Assim como muitas organizações coletivas que florescem atualmente, os coletivos povoam centros urbanos, trazendo novas perspectivas para a criatividade.  Pode parecer um fenômeno recente, talvez surgido com as manifestações culturais das décadas de 60 e 70, mas a configuração do coletivo não é nova, apenas muda de finalidade de acordo com a cultura e o tempo. Hoje, os grupos de cunho criativo são um reflexo de uma era em que o autor não tem medo de colaborar.

 

Podemos definir um coletivo como um grupo de pessoas com práticas ou objetivos comuns estabelecido em um lugar.  Os quesitos prática ou objetivo, nessa definição, são menos importantes que o lugar. A proximidade entre as pessoas do coletivo exerce muito mais influência sobre a criatividade do que suas crenças ou ideologias individuais. Ideias divergentes ou contrárias contaminam-se tanto quanto ideias afins e a diversidade é o que costuma trazer resultados inovadores.

 

PARA A CRIATIVIDADE, UM AMBIENTE DE TROCA DE IDEIAS É MAIS IMPORTANTE QUE A QUALIDADE DELAS tweet

 

Os coletivos são ambientes criativos porque, em sua constituição, os membros costumam ter a mesma importância e participam das decisões de maneira mais igualitária. Um sistema sem autoridade definida. Um termo atual para esse regime é holocracia. Nele, não há autoridade, os processos e ações são decididos pelo grupo e colocados em prática da mesma forma.

 

© Fabrício Marcon @ Flickr

 

Cafeína e criatividade

 

Grupos como fraternidades e sociedades antigas sempre suscitaram a imaginação sobre seus propósitos. Eram ditas sociedades secretas, mas na verdade seu segredo era apenas proteger e filtrar a entrada de membros para que se mantivessem controláveis e pudessem realizar os benefícios e influência de seus membros. Apesar de inegável sucesso e influência, esses coletivos tinham líderes ou uma hierarquia bem definida e rituais dogmáticos inquestionáveis.

 

A diferença crucial para o coletivo criativo é a falta desses mesmos dispositivos. De certa forma, os cafés europeus do século XIX e início do século XX são exemplos de coletivos criativos. Neles, pensadores, intelectuais e cientistas encontravam-se regularmente, trazendo suas teorias e descobertas para um debate (quase) informal. Foi reconhecidamente nesses locais que grandes pensadores trocaram figurinhas e fragmentos de teorias para, mais tarde, enriquecer suas obras com percepções de outras grandes mentes.

 

Cafe-Griensteidl-1896

 

NOS COLETIVOS DE HOJE, AS IDEIAS TAMBÉM SÃO COLETIVAS tweet

 

A mistura de encontro, diversidade e informalidade é muito importante para um ambiente criativo. Mas até mesmo os cafés são diferentes dos coletivos de hoje, por uma questão cultural. Antigamente, os pensadores deixavam as criativas conversas com seus colegas e voltavam solitariamente para suas obras a fim de extravasar as novas percepções. Já nos coletivos de hoje, as ideias são coletivas na prática. O próprio grupo serve como plataforma para que a ideia seja colocada em prática. Muitas vezes, o grupo não só divide o mesmo espaço para trabalhar, mas também mora junto.

 

República democrática

 

No Brasil, a cultura universitária já há décadas cultiva um gênero coletivo chamado República. Conhecidas por suas festas e histórias, trata-se de um coletivo altamente criativo, muitas vezes formado por estudantes de áreas distintas convivendo por um longo período de tempo. As repúblicas, como instituição, com frequência sobrevivem aos seus fundadores, pois tornam-se espaços não só de fraternidade (como as sociedades secretas) mas de informalidade e debate.  Apesar do objetivo ser, na maioria das vezes, a viabilidade financeira – uma moradia com custo rateado – o que se acaba rateando, também, são ideias e pontos de vista.

 

Sem dúvida, as repúblicas influenciaram a maneira significativa os novos coletivos artísticos e criativos que surgem agora no país. São casas ou espaços onde pessoas convivem e criam juntas, sob uma chancela ou marca que serve como “brasão” de reconhecimento. Alguns exemplos são a Benfeitoria ou as casas do Fora do Eixo. Para se ter uma ideia do potencial dos grupos, este último foi pivô de uma polêmica nacional quando um de seus braços, a Mídia Ninja, fez uma cobertura jornalística crua e independente nas passeatas de 2013.

 

O COLETIVO CRIATIVO DEVERIA SER INCENTIVADO EM TODAS AS ÁREAS DO CONHECIMENTO, NÃO SOMENTE AQUELAS LIGADAS À ARTE tweet

 

Seria interessante que esse tipo de coletivo não ficasse restrito à Economia Criativa, com designers e artistas, mas que pudesse inspirar grupos criativos de engenheiros, matemáticos, biólogos, empreendedores e todo tipo de estudante ou profissional. Ou, talvez, que casa república se tornasse um coletivo criativo, incentivada a gerar ideias e práticas em todas as áreas do conhecimento.

