortadora à laser são a velocidade e baixo custo dos principais materiais que podem ser cortados, mais especificamente das placas de MDF. O grande barato de placas é que sua lógica é bem simples, quase 2D, o que não significa que não se possa fazer coisas complexas. Também há o fato de que há milhares de projetos gratuitos disponíveis para servir de referência ou ser modificados.

[4] Durante alguns dias de auto-provocação mental sobre o que seria feito, busquei na memória referências de jogos ou mecânicas lúdicas que conhecia ou já tinha visto. Lembrei de algo, mas não tive certeza de cara. No começo, evitei buscar jogos prontos porque queria que fosse um presente com algo de autoral. Visitei um tema que gosto bastante, os monstros. Então decidi que o meu brinquedo teria que ser algum monstro. E acabei fazendo algo que faço muito e que é o contrário do que muita gente faz: desisti de buscar referências prontas de qualquer tipo e me concentrei em entender o material (placas de MDF de 3mm) e como trabalhar com ele.

[5] Aquela primeira memória que busquei voltou mais forte, de uma mecânica que vi em uma loja de brinquedos educativos em que um eixo com duas bolinhas caia girando por um caminho em zigue-zague até o final. Esse passou a ser a essência lúdica do meu brinquedo, em torno do qual as demais peças se encaixariam.

Como funciona a criatividade

[6] Então, tive que juntar as duas ideias mais simples que constituíam meu projeto. Como se tratava de um brinquedo, o lúdico é parte fundamental, no meu caso, a mecânica baseada em gravidade. E o significado daquilo tudo, o símbolo, que é a temática de monstro. É nesse ponto crucial que a criatividade fica menos racional e mais intuitiva: em menos de 2 minutos, já tinha decidido que seria um monstro engolidor de coisas, essas coisas seriam pecinhas (um carro? um prédio? uma bomba?) que cairiam usando a mecânica que escolhi chegando até seu “estômago”.

[7] Tive que testar o funcionamento das ferramentas antes de continuar o processo. Mas nesse caso, avancei muito do projeto no programa gráfico porque tenho facilidade e já tinha mexido com a ferramenta principal antes (cortadora à laser) e conhecia algo de sua operação. Por isso, me permiti o risco de avançar sem precisar testar em cada etapa.

[8] Havia apenas um detalhe de todo o projeto que não era feito na cortadora: o eixo que formava as pecinhas que seriam “engolidas”. Fui à loja comprar cavilhas (peças de encaixe de madeira). Acabei me deparando com outras opções: que tal uma peça pronta que pode ser colada, ou uma bolinha que escorrega, em vez de um eixo? Como era um teste, e porque era barato, acabei comprando outras duas opções para testar a mecânica do brinquedo. E tive que mudar alguns detalhes do projeto no computador antes de testar na máquina de corte.

Ah, contato com a realidade! Nenhuma ideia é a mesma depois disso. tweet

[9] Ah, contato com a realidade! Nenhuma ideia é a mesma depois disso. O que não quer dizer que ela não sobreviva. Antes de produzir o material inteiro, resolvi testar algumas partes principais que sabia que podiam dar errado – nomeadamente a essência lúdica dos eixos e alguns encaixes. Dito e feito: precisei de cinco versões ajustadas para sentir que poderia tocar a produção toda. Nas primeiras tentativas, o eixo não descia completamente. Mudei o desenho e simplifiquei; fiz um acabamento manual que não estava previsto.

[10] Ao final do processo, consegui fazer funcionar a brincadeira e a montagem do brinquedo. Estava tudo ali: um monstro que engolia coisas e essas coisas caíam de forma divertida, girando, até encontrar a barriga dele.

[11] A todo momento, precisei retomar e guardar o sentido original do que estava fazendo: um presente para minha sobrinha. Sendo assim, faltava uma parte principal, que era o “empacotamento”, a narrativa do que era o brinquedo. E foi aí que surgiu o “Papão”, que é o nome do monstro e sua “fome de comer tudo, até o mundo”. Isso ia de encontro ao que tinha criado antes. As “coisas” que o Papão comem são, por exemplo, um ônibus, uma pessoa, um planeta, uma lata de lixo. Isso já estava na minha cabeça e foi criado de forma intuitiva mas não tinha ainda encontrado seu sentido.

[12] Na maioria das vezes, tentei ajustar o projeto para que o que aprendi já fosse incorporado no que estava fazendo. Por exemplo, toda vez que a mecânica dava errado, eu já ajustava os arquivos originais com o acerto. O processo criativo não é linear e esse é um dos maiores erros que se comete ao tentar “gerenciar” alguma coisa assim. No fim, não há criatividade sem aprendizado. E vice-versa.

Como funciona a criatividade

B

O processo criativo de um presente de Natal para a Manu, minha sobrinha, passo-a-passo com legenda:

  1. A criatividade é a vontade de se testar e desafiar (por meio de ideias)
  2. A oportunidade faz o risco valer a pena
  3. A facilidade e o custo baixo em determinadas partes tornam rápido e mais interessante o processo
  4. A criatividade é individual antes de ser coletiva. Por isso temos tanta dificuldade em abrir mão da autoria
  5. Toda realização criativa tem uma essência, que não precisa ser inédita, mas que uma vez percebida dá sentido à tudo.
  6. Ao materializar algo, quanto melhor o casamento entre essência e significado, mais motivador é o projeto para quem faz e para quem usa.
  7. Ter domínio das ferramentas (maestria) dá mais controle sobre riscos, evita frustrações em relação ao processo e deixa apenas você com o seu desafio.
  8. Em muitos momentos, deixamos as alternativas tomarem conta do processo, numa divergência que pode ser uma distração; por outro lado, não se abrir a isso pode eliminar oportunidades de melhoria.
  9. Apesar da sofisticação das ferramentas (software, cortadora à laser), nada substitui a o teste no que diz respeito a quebrar seus pré-conceitos. Saber quais partes testar – mais do que planejar bem no começo! – pode ajudar a economizar tempo, sofrimento e recursos
  10. Se a ideia conseguir sobreviver e manter a sua essência durante o processo de materialização (realização), ela venceu seu maior desafio.
  11. As duas principais vertentes da criatividade são a expressão e o impacto. Para ambos, fazer sentido “para fora”, ou seja, para a sociedade (ou para o famoso “público-alvo”, se preferir), é fundamental. Qual a narrativa?
  12. No fim, não há aprendizado sem criatividade. E vice-versa.

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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