(Leia primeiro a Parte I)

Que fazer, já que estamos esgotando todos os recursos (sem trocadilhos)? É importante dizer que o novo paradigma não virá através de uma intervenção como a que fez, por exemplo, Richard Nixon na década de 1970, quando desvinculou o dólar do ouro. As instituições atuais não possuem os meios para controlar a economia como no século passado ou talvez essas ferramentas nunca tiveram todo esse poder. Há muitos anos a economia de escassez mostra cansaço. Os sinais mais claros desse esgotamento foram frequentemente substituídos por alçadas supostamente salvadoras, como a informatização nos anos 70 e o crescimento do mercado de capitais nos anos 80 e a mais recente, o empreendedorismo. Vamos parar pra pensar nesse último.

 

O comportamento de representar a nova individualidade na forma de um empreendimento não é novo. Pode ser observada em sua essência desde os primórdios da civilização, mas o conceito que usamos atualmente foi colocado no papel por Joseph Schumpeter na primeira metade do século XX. Schumpeter foi um dos primeiros economistas a considerar papel das inovações tecnológicas como grandes motores de mudanças econômicas; inovações seriam uma das chaves para sair da estagnação econômica. Alguns estão chamando este de o século de Schumpeter. Será?

 

O CONCEITO DE EMPREENDEDORISMO TEM UM PAPEL IMPORTANTE HOJE, MAS NÃO É O MESMO DA ÉPOCA DE SEU CRIADOR tweet

 

Sem dúvida, o empreendedorismo tem um papel importante atualmente, mas talvez não da mesma forma que há 50 ou 60 anos. Sim, hoje temos startups que são sinônimo de tecnologia, e sim, são tecnologias que quebram recordes a cada semana. Mas o empreendedorismo atual tem um sentido mais social: é um catalizador de independência. Muitas startups e empresas surgem, porém o mais importante (e mais perigoso, talvez) é que, pela primeira vez, há menos consideração por regras e leis. Com esse tipo de empreendedorismo, é a sociedade quem corre para se adaptar ao que está surgindo nas garagens pelo mundo. Por isso, devemos considerar apenas a essência do empreendedorismo como reflexo da nova economia e não apenas seu papel capitalista – este está preso às regras do jogo. Talvez devêssemos celebrar a autonomia do empreendedorismo antes que qualquer outra coisa. A questão que fica é se essa autonomia poderia nos trazer o bem-estar físico, mental e espiritual que tanto precisamos ou se seria ela um caminho autoguiado para a exploração de nós mesmos, mascarado por uma falsa liberdade. A verificar.

 

©© Charis Tsevis @ flickr 

 

Tripé

 

Da mesma forma que devemos dar um passo atrás em relação ao conceito de empreendedorismo, Jeremy Rifkin, autor e conselheiro político, defende que devemos fazer o mesmo com o conceito de internet. Segundo ele, a verdadeira internet compreende três esferas: a comunicação, que é a internet que conhecemos hoje, com informação farta e redes sociais; a energia, com fontes de energia descentralizadas e distribuídas; e o transporte com novos conceitos de compartilhamento e mobilidade.

 

De fato, no transporte, por exemplo, vemos mudanças de tipos de modais, mais simpatia a outros modos de locomoção e até mesmo uma nova forma de pensar o deslocamento: devemos morar ou trabalhar tão longe? Já no campo da energia, surgem casas que vendem excesso de energia para o sistema, vilas com produção comunitária de energia, unidades autônomas e baratas que captam energia limpa. E há sempre uma ponta de esperança por combustíveis como o hidrogênio, eletricidade ou bioenergia, que são ataques diretos a algumas das dependências sociais da atualidade (Ver Parte I). Países com grande economia financeira, como EUA, Alemanha e Reino Unido, já estão se movimentando para colocar a questão da energia limpa como prioridade.

 

A INTERNET TEM TRÊS FASES E ESTAMOS APENAS NA PRIMEIRA DELAS tweet

 

O mais importante é que pessoas estão discutindo e tomando iniciativas sem a interferência de instituições e compartilham informações sobre elas na primeira e mais famosa esfera da internet, a comunicação. Devemos aguardar e torcer para que a cara boa do empreendedorismo, a autonomia, seja um grande motor para que as demais esferas se fortaleçam.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

Bastarda trindade

 

Muitos conceitos têm surgido para abarcar as mudanças em curso. É mais certo que tudo ficará mais claro quando, no futuro, olharmos para trás e enxergarmos as variáveis com mais imparcialidade. São tendências que surgem da complexidade e do caos, não têm pais nem criadores, são formadas das próprias conexões e interações da rede e do sistema atual. Três deles têm sido mais recorrentes:

 

Economia Criativa

Conjunto de atividades econômicas que compreendem produtos e serviços de cunho intelectual e que usam a criatividade como meio de produção.

