Nada permanece. Essa máxima faz refletir sobre a insconstância das coisas, mesmo aquelas que consideramos nunca mudar. De fato, quando pensamos a respeito, até mesmo uma rocha está em mutação. Tudo depende da perspectiva: para a rocha, o tempo tem outro impacto (em termos de milhões de anos) e para uma pessoa é difícil perceber como se dá a mudança, porque nossa mentalidade funciona diferente (centenas de anos).

 

NO COMEÇO, A PERSPECTIVA DO AGENTE É INSUFICIENTE PARA COMPREENDER A TRANSFORMAÇÃO. tweet

Toda transformação tem sujeito e agente, de forma que acontece diferentemente para um e para outro. É um processo de incorporação do novo, com todo o impacto que resulta disso. Alguns diriam que é um processo cíclico, outros que é um caminho contínuo. Independentemente das questões filosóficas, a transformação é uma das etapas principais da evolução.

 
©© Rodrigo Franco
 

Mas mudanças não são apenas grandes acontecimentos, como o surgimento de uma espécie, uma mudança climática, a descoberta de uma doença ou uma nova ordem política. O novo não é necessariamente algo espetacular. Ele acontece com as criaturas microscópicas tanto quando com pessoas e com o mundo. Tantas coisas se transformam e nem se dá conta. Outras tem um significado especial para muitas pessoas.

 

SE PENSARMOS NA ETERNIDADE, NADA PERMANECE. tweet

 

Agente e sujeito

 

Entre tudo o que mais esperamos e o que mais tememos, podemos ser o agente da mudança. Mas para termos controle sobre o que acontece nossa mentalidade tem que estar em sintonia com o a identidade da mudança – o sujeito. Apesar de óbvia, essa ideia pressupõe que o agente é responsável por trazer a transformação, mas que ela acontece essencialmente com o sujeito. Para fazer sentido, essa transformação, portanto, tem a ver com a identidade do sujeito e  não do agente.

 

Na história da tecnologia, há muitos exemplos são famosos. Recentemente, vimos a transformação dos celulares de aparelhos de comunicação para computadores móveis. Há apenas um século, não havia sequer comunicação entre famílias próximas, havia apenas, quando muito, o rádio; em apenas 2 ou 3 gerações, passamos de regiões isoladas a centrais pessoais de comunicação. Cada um de nós, agora, é um ponto de conexão em si.

 

É MUITO FREQUENTE SUPERVALORIZAR O AGENTE DA MUDANÇA EM DETRIMENTO DO SUJEITO. tweet

 

Alguns agentes foram as grandes empresas, muitas vezes controlando-as para que atendessem a seus interesses comerciais, e os avanços tecnológicos e científicos. Mas as transformações foram pertinentes conceito de mobilidade e culminaram na revolução móvel dos anos 2000. Essas mudanças radicais somente foram aceitas porque fizeram parte da transformação social, ou seja foram gradativamente se incorporando à identidade das pessoas. Quando introduzidas de formas abruptas, porém, há o risco da perda de conexão entre agente e sujeito.

 

Atrocidades como o nazismo, por exemplo, só foram possíveis por que se criou um laço com a identidade dos alemães. Como se transforma um cidadão comum em um nazista? Com uma ligação profunda entre agente e sujeito.

 

Perda de identidade

 

O recurso de transfigurar – mudar de figura, ou de significado – é muito utilizado pela arte com o objetivo de chocar, contrastar ou levantar questionamentos. Colocações bizarras de coisas e símbolos fora do contexto são transformações de significado intensas e não facilmente captadas por nossa percepção.

 
  ©© Rodrigo Franco

 

 

Essa ruptura pode influenciar outros tipos de transformação e também a incorporação de outras identidades que possam lidar com as consequências. Quando Copérnico sugeriu que a terra girava em torno do sol, sua ideia foi vista com cautela. A Terra não era o centro do universo como se acreditava, a posição era ocupada pelo sol. A nossa identificação com o universo conhecido acabara de mudar – nosso universo passou a ser o sistema solar –, assim como mudaria tempos mais tarde quando se descobriu que o sol também não era o centro. Hoje, nossa identidade em relação ao universo é de uma insignificância absoluta em relação aos trilhões de corpos celestes que coexistem.

 

UMA TRANSFORMAÇÃO TRAZ À TONA ASPECTOS DO SUJEITO COM O QUAL NÃO SABEMOS LIDAR. tweet

 

Franz Kafka foi no âmago da perda de identidade em Metamorfose. A história é inquietante justamente por romper a realidade (status quo) com uma transformação que violenta a identidade do protagonista, cujo ponto de vista compartilha o leitor.

 

O fato de Gregor Samsa se ver transformado em algo horrivelmente distante de sua identidade torna a realidade uma ilusão. Como os agentes são desconhecidos é impossível retornar intacto ao estado anterior. Por tratar de uma transformação pessoal, as variáveis são ainda mais complicadas, porque agente e sujeito são a mesma pessoa.

 

Controle?

 

Ser agente de uma mudança implica saber qual seu papel, o que está acontecendo, e tomar consciência do sujeito da transformação. Essas variáveis determinarão o comportamento durante o processo.

 

©© stux @ pixabay

 

Controlar tudo isso é difícil, mas podemos estar preparados para seguir seu curso. Ao se identificar com a transformação, há a compreensão do Zeitgeist, de por onde ela caminha. Mas não há como acompanhar todas as varáveis, porque a identificação e interpretação de cada uma para uma reação adequada é impossível. Rupturas podem acontecer.

 

Todos conhecemos aquele tipo de história onde um personagem que tenta evitar algo acaba, inevitavelmente, garantindo que aquilo aconteça. Essa estrutura tem o nome de profecia autorrealizável (self-fulfilling profecy). Histórias de Édipo à da Bela Adormecida tem essa narrativa.

 

AQUELE QUE TENTA EVITAR ACABA SE TORNANDO, TAMBÉM, AGENTE DA TRANSFORMAÇÃO. tweet

 

Descobrir a relevância do que acontece pode dar pistas sobre como conduzir a transformação. Para isso, a imersão no universo do sujeito é uma necessidade. A empatia pode ajudar na percepção de outros agentes no decurso da transformação, mas é provável que nunca se saiba de todas as variáveis; quanto mais evoluímos na complexidade do mundo, mais variáveis adicionamos ao que pode ser transformado. Buscar a simplicidade pode ser um caminho.

 
 É claro que mergulhar no universo do sujeito transforma o agente. Ele surge transfigurado e fecha o ciclo de sintonia. É aí que reside a oportunidade de mudar a mentalidade e abarcar o entendimento que precisamos para a nossa nova perspectiva transformada.

 

Processo criativo

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Notas:

Imagem 1 – PURO;

Imagem 2 – © Rodrigo Franco

Imagem 3 – ©© stux @ pixabay

 


Outros caminhos

PURO

Criar é muito simples

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Associar

Combinar

 

Zeitgeist – wikipedia

Transmutação – wikipedia

A Metamorfose – Franz Kafka – wikipedia

Metamorfose – wikipedia

Transmigração – wikipedia

Arquitetura do Mal – documentário

Teoria de Sistemas – wikipedia

Tao – wikipedia

Profecia autorrealizável – wikipedia

Yi Jing (I Ching) – site

Filósofos idealistas – Kant e Hegel

Dialética – wikipedia

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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