Análise de Redes Sociais: é o estudo e compreensão de estruturas representativas de ligações abstratas e concretas entre algo(s), alguma(s) coisa(s) ou alguém(uns/umas). É uma ciência recente. Muitas descobertas das últimas décadas estão mudando a forma como enxergamos as relações entre tudo que nos cerca. Entender a lógica de redes é fundamental para o pensamento ecossistêmico e para encontrar oportunidades em meio a complexidade em que vivemos. Muitas vezes queremos colocar um projeto em prática mas não sabemos por onde – ou por quem – começar.  Explorar o ecossistema pessoal, profissional e de mercado pode trazer grandes insights sobre conexões que nossa percepção não consegue destrinchar sozinha.

O mais interessante é a noção de que, mesmo com ferramentas e conceitos de complexidade, é impossível conhecer e prever resultados de toda sua rede. No fundo, quanto mais as ferramentas e métodos ficam evoluem e se tornam mais precisos, maior a complexidade que emerge de seus dados. Um modo eficiente de destravar o potencial da multidão seria medir melhor cada um dos participantes do grupo. Isso se cada um não fosse, por si só, de uma complexidade infinita e se também esse ponto não mudasse com o tempo. Como em um átomo, onde a posição do elétron é apenas uma possibilidade, talvez alguns critérios possam criar a possibilidade de um mapa, algo que nos permita vislumbrar a rede por um momento.

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CRITÉRIOS SÃO IMPORTANTES POIS SÃO AS LENTES COM AS QUAIS FOCAMOS NOSSA VISUALIZAÇÃO tweet

 

Mapear redes pode ser divido em duas etapas principais: 1) pesquisar e coletar dados e 2) interpretá-los. No caso de uma rede de pessoas, na primeira etapa planejamos os critérios de quais informações são relevantes para o nosso mapa e “coletamos” pessoas (os nodos da rede) qualificadas de acordo com esses critérios. Agora podemos usar alguns dos principais conceitos de análise de redes para interpretar e encontrar sentido no mapa. Existem ferramentas computacionais que geram visualizações incríveis com esses dados. Visualizações são importantes para que possamos explorar de forma amigável uma rede. E critérios são importantes pois são as lentes com as quais focamos nossa visualização.

As métricas de análise de rede passam de 15 tipos. As mais usadas são aquelas que permitem descobrir a centralidade, ou a importância de cada nodo: grau, intermediação e proximidade. Os exemplos ilustrados a seguir são do mapeamento do ecossistema de empreendedorismo social de Austin, retirado da ferramenta Kumu.

GRAU

Mede a atividade de um elemento, identificando nodos que são conectores e hubs. O grau é medido contando-se o número de conexões desse nodo. Atenção: isso não quer dizer que um ponto com muitas conexões é o mais influente ou conectado com a rede como um todo.

 

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Greenlights é um programa de incubação e aceleração para startups com muitas conexões locais

Dependendo da complexidade do seu mapa, é possível perceber visualmente elementos com muitas ou poucas conexões. Nas ferramentas online, fica mais fácil manipular e descobrir nodos com maior grau.

 

INTERMEDIAÇÃO

Mede as principais pontes e aqueles que podem controlar o fluxo de informação (ajudando ou distorcendo). A intermediação de um nodo é medida contando-se o número de vezes que ele está no caminho mais curto entre dois outros nodos. Atenção: como pontes, esses elementos também podem ser gargalos de informação ou pontos de falha entre grupos.

 

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UnLtd USA é o segundo no ranking de intermediação (o primeiro seria, de novo, o Greenlights). Trata-se de uma empresa de seed investment, para startups iniciantes e deve ser uma ponte entre outros grupos menores

 

PROXIMIDADE

Mede aqueles elementos que têm maior visibilidade sobre o que está acontecendo na rede por estar na menor distância em relação a todos os outros elementos. Aqueles com maior proximidade, têm maior independência e maior capacidade de mobilização de informações por exigirem menor intermediação.

 

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Center 61 é um coworking space popular em Austin.

 

Se você está no mapa, fica óbvio que é o elemento com maior proximidade na sua rede, já que quase todos se relacionam de alguma forma com seu nodo. Mas podem haver outros nodos com boa proximidade, indicando pessoas com boa visibilidade do seu ecossistema.

Existem diversas estratégias para cada um dos resultados da análise de redes. Imagine se pudéssemos mapear cada ponto nesse universo? Isso só faria sentido se soubéssemos as trajetórias de cada um, como fazem os astrônomos que mapeiam milhões de corpos celestes. Mas existe um porém: diferentemente de um planeta ou estrela, pessoas não têm órbitas predizíveis. Elas não agem de acordo com uma lei matemática como as da Física – ou, se agem, não descobrimos a fórmula ainda. Sem dúvida, as redes que vamos ver daqui a 20 ou 30 anos serão bem diferentes dos pontinhos ligados por linhas de hoje – serão mais parecidas com uma nuvem de probabilidades ou certezas no tempo.

Abaixo, o mapa completo. Você também pode ver o mapa interativo aqui.

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DIFERENTEMENTE DE UM PLANETA OU ESTRELA, PESSOAS NÃO TÊM ÓRBITAS PREDIZÍVEIS tweet

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Apenas um ponto

Pessoas agem, isto é, têm um comportamento. Se não podemos ainda (e espero que nunca possamos) mapear a linha de comportamento de uma pessoa e sua trajetória no tempo, podemos encarar os papeis que esses “nodos” têm em relação à sua rede. Bem na linha pragmática norte-americana, em relação a uma rede de informações, um paralelo interessante que podemos fazer com o mundo dos negócios é pensar na rede como um meio para viralizar uma empresa, produto ou serviço.

