PELA PRIMEIRA VEZ EM 100 ANOS O ARTISTA TEM A CHANCE DE TOMAR AS RÉDEAS DO MERCADO DA MÚSICA tweet

 

Na virada do milênio, um palpite bateu à porta de Shawn Fanning e ele criou o Napster. Usando tecnologias de rede, o aplicativo fazia algo tão simples, mas tão simples que era inimaginável na época: o compartilhamento fracionado de dados diretamente entre pessoas. Era o que tudo mundo queria, mas não sabia: ter quantas músicas pudesse, uma por uma. Até a pouca infra-estrutura de internet não foi um problema, já que o download continuava de onde parou, sem risco de perda. Selecionando de uma lista de interesse, em algum tempo você tinha as músicas que quisesse. Em pouco mais de um ano, a plataforma atingira muito mais que 30 milhões de usuários únicos. Sem pagar nada.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

Redes que permitiam o compartilhamento de arquivos já existiam. Mas o Napster era diferente. Para essa ideia simples, de execução complexa, Fanning criou uma experiência de usuário descomplicada e intuitiva. A pessoa buscava em apenas um campo, escolhia entre os resultados, clicava em um botão e pronto. Soa familiar? Não na época. O Napster praticamente inaugurou esse tipo de interface, que é usado até hoje por grandes empresas como Apple e o próprio Google em suas lojas. Com essa arma poderosa, o aplicativo de Shawn Fanning não só popularizou a distribuição de música digital, como também a própria rede P2P. Estava evidente que uma grande revolução industrial – a da indústria fonográfica – estava começando.

 

A INDÚSTRIA FONOGRÁFICA NUNCA VENDEU DISCOS. E NUNCA NINGUÉM CONTOU ISSO PRA ELAS tweet

 

lintmachine @ flickr

 

Com a chancela de uma indústria, que produz bens de consumo em uma linha de produção e uma cadeia de valor definida, as gravadoras não tinham a menor chance de prever ou se preparar para o que aconteceu a elas. Ou tinham? Essas indústrias foram criadas baseadas no suporte, Long Plays, Cassestes, CDs, daí o nome gravadoras. Retire o suporte e, literalmente, seus negócios não têm onde pisar. O mais irônico é que a Sony, gigante de tecnologia japonesa, dona de uma gravadora, a SonyMusic, esteve envolvida em um estágio anterior que preparou terreno para o arquivo digital.

 

No final da década de 80, a Phillips e a Sony apresentaram os moldes do que seria chamado de CD-R, o CD gravável. A diferença era: em um CD comum, que apenas podia ser reproduzido, os arquivos de áudio ocupavam muito espaço. Qualidade sonora é importante, mas as pessoas aceitavam culturalmente uma qualidade satisfatória. Passamos décadas ouvindo rádios mal sintonizadas e os fonógrafos do século XIX. Com os novos arquivos de música, onde a qualidade era satisfatória e preterida pelo tamanho, mais músicas cabiam em um CD, que podia ser facilmente reproduzido nos aparelhos existentes. Foi possível ouvir mais músicas, de uma maneira equivalente. Mas o detalhe principal é que foi possível escolher o que gravar. O poder de escolher, como sabemos, muda tudo.

 

 

Quando as pessoas já começavam a se acostumar com os arquivos digitais, começando a fazer suas coleções, Shaw Fenning escancarou as portas. Em 2001, tive uma experiência pessoal com o mercado em meu trabalho de conclusão da graduação. Nele, tentávamos propor à Sony Music uma reversão de valores: as gravadoras nunca venderam discos. Eles sempre venderam artistas. Ao olhar sob essa perspectiva, talvez houvesse tempo de desenhar uma estratégia de negócios onde a mídia não era a principal fonte de renda e sim apenas um dos (muitos) canais de distribuição para que o artista chegasse ao ouvinte. Como fariam isso? Com um conceito baseado em uma comunidade de música, chamado no nosso trabalho de Comunidade Sony Music, envolvendo quem gosta de música (quase todo mundo) em uma rede de serviços, talvez paga por assinatura, mas com mais que apenas a compra de um CD. Nos meus 20 anos, já assíduo colecionador de música digital, eu e meus colegas de grupo tínhamos certeza de que o CD de música iria cair junto com a indústria, a não ser que a indústria envolvesse o ouvinte no processo.

