Uma pergunta sorrateira vêm roçando a nuca de pessoas e empresas há alguns anos. Uma pergunta simples, sem subterfúgios, que diz respeito ao modo como todos trabalham hoje, e também tem relação com aqueles lugares míticos onde trabalhar é ótimo, onde tudo é criativo, descolado e “inovador”. Que tem a ver com a urgência que vivemos, como tudo se afoga em regras e modas que surgem e morrem antes mesmo de conseguirmos aprender com elas; no fim, se tornaram repetições que não agregam nada, apenas aceleram o fluxo.

 

A questão é simples, mas, como sempre, a simplicidade é o começo. Existem muitas respostas a muitos problemas. Além da indiscutível massa de dados, tecnologia e consumo, existe uma mecânica em jogo há muito tempo, uns 100 anos, pelo menos. Desde que o mercado de consumo começou a ditar as regras da economia global, grandes empresas dominaram todos os cenários possíveis da sociedade. Essas mesmas instituições, e muita gente que trabalha nelas, andam às voltas com a pergunta.

 

Começa assim. Não é segredo que, há décadas, empresas e grandes corporações tem mais poder político que muitos governos. Mas para que as empresas pudessem prosperar, precisavam, de um lado, de mais consumo. Conseguiram solucionar esse problema com a nova lógica de mercado baseada em desejo. Por outro lado, precisavam de trabalhadores. Mas, diferentemente do século XVIII, o trabalho em uma indústria e nos ofícios que começaram a surgir precisava de muito mais treinamento – de muito mais técnica.

 

EXISTE UMA MECÂNICA EM JOGO HÁ MUITO TEMPO tweet

 

©© Rodrigo Franco

 

A técnica tornou-se fundamental para a sociedade atual. Tornou-se um meio para aplicar e desenvolver tecnologia. Em um mundo com uma complexidade que desabrocha rapidamente, ela tem a chave para dissolver problemas enormes em fragmentos com que podemos lidar. No princípio, tínhamos poucos donos da técnica, mestres, que passavam seu conhecimento para os aprendizes. Mas a demanda era muito grande. Foi necessário criar locais onde se pudesse nivelar o conhecimento técnico, ensinar a mais gente as mesmas coisas. Hoje, chamamos isso de escola. Depois, criamos mais camadas, ao passo que o conhecimento científico e técnico evoluiu: os níveis médio e superior, além de pós-graduações. Especializar o máximo possível e nivelar a uma “média”. Tudo isso faz parte da pergunta – e da resposta.

 

Então chegamos ao dilema atual: a técnica não é mais um reino soberano levado por reis e mestres inatingíveis. Ela, agora, esta acessível a muita gente. Não é possível medir quem sabe muito ou pouco hoje. A tal média, que nivela as escolas e faculdades, é uma linha tortuosa. A quantidade de conhecimento produzida no último século ultrapassou aquela produzida em toda a história da humanidade. Dentro dessa perspectiva, muitos tem questionado, inclusive, o futuro de instituições de ensino e seus métodos.

 

CRIARAM-SE LOCAIS ONDE O SE PUDESSE NIVELAR O CONHECIMENTO TÉCNICO. HOJE CHAMAMOS ISSO DE ESCOLA tweet

 

Cresceram o mercado, as instituições, os bancos, os países. E hoje temos uma multidão de técnicos. Milhões de especialistas. Formados para dar continuidade não às suas aspirações pessoais ou profissionais, mas sim à dinâmica do próprio mercado de trabalho: formam-se para garantir que outros se formem, como uma espécie de previdência trabalhista, onde profissões consolidam-se pelo maior número possível dos que chegam a ela. Quando saturam, criam-se novos rótulos com leves diferenças. Ou novas hierarquias. Ou novas relações de trabalho. A lógica imposta à quem trabalha é a mesma da lógica de consumo que legou ao planeta o excesso. Designers, artistas, publicitários e arquitetos se orgulham de seu ramo criativo, mas nem essas profissões escapam da massificação técnica que causa uma crise de identidade e leva a uma crítica sobre a própria criatividade.

