Qual é o desígnio do homem? Parece exagerado relacionar uma disciplina como o Design – pelo menos como é popular atualmente – a uma das questões mais essenciais da história humana; no entanto, faz todo sentido: desde os primórdios, quando o ser humano cria, ou melhor dizendo, quando pensa o futuro, a essência do Design se manifesta.

Seria razoável dizer que todo projeto nasce de uma contestação. Imaginar o futuro, ou mesmo conceber o que ainda não se faz percebido são tarefas que exigem um mínimo de desprendimento intelectual. Esse tipo de empreitada significa compreender as convenções, suas consequências, e saber superá-las. Na mitologia antiga, a lâmina é um símbolo universal que representa a vontade e o ímpeto humanos. O que rasga, fere, divide – quebra. No pensamento do Design, quebrar paradigmas pode significar tanto a “morte” prematura de uma ideia, algo que frequentemente chama-se de “à frente de seu tempo”, mas também a perfeita sincronia daquela que pode ser a nova convenção ou o novo paradigma.

O contraponto metafórico da lâmina, o cálice, representa tudo aquilo que já foi feito, reservatório de todas as experiências, receptáculo (terra). Na mitologia, frequentemente lâmina e cálice aparecem juntos, a exemplo do popular mito do Rei Arthur, onde a espada Excalibur e o cálice do Santo Graal são figuras muito representativas do começo de um reinado mítico (quebra de paradigma), e a proteção de um poder (conhecimento) sagrado por gerações. Coincidentemente ou não, lâmina e cálice são dois dos objetos mais antigos criados pelo homem. Toda evolução, inclusive a do pensamento, pressupõe uma consequência: a adaptação. Antes meros objetos do cotidiano pré-histórico, a lâmina e o cálice tornaram-se parâmetros tecnológicos decisórios para a evolução da espécie humana, facilitando sua adaptação frente ao ambiente. Não em menor grau, as recentes inovações tecnológicas proporcionam o mesmo.

O Design vive essa dualidade simbólica da lâmina e do cálice. Ao mesmo tempo é o ímpeto de um outro futuro e, ainda, busca com este uma identidade que possa incluí-lo como parte do social. Nada seria a ideia nem teria paradeiro sem sua origem. Não seria aceita ou não haveria o que a tornasse relevante. Sem se saber da história, sem se conhecer os motivos e a evolução de cada pensamento, não há como rememorar e trazer das experiências históricas aquilo que representa a busca que acompanha a humanidade desde o princípio: o ideal. Sem o utópico, a adaptação contínua não teria – literalmente e figurativamente – sentido. E muito menos o Design.

Para reunir todos os efeitos do pensamento de Design em uma ideia e torná-la parte da sociedade, o designer precisa concentrar esforços não apenas em estética e função, na verdade apenas duas das características fundamentais. Esses dois parâmetros não são suficientes para abrigar tudo o que uma ideia precisa para ser relevante: contestação, identidade e rememória. Precisa ser explorado o conceito que há sobre a ideia em questão; é preciso projetá-la para o futuro; trazê-la e confrontá-la com o paradigma atual, com a realidade – o que, em alguns processos, chama-se protótipo – e ter noção de como ela pode vir a ser. A partir do conceito a ideia pode tomar forma e revelar-se para ser percebida com tudo que encerra e, finalmente, ser parte da sociedade.

Somente com esses fundamentos pode-se dizer que o pensamento de Design é uma visão de futuro. Quando entende-se o contexto e ousa-se desafiá-lo não sem motivo. Mas com um desígnio.

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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