[Parte I]

Todo mundo sabe o que é um mito, mesmo que não saiba o que responder quando alguém pergunta “o que é um mito?”. Isso porque todo mundo vive os mitos (não confundir com “fulano mitou”, por favor). Mitos são construções simbólicas que embebem nossa cognição e a maneira como entendemos nossa realidade. Mitos percorrem eras, sobrevivem a holocaustos, terremotos e povos dizimados. Não são apenas histórias ou anedotas. Essas pequenas narrativas são instâncias do mito, manifestações temporais que emergem de uma estrutura maior. Os verdadeiros mitos persistem em diversas histórias e lendas.

MITOLOGIA É CANÇÃO DO UNIVERSO, A MÚSICA DAS ESFERAS
Joseph Campbell tweet

Gostem ou não os ateus, o mito é tão parte da humanidade que a própria ciência – arauto da razão e avessa à interpretações subjetivas, segundo seu próprio método – nos é apresentada como uma narrativa de salvação e glória. Sem essa narrativa, recheada de momentos de iluminação, mágicas que nos causam espanto mas despejam lógica e aliviam nossa ansiedade ou promessas de uma vida mais fácil e plena, sem isso nem a ciência faria sentido para nós. Não podemos evitar: é assim que estamos acostumados a fazer, seja adorando a caricatura de um Einstein transcendental ou ovacionando em real time o lançamento de um foguete que mexe com nossos espíritos ancestrais que há milênios almejavam as estrelas no espaço profundo.

Isso fica muito claro nas histórias fantásticas de descobertas como a maçã de Newton ou a “eureka” de Einstein. Espere aí, virão dizer, colocar ciência e ficção no mesmo raciocínio?! Pois uma coisa alimenta a outra, não tenha dúvida. Na década de 1960, o matemático e meteorologista Edward Lorenz propôs a teoria do caos, algo em que havia esbarrado quase que por acidente. É uma teoria de difícil percepção, mesmo para os cientistas da época, porque envolve um novo conjunto de paradigmas (que só agora estamos destrinchando). Mas a maneira como ele a colocou se tornou marcante; hoje todo mundo conhece a história, algo como: “o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um furacão no Texas duas semanas depois”. O efeito borboleta. De fato, Lorenz usou uma alegoria que não chega perto da complexidade de sua proposta, mas é essa alegoria que permeia agora os pensamentos em relação ao caos e aos fenômenos complexos e exponenciais. A delicadeza da imagem da borboleta e a força do furacão em uma frase que faz sentido…científico!

QUALQUER TECNOLOGIA SUFICIENTEMENTE AVANÇADA É INDISTINGUÍVEL DA MÁGICA
Arthur C. Clarke tweet

Muitos mitos antigos refletem uma era patriarcal e barbada, de guerras e conquistas, dualidades extremas e a afirmação de povos e etnias e seus feitos de quando todos eram guerreiros. Alguns outros tocam o sagrado feminino, o princípio complementar. Que artéria mágica tocaram, por exemplo, os mitos gregos, fundamento de muito da imaginação que veio depois no ocidente? Veja Hércules, Prometeu, Urano, Gaia, Édipo… ou por outro lado passagens como o Êxodo, as conquistas bárbaras, os Templários e até mesmo um Leonardo Da Vinci, mais documentado mas nem por isso desprovido de uma aura fantástica (estou evitando entrar aqui nos deuses mais polêmicos). A própria História se confunde com mitos e nutre-se deles.

Os mitos que ajudam a entender a nossa época

Por isso, os mitos são manifestações humanas que trazem aspectos muitas vezes ocultos à normalidade e ao dia-a-dia, nuances sombrias ou esperanças que pareciam perdidas. Situações inexplicáveis acontecem quando somos expostos a narrativas que nos inspiram ou que nos acometem. Não são apenas histórias “legais” ou “terríveis”, são histórias que se conectam profundamente com o que vivemos e acreditamos. Isso é importante porque a nossa capacidade de entender e criar o mundo que queremos é profundamente impactada pela narrativa desse espírito do tempo.