 

ESSA É MUITO MAIS COMPLEXA QUE A RASA DISCUSSÃO DE RH SOBRE GENERALISTAS OU ESPECIALISTAS tweet

 

As empresas seguem engessadas porque são consumistas no mercado de trabalho. Extraem o máximo de termos cunhados por elas mesmas: performance, produtividade, eficiência, resiliência, resultado. São termos mercadológicos. Como vimos, não poderia ser diferente, já que a lógica é a mesma do mercado de consumo. Ao exigir tais termos, a expectativa é de que um técnico responda a eles. Não poderia ser diferente.

© John Mathew Smith @ flickrCrianças alemãs do século retrasado seguram seu mimo para que pudessem lidar com o primeiro dia de aula e com a escola: cones de comida e guloseimas. Hoje, temos nossos próprios cones.

OS PROFISSIONAIS SÃO BOMBARDEADOS COM EXIGÊNCIAS DE “INOVAÇÃO” E “CRIATIVIDADE”. MAS ATÉ MESMO PROFISSÕES CONSIDERADAS CRIATIVAS SÃO HOJE ESSENCIALMENTE TÉCNICAS tweet

 

Eis que surgem novos termos, atuais, e os atônitos e confusos profissionais são bombardeados com exigências de “inovação”, “pensar fora da caixa” e “criatividade”. Ora, eles não foram criados para isso. Não estudaram para isso. Não foram nivelados para esse tipo de demanda e sim para manter o status do mercado de trabalho e pelo menos uma das engrenagens da economia rodando. Seu escopo não abrange pensar sobre por que estão fazendo, mas apenas sobre como estão fazendo. Para inovar, seria necessário um outro tipo de pensamento. Aquela pergunta simples cresce.

 

Ironicamente, também o excesso – de informação – pode ser o agente de mudança e pode começar a respondê-la. Técnica é técnicos temos aos montes, já que informação está plena e acessível. Está na hora das empresas, universidades e governos – principalmente os brasileiros – abandonarem o paradigma da técnica exclusiva voltarem seus olhos à capacidade de pensar. É preciso priorizar o raciocínio analítico e sintético. Parar de ensinar apenas como fazer e ensinar como pensar em fazer. Empresas tem de abrir essa caixa de que falam tanto para que haja liberdade para aprender. Trata-se de um paradigma de técnica versus pensamento analítico e sintético.

 

“AND YET, WHILE MANY  BUSINESS LEADERS CLAIM THAT THEY WANT TO BE  MORE INNOVATIVE IN ORDER TO STAY COMPETITIVE (…)THEY RARELY PAUSE TO CONSIDER TO WHICH LEVEL THIS  ACTUALLY NEEDS TO SHAPE THEIR ORGANIZATION AS A WHOLE”.
Pascal Soboll tweet

 

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O atraso histórico do Brasil pode aumentar se continuarmos apagando incêndios do dia-a-dia das empresa como assistências técnicas corporativas que sabem como, mas não quando, onde e por quê. O que elas buscam não é um novo profissional, mais criativo e inovador, e sim um novo modelo de mercado de trabalho onde repensem seu papel. Em muitos países, a ficha já está caindo. No caso do Brasil, já que nossas instituições só se tornaram relevantes no meio do século XIX (junto com os fatos do começo do texto), tudo que achamos importante são os modelos que foram criados nessa época. Justamente os que mais são questionados hoje. E perguntamos, então:

 

Por que empresas não
conseguem inovar?

Outros caminhos

IDEO – Inovação: por trás da palavra da moda – artigo (PDF)

Designers e artistas serão os líderes da inovação – artigo

Por que grandes empresas não conseguem inovar? – Artigo

UPDATE: Não à toa, começam a surgir propostas de uma personalização da educação: Especial Porvir

 

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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