Em seu livro Tipping Point, Malcom Gladwell argumenta que as grandes epidemias tem um ponto decisivo, onde a onda pode sumir ou se propagar e se tornar uma epidemia de fato. Dentre outras coisas, ele coloca dois fatores primordiais: pequenas causas (ou detalhes) podem ter grandes efeitos; e um fator que ele chama de “possibilidade de contágio”. À parte as teorias empacotadas com nomes de prateleira, segundo ele, para uma epidemia social acontecer é preciso haver três personas no processo:

EXPERTS: o expert vai além do especialista. Ele tem o prazer e o dom de se aprofundar ao máximo em um ou mais temas. Além de buscarem a perfeição naquilo que se interessam, os experts também nutrem um desejo genuíno de contar aos outros aquilo que sabem. E esse desejo é essa transparência é a responsável pela aderência da informação que eles transmitem. Enquanto o comunicador distribuirá uma mensagem pra 10 pessoas e 5 aceitarão, o expert transmitirá para 5, mas todas aceitarão.

Podemos fazer um paralelo interessante com a métrica do GRAU. Os experts são os que produzem informação e conhecimento e para tanto precisam ter uma atividade local intensa. Porém, não são necessariamente aqueles que têm uma ligação forte com toda a rede.

COMUNICADORES: pessoas dotadas de um conjunto raro e particular de talentos sociais. Os comunicadores são pessoas com um número de conexões sociais muito acima do normal, geralmente são formadores de opinião, mas principalmente articuladores (ou netweavers) natos. São pessoas com muita facilidade para criar relações e amizades. Os comunicadores não são só importantes pelo número de pessoas que conhecem, mas pela qualidade desses contatos e por eles estarem pulverizados em diferentes áreas.

Os comunicadores de Gladwell são aqueles que fazem as pontes entre as redes. São a INTERMEDIAÇÃO entre grupos e interesses. Eles levam informações a pontos inéditos e fazem conexões entre os experts. Por outros lado, só fazem isso com o que lhes convém ou o que lhes toca.

VENDEDORES: pessoas naturalmente carismáticas e exuberantes. Os grandes vendedores têm um foco muito grande nos detalhes, fazendo-os tão importante quanto o big picture. Além disso, eles sabem o poder da comunicação não verbal e das sutilezas de movimentos corporais num processo de persuasão. Eles conseguem colocar o interlocutor no seu ritmo e ditar os termos da interação para influenciar emocionalmente o outro.

Os vendedores são a persona da PROXIMIDADE, ou o responsável por facilitar o processo de transmissão de informações de forma coesa pela rede.

Numa epidemia os experts são o banco de dados. Eles são os criadores e curadores da informação. Os comunicadores são a cola social, são eles que espalham a informação para um volume grande de pessoas também influentes. Mas são os vendedores que conseguem fazer com que essa informação seja extremamente sexy e memorável. Um exercício interessante é compreender qual o seu papel na sua rede. Qual dessas três personas tem mais a ver com você e no que isso pode te ajudar?

OS EXPERTS SÃO O BANCO DE DADOS, OS COMUNICADORES, A COLA SOCIAL E OS VENDEDORES A COESÃO DA INFORMAÇÃO tweet

Os mitos da rede

Finalmente vivemos em rede, certo? Errado! Sempre vivemos em redes, nos relacionamos em redes e pensamos de forma ecossistêmica e complexa. Nossos cérebros funcionam assim, bem como a natureza onde estamos inseridos. A diferença é que a informação, hoje, circula em uma rede virtual independente. Somente hoje, com esse tipo de computação e acesso podemos enxergar um mapa tosco e precário dessa complexidade.

Bom, pelo menos com a internet podemos inovar, já que a informação é plena e disponível e grupos cada vez mais diversos podem se misturar para criar coisas incríveis. Também não é tão simples assim. Estamos descobrindo que sem um assunto, propósito ou algo que una as pessoas a informação fica difusa e a inovação mais difícil. Grupos sociais são importantes ou não existiriam da forma que os vemos.

 

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Um outro fenômeno pode ser observado nas redes de pessoas: a ilusão da maioria. É a impressão de que, de repente, todos estão seguindo uma moda ou compartilhando determinada informação. Isso ocorre porque algumas pessoas têm muitas conexões e a informação que elas compartilham aparece simultaneamente para muitas outras – o que faz com que estas também tenham maior probabilidade de compartilhar. Já se perguntou como aquele meme ridículo viralizou tão rápido? Pois é. Não significa que todo mundo realmente acha aquilo interessante. É que temos uma tendência grande a seguir a manada. 

AS REPRESENTAÇÕES DE REDES DO FUTURO SERÃO BEM DIFERENTES DE VÁRIOS PONTOS LIGADOS POR LINHAS tweet

Já pensou em como tudo isso pode ser usado para coisas não tão legais? O controle da informação se tornou mais difícil, mas também se tornou a capacidade de reconhecer os truques manipulatórios. No final das contas, como reconhecer se não estamos agindo como uma apresentação do pessoal da PixMob, empresa que usa pessoas como ponto de luz e transforma a platéia em espetáculo identificando, veja só, cada ponto da multidão?

 

Colaborou: André Nery

Imagens: Kumu e Michael Kontopoulos

Outros caminhos

A ilusão da rede social que engana sua mente – artigo

Em redes sociais, limites dos grupos podem ampliar a disseminação de ideias – artigo

PixMob – Transformando multidões em telas de luz – artigo

Análise de Redes Sociais – Wikipedia

Escola de Redes – site

Kumu – ferramenta

Mindomo – ferramenta

Freemind – software

Murally – ferramenta

MindMeister – ferramenta

Gephi – software

NodeXL – software

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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