 

PODER DE ESCOLHA MUDA TUDO, PRINCIPALMENTE QUANDO SE TRATA DE CULTURA tweet

 

Muitos anos depois do choque do P2P, nenhuma estratégia nesse sentido foi sequer considerada por qualquer gravadora. Nem mesmo pelas independentes. O artista, na ânsia de atingir a massa de audiência que a própria indústria criou vendendo discos, volta novamente à posição de fornecedor e não peça chave da cadeia. A gravadora não é um facilitador e sim o próprio sistema. O que a “pirataria” (termo inteligentemente forjado do contrabando de bens de consumo) e o compartilhamento provaram é que um bem cultural tem uma lógica muito diferente. Enfim, a propriedade intelectual, também baseada em bens de consumo, enfrentará um desafio da qual pode sair na lona.

 

Brian @ Flickr

Aonde o povo está

 

A CULTURA SE ALIMENTA DA COMPLEXIDADE, LIMITAR O QUE PODE SER PRODUZIDO É IMPOSSÍVEL. tweet

 

A música, durante os séculos, foi apreciada ao vivo, e era feita para tal propósito. Desde obras primas eruditas aos repentes sincopados, escritas, com partituras ou não, a música foi feita para ser reproduzida pelo músico. As notações e a teoria musical não existem apenas como forma de aprender música, mas também como forma de reproduzi-la, já que a reprodução é a essência do aprendizado.

 

Como uma invenção moderna (final dos anos 1800), o estúdio de gravação abriu a possibilidade – assim como a fotografia – de “eternizar” uma obra fielmente ao ato de sua produção. Antes, esse trabalho era relegado ao músico, ou o pintor. Abriu-se o precedente da obra ter vida própria, uma vida supostamente mais fiel possível à sua origem. Há quem diga que, assim, é respeitada a intenção original do autor. Há outros que alegam que, sem a mão do artista que reproduz, muitas ideias, combinações e inovações se perdem no processo criativo. Talvez ambos os lados tenham razão e é por isso que existam músicas de estúdio, ao vivo, versões, traduções, mashups, samplers e paródias. A cultura se alimenta de complexidade, limitar o que pode ser produzido é impossível.

 

Pela primeira vez em 100 anos, o artista tem a chance de tomar as rédeas da indústria da qual é peça fundamental. Há ainda ambições de carreiras milionárias e sucesso mundial. Mas talvez os músicos que moldaram a cultura pop bilionária dos últimos 70 anos não sejam mais tão fáceis de produzir. Por outro lado, há muito mais gente no planeta e o artista genuíno tem as ferramentas para tomar o controle de sua carreira, seja em conjunto com outros artistas, em grupos colaborativos, em divulgações quase sem custo, caravanas. Grandes gravadoras já perceberam isso e atravessaram produtores, virando também promotoras e produtoras de grandes shows e eventos.

 

CONSUMIMOS MÚSICA COMO NUNCA, MAS MUITO POUCO GERA RENDA tweet

 

Há uma forte tendência de retorno do músico para a audiência sem interferência de gravadoras. Ou, pelo menos, um grande nicho de mercado se formou nesse sentido. Após tantos anos perdida, a indústria prefereriu aliar-se a outros grandes participantes para tentar modar o novo consumo de música o máximo possível parecido com o mercado anterior. Inicativas como iTunes, Spotify, Grooveshark, Rdio, Musicovery, Pandora, Stereomood e o novo Beats brigam nesse nicho. A música continua mais cara do que nunca e a distância entre artista e platéia também, como um fosso comercial onde o ouvinte tem que pagar pelo atraso da indústria.

