QUESTIONAR A EDUCAÇÃO É QUESTIONAR A SI MESMO tweet

 

Na trilha dos novos questionamentos sobre a educação, documentários e artigos, muitos deles independentes, têm levantado o sinal de alerta no Brasil. Ainda que tardiamente, esses questionadores foram incitados por cenários emergentes arrebatadores: estamos chegando a um limite perigoso na forma como educamos e, por consequência, na forma como formaremos a sociedade do futuro.

 

Essa característica cíclica de retro-alimentação é recorrente quando trata-se de emergência. Em rede, que é como vivemos atualmente em relação à informação, tudo que emerge segue padrões de complexidade. As relações de causa e efeito não são facilmente distinguidas e ainda menos para sistemas considerados arcaicos, como é o caso do sistema de ensino.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

É sempre interessante o exercício de refletir sobre os nomes e os significados do que nos cerca. Quando falamos em “sistema de ensino” estamos claramente nos referindo a ensino de “alunos”, pessoas que estão no sistema para que sejam ensinadas. O ponto de vista, portanto, é sempre de quem ensina, como se, nesse ínterim, o professor e a escola nada tivessem a aprender. Parece que estamos na beira de um vórtice, no absurdo de contrapor dois conceitos que andaram juntos por muito tempo. Será que teremos que escolher entre educar e aprender?

 

A tangente da espiral

 

HÁ UMA MAL-ESTAR GERAL E NÃO É DE QUEM QUER APRENDER tweet

 

É difícil dizer quem nos colocou nessa posição. Mas há algumas pistas sobre os principais agentes. Desde um sistema formado para moldar trabalhadores técnicos a uma economia exageradamente dependente do consumo de supérfluos. O fato é que, ao lidar com educação, estamos em terreno pantanoso, grudento. Nós, os próprios agentes de uma desejada mudança, somos prisioneiros de crenças e costumes arraigados. Algumas experimentações nos despertam dúvidas, porque fomos criados no tal do sistema “arcaico”, ele faz parte da nossa ética. Por isso, os anseios de mudança são corajosos, sim, mas sobretudo vêm de um mal-estar geral. Isso é bom: nada muda na zona de conforto.

 

Acima das discussões quanto à presença da tecnologia eletrônica na sala de aula (é claro que a influência tende a aumentar, por diversos motivos) está uma discussão de simples propósito. A tecnologia esteve sempre presente. A lousa e o lápis são tecnologias. Celulares e iPads na sala de aula não importam tanto se há propósito para eles. Antes, devemos refletir sobre para que estamos educando. Parece que propósito do sistema atual é regurgitar tecnólogos na sociedade seguindo um currículo mecanicamente forjado nos moldes do famoso “sucesso na carreira”. Para isso, nada melhor que testar todo mundo com a mesma prova, e quem fica acima da média, entra. Se todos insistem no chavão de que o mundo muda cada vez mais rápido, que farão essas pobres criaturas com suas técnicas que, ao final dessa frase, já não servirão mais para nada?

 

Por isso, não causa admiração a aversão geral que temos à diversidade. Onde está o senso crítico, a sustentabilidade, o senso de comunidade, pensamentos cruciais para a nossa sobrevivência num futuro próximo? Entram como “atividades” de colar potinhos de iogurte. Não à toa, o mal-estar geral: ele é nosso, de quem educa (pais inclusos), porque não há hora nem lugar para o aprendizado, e disso os alunos sabem há décadas.

 

Sabem, sabiam, mas as crenças, os 50 minutos de aula, o sinal do recreio, as lousas, esses são muito arraigados à sua formação para que fossem tema de discussão; afinal, questionar a educação é questionar a si mesmo.

 

OS PENSADORES MAIS ATÁVICOS, PITÁGORAS, PLATÃO E ARISTÓTELES NÃO ERAM PROFESSORES tweet

 

Não há novo nem velho, há o atual

 

Nos longínquos anos, onde tudo começou, o questionamento, a filosofia, não havia alunos nem professores. Os pensadores mais atávicos, Pitágoras, Platão, Aristóteles, não eram professores, mas agitadores. Há quem diga que, na verdade, esses não são pessoas, mas apenas nomes que aglutinam muitos homens e diversos pensamentos. Nesse tipo de escola, o diálogo era o fundamento. Dá pra apostar que formavam um grupo e não um auditório. O que usamos até hoje desse legado é incrível: lógica, matemática, biologia, engenharia, retórica e ética, para citar alguns conceitos. Perdemos essa riqueza da curiosidade enquanto ganhamos outros tipos de riqueza e pobreza. Evoluímos, enquanto crescíamos aos bilhões. Agora tudo que foi acumulado teria de ser repassado para nivelar os novos entrantes, para que pudessem alimentar o ciclo de consumo. Isso é o atual.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

Esse exemplo serve para ilustrar que não devemos julgar o passado ou glorificar um futuro cheio de hologramas ou algorítmos adaptativos. Devemos nos concentrar nas pessoas e incentivar (aqui entram todos, escolas, pais, profissionais) o aprendizado. A tecnologia pode ser uma aliada, mas não como se pensa. Ela já é uma aliada, porque propiciou desde quase três décadas uma sociedade mais aberta à troca de informação e, agora, prepara o terreno justamente para o que queremos: uma nova forma de aprender. Quem é mais inovadora: a escola que usa tecnologia de ponta ou a escola que questiona, experimenta e muda sua forma de ensinar?

 

NÃO PODEMOS APENAS JULGAR O PASSADO E GLORIFICAR O FUTURO tweet

 

O Brasil não é o pior lugar do mundo para que as mudanças sejam feitas. Pelo contrário: as leis, aqui, dão diretrizes gerais e não impõem as regras rígidas que a maioria das escolas adotam nos horários e currículos. Há projetos incríveis em experimentação e muitas sugestões e experiências estão surgindo. Algumas já surgiram há muitas décadas. Os desafios estão dados. Há que se pensar o método, experimentar com risco controlado, aceitar o fracasso, estabelecer uma “grande média”, inclusiva, saber o que fazer com as emoções e a individualidade. Podemos começar até mesmo com algo mais prático, por exemplo, pensar num lugar de aprendizado que seja receptivo e não compulsório.

 

O mais importante é deixar de lado a inércia e encarar o ato de mudar o ensino como um aprendizado em si. Nesse caminho, é fundamental a aceitação da diversidade. Deixar aprender de um lado e de outro, afinal, parece ser a grande lição dessa mudança de paradigma.

 

 

Imagem em destaque: reprodução do videoclipe Another Brick in The Wall de Pink Floyd

Imagem 1: Rodrigo Franco @ PURO

Imagem 2: Rodrigo Franco @ PURO

 

 

 

Outros caminhos

PURO

 

Porvir – site

Quando sinto que sei – documentário

Do giz ao tablet – documentário

Projeto âncora – escola

Daniel Munduruku e a educação – artigo

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Façamos a revolução da aprendizagem! – video

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A universidade do futuro deve ter foco no emprego, dizem estudante brasileiros – artigo

A universidade Finlandesa Haaga – artigo e site

Albert Einstein sobre a educação – artigo

O limite do virtual na educação real – video

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Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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