AS DUAS GRANDES GUERRAS FORAM UM DIVISOR DE ÁGUAS tweet

Quem sabe os mitos ofereçam um mapa (cada vez mais louco) dos sentidos e simbolismos que aliviam e atormentam a humanidade, e podem ajudar a perceber nuances numa escala macro? Muitos mitos antigos estão na ponta da língua ainda hoje, outros estão surgindo com a rapidez da evolução humana. E por falar nisso, quais seriam os mitos maiores de nossa época? Uma coisa é certa: as duas grandes guerras foram um divisor de águas claríssimo. Grande parte dos simbolismos e da forma como as histórias são contadas atualmente teve sua lógica moldada nessa época. Abaixo, experimento alguns, sem a intenção de me aprofundar, com a ajuda de uma ferramenta bem interessante do Google que examina termos citados nos livros ao longo da história:

 

1. Singularidade tecnológica

As máquinas assumem o controle – nada mais nada menos que delas mesmas o que já é mais que suficiente. E a humanidade cai de joelhos, já hoje totalmente dependente delas. A partir daí temos alguns cenários, basicamente rondando perto de algum desses três: 1) vai dar tudo certo, e após alguns períodos de ajustes com a falta de empregos viveremos uma boa simbiose com os softwares; 2) as IA (inteligências artificiais) serão subjugadas pelos humanos e farão os trabalhos que nenhum humano quer fazer, servindo-os; 3) nós seremos subjugados, à força ou não, e seremos obrigados a servir às IA ou algo pior.

Seja qual for o desfecho, começamos a nos preocupar muito com isso no século passado, talvez a partir dos anos 1920, com um pico no fim dos anos 1980, década que precedeu popularização da internet – que por sua vez foi o passo fundamental para que isso se tornasse plausível como narrativa. Hoje, a preocupação é real, com cientistas do porte de Stephen Hawking publicando sua preocupação. Em todo caso, a pergunta mais simples parece ser: como manter a humanidade relevante num mundo de supermáquinas?

Exemplos: 2001 – Uma Odisséia no Espaço (livro, 1968), Her (filme, 2013), Exterminador do Futuro (filme, 1984), Eu, Robô (conto, 1939), A Logic Named Joe (conto, 1946), Blade Runner: Do Androids Dream of Electric Sheep? (livro, 1968)

HUMANOS E MÁQUINAS: QUEM DEPENDE (E DEPENDERÁ) DE QUEM? tweet

2. Individualidade x Coletividade

Talvez uma das mitologias mais ancestrais, essa é uma matéria que ganha novos temperos nesse século, vários anos depois de ser colocada em letras na forma de uma luta entre capitalismo e socialismo (ou evolução de um para outro, diriam os socialistas). Capital versus social é um tema polêmico, com história, ciência e dados que provam milhares de vezes que ambos os lados estão certos. Cresce a quantidade de pensadores que concordam que estamos no limite de uma mudança no modelo econômico capitalista (mudança “no”, não necessariamente “de” sistema), principalmente após a crise de 2008 e após surgirem cada vez mais evidências do esgotamento do equilíbrio climático do planeta. Novas formas de pensar a economia – e, antes, de agir na economia – surgem com suas promessas e pretensões. Dessa vez, porém a diversidade parece ser um elemento novo, já que para esses experimentos não há uma “agenda global”, doutrina, teoria ou tratado que visa trazer uma só solução. Há milhares de ações locais (ou até globais) que juntas fazem emergir um sentido único; uma vez manifesto, este serve então de referência e retro-alimenta o processo. Hoje, criamos individualmente e coletivamente e o resultados dessa criatividade volta como insumo para todos. Óbvio que, mesmo assim, parece que estamos longe de um bem-estar geral para os humanos.

