Há algo muito estranho acontecendo com a economia atual. À parte o fato de que essa frase pode ter sido dita em qualquer momento da história dos últimos séculos, dessa vez parece que realmente há algo estranho. Pessoas aglomeram-se em quadros de instabilidade política e social pelo mundo, questionam a falta de privacidade, penteiam detalhes pessoais e políticos por páginas de páginas e redes sociais, constroem mídias independentes como nunca antes, formatam e publicam documentários-denúncia e se auto-organizam em coletivos de ação. Mas o que explica a estranheza não são esses sintomas, mas o fato de que pessoas e empresas estão fazendo isso à revelia das instituições e estão fazendo consigo e para si.

 

PESSOAS E EMPRESAS ESTÃO TOMANDO ATITUDES À REVELIA DAS INSTITUIÇÕES tweet

 

Pode-se argumentar sobre a falsa sensação de autonomia que internet proporciona. É claro que nem tudo é mar de rosas no oceano de dados, ou não seria necessário algo como a Deep Web para servir um canal livre de amarras (além de mediar negócios escusos). Somos constantemente vigiados e as forças que manipulam essa massa de pessoas-dados são muito menos óbvias do que sempre foram. Não significa, também, que essas forças tenham o mesmo poder que tinham as da velha guarda. O jogo está ficando bem mais complexo para todos os lados. A estranheza, porém, persiste, ela surge, urge, emerge como uma intuição em meio às autarquias da consciência: é estranho o que não se conhece por completo.

 

©© Raquel Baranow @ flickr

 

Colapso nervoso

 

Estamos doentes. Somos um paciente esperando nervosamente uma palavra de conforto ou sentença de um médico. Estamos sentados numa sala bege, olhando os aparelhos por todos os lados e nossa respiração é ofegante. Em meio a um turbilhão de pensamentos, esperamos respostas, mas não as temos, olhamos incrédulos para o semblante do médico, percebemos uma lágrima, ou consternação, ou naturalidade, ou até mesmo um meio-sorriso. Está tudo confuso. Recebemos más notícias, os exames recentes indicam uma terrível doença; sabe-se a causa, sabe-se dos sintomas, sabe-se até mesmo o que fazer. São más notícias. Seria uma doença terminal ou alguma coisa tratável? Seria essa estranheza a ansiedade de que talvez seja tarde demais?

 

Viciados, no último século desenvolvemos uma série de dependências, principalmente de recursos finitos. Desnecessário dizer sobre a dependência da humanidade em relação ao petróleo e aos minérios. Ou da cadeia de alimentos produzidos industrialmente em escala, envenenada, em que a produção é suficiente, mas não a distribuição e nem o acesso. Ou da tecnologia computacional, que cresce num caminho sem volta. Quem sabe até mesmo a produção de energia (um pilar da economia que depende de recursos escassos) seja finita, nos termos da viabilidade. A questão é: para haver colapso não é necessário que uma coisa acabe, basta que se torne inviável. Entra em cena a dependência menos óbvia, a econômica.

 

NO ÚLTIMO SÉCULO DESENVOLVEMOS UMA SÉRIE DE DEPENDÊNCIAS DE RECURSOS FINITOS tweet

 

Desde que debutou como uma doce torta na vitrine do século XVII com o iluminista escocês Adam Smith (por incrível que pareça, ainda o “pai” da coisa toda), o pensamento econômico capitalista, aquele que explicaria tudo, desde como países podem se tornar mais ricos até por que pessoas trocam, esse pensamento teve como muleta a teoria. Sim, pois na prática a coisa era muito mais complexa, já desde cedo. Passamos de um pensamento mercantilista para o liberal, e depois industrial, socialista, protecionista, neoliberal, monetarista… entretanto o mundo real, de certa forma, sempre foi uma anomalia muito mais que uma regra econômica. As ideias econômicas estiveram francamente envenenadas pelo fenômeno acumulativo tipicamente moldado pelas ideias iluministas das quais nasceram. Quase todos os modelos econômicos são ideais: “tudo funciona se todos sabem as regras de mercado…”, “o homem econômico é sempre racional…”, “oferta e demanda são uma razão simples…”, “dinheiro faz dinheiro…” e por aí vai.