 

Não é à toa que o Youtube é apontado hoje como uma grande ferramenta de revelação de talentos. A verdade é que o site de vídeos é, antes, uma ferramenta para o artista, sem a interferência de uma gravadora, um local onde ele pode explorar seu material cru. O Youtube é a essência do P2P, assim como muitas das ideias que se tornaram gigantes da internet.

 

Transição, fluxo, streaming

 

UMA ARTE QUE MOLDA CULTURAS E CONTRACULTURAS É MUITO MAIOR QUE SUA PEQUENA PARTE, A MÚSICA tweet

 

O paradoxo que as gravadoras não conseguiram resolver é intrigante. Desde o surgimento do CD-R, muito mudou. Passamos a consumir muito mais música que há duas décadas atrás, chegando a musicotecas de 6, 8, 15 mil músicas para os mais aficcionados. Elas estão em qualquer aparelho. Por outro lado, muito pouco disso gera renda. Com o surgimento da internet e a falta de preparo da indústria, que estava consolidada na venda de CDs (e não de arte), não havia uma plataforma que sustentasse o novo tipo de consumo.

 

Astacus @ flickr

 

O novo graal da indústria é o fluxo de dados ou streaming. Controlando o fluxo, as empresas têm controle sobre o consumo. E os consumidores podem pagar uma taxa fixa e ter acesso a um serviço de música. Soa algo como uma comunidade?

 

O iTunes, da Apple, já é o maior mercado de música digital atualmente. Foi lançado em 2003, alguns anos após o Napster, pegando carona no conceito de coleção digital, e tem uma vantagem grande sobre os demais competidores. O grande problema é que ela basicamente trata o arquivo (ou a instância, no caso de fluxo) como produto. Ao comprar o Beats, em 2014, a Apple terá ainda mais vantagem amarrando as pontas entre um serviço pago e a qualidade de áudio que tantos apreciadores de música reclamam desde o declínio do CD.

 

Rodrigo Franco - 2014

  tweet

ESPECATORES E ARTISTAS FORAM, UM DIA, ÍNTIMOS tweet

 

Parece que uma arte capaz de moldar cultura e contracultura durante décadas é muito mais complexa que apenas música. É muito mais que isso, é um grande baú de marcas, atitude, comportamento e personalidade. Se a classe dos artistas não se representar nesse período de transição, que está prestes a terminar, os lobbies da indústria terão, mais uma vez, reconstruído um mercado onde músicos serão, novamente, fornecedores. A pergunta não é o que a indústria pode entregar, mas sim o que os artistas podem. O futuro da música, se a janela não fechar, pode vislumbrar o passado, quando espectadores e artistas eram íntimos. Se pagamos caro durante décadas, por que não comprar diretamente do seu artista favorito?

 

Atualização

Um projeto de financiamento social de 2012 aparentemente segue na linha de uma comunidade de música (músicos, produtores e fãs). Schematic é uma iniciativa do músico americano Dave Elkins.

 

 

 

Imagem destaque – Seth Anderson @ flickr

Imagem 2 – Rodrigo Franco @ PURO

Imagem 3 – lintmachine @ flickr

Imagem 4 – Brian @ flickr

Imagem 5 – Astacus @ flickr

 

Outros caminhos

PURO – Copio sim, estou vivendo

 

Schematic – site

Youtube pode bloquear vídeos de artistas que não assinem seu plano pago – notícia

Música grátis, pelo menos enquanto dure – artigo

Peer-to-peer file sharing – wikipedia

Startups entrando no setor de streaming de música vão falhar – artigo

Pono e a suposta redescoberta da músca – artigo

Wu-Tang Clan vai lançar álbum com apenas 1 cópia – notícia

Por que até mesmo artistas de grandes gravadoras não ganham dinheiro – artigo

Você pode ser multado em até US$ 150 mil por infringir a lei – artigo

Pleimo – site

 

 

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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