 

Não demorou muito para surgir na internet o mesmo tipo de grupo, coletivos de blogs, artistas e hackers que unem seus discursos em portais como o Saravá ou OEsquema. Mais uma vez o lugar é fundamental para que haja conexão entre as ideias. A ironia é que, apesar de estar na internet, diferentemente de uma casa, as ideias podem não colidir com a mesma facilidade, apenas parecem estar no mesmo lugar.

 

© Rodrigo Franco @ PURO

 

Holocracia ou falácia?

 

Existem grupos atuando de forma diferente, onde o ambiente, o lugar, é igualmente importante. Em vez de constituírem casas, que seriam simbolicamente lugares de convivência familiar, eles constituem empreendimentos, ou lugares de convivência profissional. Nos dias de hoje, pode-se dizer que o tempo dedicado à profissão ultrapassa ao tempo em casa. Colaboração criativa no espeço de trabalho não é novidade, mas para citar alguns exemplos condizentes com o tema podemos imaginar a casa de Nara Leão nos primórdios da Bossa Nova (no sentido em que os músicos estavam, sim, trabalhando) ou a redação da Revista Pif Paf, o Teatro Oficina e muitos outros espaços de experimentação. Esses espaços talvez fossem como os cafés vienenses. Até mesmo os atuais escritórios de co-working, que estão na moda, tentam buscar essa referência. Mas os espaços profissionais costumam ser maiores que casas.

 

Em um grande grupo de pessoas sem hierarquia definida, a tendência é de aglomeração. Dentro do grupo maior, grupos menores se formam ao redor de determinados temas ou interesses comuns. Pessoas buscam, umas nas outras, instrumentos para se proteger ou se destacar. Nessa dinâmica, lideranças naturalmente surgem ou são apontadas. Esse seria um argumento contra a holocracia, onde não há chefes ou autoridade: apesar de não haver chefes ou hierarquia formal, naturalmente surgem lideranças e destaques que usam a dinâmica social para organizar e hierarquizar o grupo.

 

PODERIA EXISTIR UM MODELO DE TRABALHO SEM CHEFES? tweet

 

A empresa americana de jogos Valve trabalha, segundo divulga, em uma holocracia. Não há chefes. Até mesmo o dono pode ser questionado e considera os funcionários seus pares. Os projetos são definidos pelos próprios funcionários, que são livres para circular pela empresa e decidir onde querem ajudar. Até mesmo os salários são definidos dessa forma. Para os que não acreditam que isso possa funcionar, a empresa apresenta seu faturamento de US$ 4 bilhões e o número de jogos vendidos em sua plataforma que alcança 70% de todas os jogos no mundo.

 

A grande surpresa não é o fato de que um grupo sem chefes funcione, mas que um grande grupo – 400 funcionários – funcione dessa forma. É aceito que muitas hipóteses ideais, como uma democracia plena, um modo de vida sustentável ou o comunismo funcionem em um grupo pequeno. Os problemas crescem com mais gente ou quando esse grupo toma contato com outra dinâmica de mercado maior que ele.

 

É razoável afirmar que um regime sem hierarquia não funciona para qualquer tipo de organização. Por outro lado, falta de autoridade não significa desorganização. Na Valve, cada pessoa tem plena noção de seu papel e, como disse Yanis Varoufakis, economista residente, a empresa tende a procurar profissionais excelentes em sua área de atuação.

 

FAZER IDEIAS CHOCAR E CHOCAREM-SE. ESSE DEVE SER O LEGADO DOS NOVOS COLETIVOS tweet

 

Uma organização com regras demais pode matar a criatividade, sufocando os profissionais em reuniões, rotinas e escritórios que segregam em vez de agregar ideias. Um ambiente informal em que cada um usa suas competências da forma que acha mais produtiva pode fazer com que ideias distantes unam-se em revoluções criativas. Esse deve ser o legado dos novos coletivos.

Imagem título – ©© Fora do Eixo Minas @ Flickr

Imagem 1 – ©© Fabrício Marcon @ Flickr

Imagem 2 – ©© Wikipedia

Outros caminhos

Benfeitoria – coletivo

Casa Nexo – coletivo

CoroColetivo – portal de coletivos

Artéria – coletivo de coletivos

Saravá – portal

Oesquema – portal

Rede Zero – portal

Groups and spaces – portal

Coletivos que atuam em São Paulo – reportagem

Uma empresa bilionária sem chefes? Sim, existe – artigo

Uma companhia sem cargos ainda terá hierarquia – artigo

HolocracyOne – empresa

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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