O indivíduo “livre” (conceito não necessariamente aceito na sua essência) não é demonizado e o “bem coletivo” também não – mas ambos são claramente culpados do caos atual. De um lado a outro, ativistas, partidários e simpatizantes puxam o alambrado pro seu quintal, mas entre bandeiras e rótulos surgem indícios de um problema sistêmico e complexo. Certo ou errado, parece que se esperar a solução de nossos representantes não é uma opção, resta fazer algo à revelia. Vem à tona tribos, coletivos, redes sociais, comunidades; mas também free spirits, a escolha de não ter filhos, selfies, empreendedores… estaria a noção de indivíduo e de coletivo finalmente testando terrenos em que se possa criar saídas para um mundo em colapso?

Exemplos: Uma investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações (livros, 1776), Manifesto Comunista (tratado, 1848), Economia Circular, Economia Criativa, Economia do Compartilhamento, Ação Humana (livro,1945), Regenerative Capitalism (teoria, 2015), Holarquia (conceito organizacional, 1967) , Auroville (conceito social, 1968), Holismo, Sociocracia, código aberto (aprox. 1998), Creative Commons (regras de distribuição intelectual, 2002)

PODERÃO INDIVIDUALIDADE E COLETIVIDADE VIVER EM PAZ? tweet

Os mitos que ajudam a entender a nossa época?

3. Perda da realidade

Questionar a realidade não é privilégio dos modernos. Os filósofos gregos clássicos já faziam isso, assim como os hindus e os persas. Matéria antiga, por sinal, pois o inferno é outro mundo, ou, na mesma linha, para onde vão as almas quando partem desse? A epopéia do que entendemos por “realidade” teve várias reviravoltas ao longo do tempo, mas atingiu um novo patamar quando alguns começaram a propor viagens no tempo de maneira funcional, quer dizer: pessoas interagindo em tempos diferentes em máquinas do tempo. Os primeiros ensaios do tipo datam do século XVIII. O tipo de paradoxo que isso gera é uma coisa de fato enlouquecedora por um simples fato: existem dois (ou mais) pontos de vista da mesma pessoa ao mesmo tempo.

Isso também acontece quando estamos em uma realidade virtual – seja um jogo de vídeo ou alguma simulação com aquele óculos imersivos, de realidade virtual. Estamos em duas realidades, na maioria das vezes escutamos e sentimos as duas. É por isso que ainda temos a maior dificuldade de nos adaptar a esses óculos de realidade virtual e os negócios do ramo tem um problemão pela frente. Mexer com realidades não parece mais coisa de maluco visto que nos últimos anos surgiu também o conceito de realidade aumentada.

Muitos livros, seriados e filmes passaram a abordar, além da viagem no tempo, o tema de universos paralelos. Em geral, esses outros mundos são cópias do nosso com pequenas alterações que geram uma tensão simbólica. Por exemplo, nesse mundo os Beatles se separaram em 1970; em outro universo, continuaram juntos por muitos anos. Esses outros mundos podem inclusive surgir a cada vez que cada um de nós toma uma decisão e cria novos caminhos que coexistem ao mesmo tempo (!). O fato é que estamos cada vez mais nos acostumando a realidades distantes da nossa e também a mesclar realidades. Junte isso com a singularidade tecnológica e temos o cenário de dominação perfeito, retratado no filme Matrix: seres humanos que não reconhecem sua verdadeira existência. A noção de realidade é o fundamento da sanidade. Como será um futuro com múltiplas realidades?

Exemplos: Matrix (filme, 1998), Máquina do Tempo (livro, 1894), They (conto, 1941), Alice no País das Maravilhas (livro, 1865), Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (conto, 1940), San Junipero / Man Against Fire – Black Mirror (série, 2016), Vanilla Sky (filme, 2001), Fringe (série, 2014), Ensaio sobre a Cegueira (livro, 1995), o Triângulo das Bermudas, o experimento Philadelphia

TEREMOS QUE ESCOLHER ENTRE MÚLTIPLOS UNIVERSOS E REALIDADES tweet

 

Leia a Parte II

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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