 

Tecido fino

 

QUANDO AS INSTITUIÇÕES ESGOTAM TODAS AS ALTERNATIVAS DE LASTRO, SURGEM IDEIAS PARA CATALISAR VALOR SOBRE VALOR tweet

 

Aos poucos o fino barbante que emendava a economia “real” foi sendo esfacelado por mecanismos de concentração de renda, como os bancos privados, e de criação de valor monetário, como os bancos centrais e governos. Quando essas instituições esgotaram todas as alternativas de um lastro com o mundo físico, começaram a surgir ideias de como catalisar o valor sobre o que era abstrato. O dinheiro que se ganhava já não era suficiente para cobrir dívidas e gerar lucro viável dentro do paradigma.

 

Só que existe um problema: a economia capitalista de consumo é baseada em recursos, bens, produtos, serviços e valores empacotados. Eis que surgiram coisas como os derivativos, em que se pega um atributo não físico (derivado), exemplo, a aposta de um preço no futuro, e se negocia esse atributo. A intenção, além do lucro, é claro, seria diluir os riscos; ao negociar um atributo eu aposto no valor do atributo e não só do bem, uma coisa muito mais maleável e suscetível. Depois, empacotou-se novamente esse tipo de “produto” com outros tipos para mascarar negócios podres, e assim diluiu-se mais ainda os riscos, culminando na crise de 2007-08. A pergunta que se faz é natural: quem está pagando o seguro-fiança e diluindo o risco? O mercado e nós, contribuintes, quando assistimos aos governos que pegam mais dinheiro emprestado para salvar os bancos (e o sistema) da falência, aumentando sua dívida interna. E a ironia é: os governos pegam emprestado dinheiro turbinado no mercado com os bancos para salvar… os bancos. Hum, sem dúvida causa estranheza.

 

O PIB ESTÁ EM TODAS AS NOTÍCIAS SOBRE ECONOMIA, MAS NÃO CHEGA PERTO DE MEDIR A RIQUEZA DE UMA SOCIEDADE tweet

 

O consumo deve crescer, sempre. Essa inebriante dependência puxa pelo colarinho todas as instituições privadas e políticas. Apesar de já ser fato consumado e comprovado (no chamado Clube de Roma, desde 1972), existe um claro paradoxo no fato de que essas instituições ainda acreditam em um crescimento infinito num mundo finito. E mesmo que se pudesse criar valor real sobre outro valor, como nos derivativos, a conta não fecha, pois o próprio sistema atual fia-se num paradigma de acumulação. Não se acumula infinitamente no nosso planeta.

 

O sistema atual tem suas vantagens, segundo muitos. Claro, não tivesse talvez não durasse tanto. Todas as benesses, como “enriquecimento da população” e “diminuição da desigualdade”, se são reais, acontecem sobre a métrica do próprio sistema. Para comparar e ter certeza, precisaríamos de um grupo de controle, um sistema de fora, como num experimento científico. Cuba conta pra alguns, mas não pra outros e está longe de ser uma unanimidade. E parece que tribos indígenas com sistema independente são artigo em falta no mercado.

 

economia_bastarda

 

Pimenta no de todos é o quê?

 

Passamos a medir o bem-estar e o significado da existência social por números como taxa básica de juros, câmbio, balança comercial e PIB. Eles estão lado a lado com notícias policiais e de cultura. Medir tal complexidade em meia dúzia de números considerados importantes é forçar a barra do homem-econômico racional. Sem contar que o PIB, por exemplo, é reconhecidamente uma métrica muito pobre para avaliar riqueza, como avaliou outro economista, Richard Easterling.

 

Empresas preocupam-se com custo e receita. O resto não interessa. O que fica de fora dessa simples equação é o que se chama de externalidade. Poluição e acidentes são externalidades. Desde que Arthur Pigou sugeriu em 1920 que os custos sociais do problemas deveriam ser taxados ao causador, o casal exemplar formado por empresas e governos calaram-se convenientemente. Veja bem: há 75 anos ou mais sugeria-se que essas anomalias deveriam ser reguladas e agora, bem, parece que o mundo inteiro é uma grande externalidade.

 

PARECE QUE O MUNDO INTEIRO É UMA GRANDE EXTERNALIDADE tweet

 

Na Parte II, quais são os pensamentos emergentes que prometem transformar nossos conceitos sobre economia.

 

 

 

Outros caminhos

 

Adam Simith – wikipedia

 Arthur Pigou – wikipedia

Clube de Roma – site

Derivativos – wikipedia

Externalities – video

Collapse – documentário

The Corporation – documentário

Homem-econômico – wikipedia

A Sociedade do Cansaço – livro

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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