 

Economia de Compartilhamento e Colaboração

Existem diferenças seminais entre compartilhamento e colaboração, mas ambos fenômenos fazem parte da mesma facilitação social que está emergindo. No primeiro, há a geração e troca de valor por meio do uso compartilhado de produtos e serviços, agregando valor à ociosidade e ao desuso. No segundo, há a geração e troca de valor pela aplicação de esforço e dedicação de duas ou mais pessoas para que o resultado seja mais relevante.

 

Economia Circular

Sistema econômico em que cada bem ou serviço é projetado e executado com valor intrínseco para o próprio sistema, seja através do reuso, reciclagem, reaproveitamento e ressignificação.

 

Outros termos são Gift Economy, Economia Sustentável, Economia Comportamental, Economia da Abundância, Economia da Multidão, entre outros (alguns termos são mais comuns em inglês: crowd economy, behavior economy, economy of abundance…)

 

As três formas de economia destacadas não são independentes, muito pelo contrário, são sistemas intricados entre si e que emergem por inciativa mista, de governos, empresas e indivíduos. São modelos de interpretação de fenômenos às vezes esparsos, às vezes mais concentrados. Não há intervenção e o controle por parte das grandes corporações parece diminuído. Ao menos é o que parece.

 

AS ECONOMIAS BASTARDAS NÃO NASCERAM DE POUCOS, MAS EMERGIRAM DA PRÓPRIA SOCIEDADE tweet

 

A economia não ia passar por uma revisão deixando as empresas como estão. Portanto, as empresas também estão mudando muito. Em vez de represar recursos e vender controlando os preços (velha economia), estão deixando o rio correr e vendendo barcos, pranchas, pedalinhos… (nova economia). No novo paradigma, a informação trouxe o mar de dados e outras perspectivas de negócios, como define Salim Ismail em seu livro Organizações Exponenciais. É o que fazem, Google, Uber, Facebook, Easy Taxi, entre outros. Estamos saindo de uma economia de recursos escassos e entrando numa economia de abundância. As empresas não controlam mais a produção. Elas controlam o acesso. Aí está a chave do novo poder de controle, o nosso ponto de atenção: quem e como controla o acesso. Agora faz sentido a pressa por vigiar e invadir privacidade de milhões de pessoas.

 

@ Wikipedia
O moto-contínuo é um mito científico em que uma máquina poderia
se autossustentar ao infinito, como nesse falso esquema de Robert Boyle

 

Bitcoin e a descentralização econômica

 

A CHAVE PARA OS MODELOS ECONÔMICOS ERA A CIRCULAÇÃO TRANSPARENTE DE INFORMAÇÃO tweet

 

Se as pincipais teorias econômicas pudessem eleger uma peça chave de seu argumento, esse seria, talvez, a informação. De fato, a informação é tão importante para o sistema econômico que a maioria das falhas ou desentendimentos dele com a realidade de mercado se devem ao fato de que nem todos têm as mesmas ou todas as informações. Por outro lado, esse fato também pode ser o responsável pela enorme concentração de capital que se verifica hoje e, consequentemente, das enormes possibilidades de ganho. Ganha mais que tem mais informação – e isso é claríssimo quando tratamos de bancos ou fundos de capital agressivo. Apesar de a informação privilegiada ser proibida por lei na maioria dos países com grandes mercados de capitais, informação de qualidade é o que consolida maiores lucros.

 

Uma das mais conhecidas fraudes econômicas durou mais de uma década, entre 1822 e 1836. Um escocês chamado Gregor McGregor inventou um país inteiro, chamado Poyais, que ficava na costa da América Central. Sua capital seria cosmopolita, com portos modernos, prédios e até uma ópera. Apostando na falta de informação, vendeu terrenos, ações e pediu empréstimos na Inglaterra e na França. Essa é uma das primeiras bolhas econômicas documentadas.

 

Pois bem, a primeira “fase” da internet é justamente a comunicação. Vivemos a Era da Informação (alguns diriam que não se trata da Era do Conhecimento, ainda) justamente porque a troca de informações é (supostamente) livre ou, pelo menos, incrivelmente facilitada entre participantes de qualquer nível. Nada mais natural, portanto, que emergisse da web algum conceito relativo a isso. Hoje o representante desse fenômeno é o Bitcoin. Essa moeda exclusivamente virtual está sendo considerada a próxima grande revolução econômica. Segundo o empreendedor João Paulo Oliveira, essa nova moeda partiu de um princípio que resolveu um dos grandes desafios matemáticos da ciência da computação, o problema dos Reis Bizantinos. Esse desafio matemático é uma anedota baseada em um problema de comunicação e sua resolução foi compartilhada anonimamente na internet, servindo de base para a viabilização conceitual do Bitcoin. Ou seja, uma moeda que nasceu aberta em todos os sentidos.

 

@ Wikimedia

 

O Bitcoin é a primeira implementação real de uma cripto-moeda – uma moeda onde as transações são baseadas em criptografia matemática. Quatro pontos são mais importantes: 1) não há um “banco central”, a emissão da moeda pode ser feita por qualquer um que disponha dos recursos (atualmente, computadores específicos para isso); 2) não há intermediários, qualquer um pode realizar troca com outro par diretamente de maneira simples via web (P2P ou peer-to-peer); 3) não pertence a uma empresa ou a um governo, seu código fonte é aberto e qualquer um pode modificá-lo; 4) é baseado em modelos matemáticos e sua segurança e revisão pode ser reclamada por qualquer usuário.

 

O BITCOIN É A SOLUÇÃO CONCRETA DE UM PROBLEMA QUE DESAFIOU MATEMÁTICOS POR DÉCADAS tweet

 

A moeda é gerada num passo conhecido, decrescente e fixo, até atingir o número de B$ 21 milhões. Após isso, a própria rede vai se reconfigurar para criar subdivisões da moeda, exemplo B$ 0,009 ou 0,0009 e assim por diante. Ou seja, a lógica é contrária à das moedas correntes tradicionais, que acrescem. A moeda é emitida por “mineradores”. Eles processam equações matemáticas para assegurar o funcionamento seguro e a confirmação das transações e são remunerados por isso em moeda emitida; esses seriam as casas da moeda da rede. No início, qualquer computador poderia gerar moedas. Mas na medida em que a competição ficou maior e também a complexidade das transações, os mineradores evoluíram para supermáquinas dedicadas – mas ainda assim independentes de qualquer instituição ou governo. Os Bitcoins têm todos os requisitos de uma moeda de mercado e já existem muitas empresas e pessoas trocando esse dinheiro em câmbios, lojas e entre elas. Basta ter uma carteira Bitcoin gratuita (na forma de um aplicativo) para receber ou fazer transações.


Como cada transação é para sempre pública (apesar das identidades serem anônimas) e para sempre segura (através de criptografia e descentralização) as implicações e o potencial são incríveis. Uma grande diferença. Nos mercados de capitais atuais, a sociedade depende de regras diferentes para cada país e da “boa vontade” das empresas em divulgar informações sobre suas transações em balanços periódicos, auditados por empresas privadas que, por sua vez, seguem o mesmo esquema. Em 2015, basta o caso da Petrobras, que mesmo seguindo todas as regras conseguiu quebrar todas elas e teve seu patrimônio – misto de público e privado – dilacerado por perdas nas ações.

 

No quesito da plena informação, a economia evolui muito rapidamente na internet. Outras cripto-moedas existem, como o Monero, que garante o anonimato total da transação, outras formas de descentralização e eliminação do intermediário estão surgindo e tornam-se mais conhecidas. O PayPal, por exemplo, permite transferência de dinheiro entre usuários. Recentemente, houve anúncio de que aplicativos de chat, como o Facebook Messenger e de e-mail, como o Gmail, vão permitir o envio de remessas monetárias. A Vivo lançou o Zuuum, um meio de pagamento que usar o celular como cartão pré-pago e chamou o serviço de “conta-corrente”. Ao contrário do banco, que foi inventado há séculos pelos Médici como ferramenta exclusiva para benefício da família, o Bitcoin nasce aberto e praticamente anônimo. Com Bitcoin ou não, a ideia de uma economia descentralizada já está mostrando sintomas. O vírus das cripto-moedas seguem aguardando os anticorpos do hospedeiro.

 

 

Leia a Parte I

 

Outros caminhos

Joseph Schumpeter – wikipedia

Bitcoin – site

Bitcoin e a internet do dinheiro – video

Bitcoin Hub – site

Monero – site

Novas formas de pagamento – artigo

5 alternativas ao Bitcoin – artigo

O Problema dos Generais Bizantinos – artigo

Economia Circular e o futuro dos negócios – artigo

Gregor Mcgregor – wikipedia

Novo tipo radical de economia vai emergir do colapso do capitalismo – artigo

Internet das coisas vai levar ao novo paradigma econômico – artigo

Jeremy Rifkin – site

Empresa lança bateria que pretende mudar a matriz energética do mundo – notícia

O primeiro bar grátis do mundo – notícia

União Européia se move em direção à economia circular – artigo

Organizações Exponenciais – livro

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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