Esse texto é a sequência da Parte I

4. Expurgo humano

Pois bem, finalmente podemos dizer com base científica que o ser humano está esgotando o planeta. Esse fato veio a tona de forma muito sutil e simbólica – à parte guerras, poluição, pobreza e doença – escondido dentro de um outro grande feito da humanidade: a conquista do espaço (bom, esse termo é um pouco exagerado: na verdade poderíamos dizer que foi a conquista da atmosfera ao lançarmos naves para além dos seus domínios; conquistar o espaço é outra coisa). Tudo o que importa para nós humanos, tudo o que somos, eternizado em uma imagem completa do planeta azul; pela primeira vez pudemos ver quais são os nossos limites. Isso tudo fechando uma aceitação que durou séculos: não somos o centro do universo. E o pior: estamos destruindo nossa nave-mãe, a única coisa a que podemos nos agarrar. Surgem narrativas e teorias nas quais estamos fadados a buscar outro planeta para chamar de nosso, algumas delas encadeadas com a existência de civilizações mais avançadas que nos obrigam a desertar como punição pelo nosso descaso com a própria casa. À propósito, Marte está voltando à moda…

Ao viabilizar a saída do planeta, nada mais lógico que buscar outras fronteiras, ou algum sentido em outro lugar. Na verdade, essa busca é mais antiga que as viagens espaciais dos anos 1960, mergulhada nos mitos astrológicos. Começam a surgir histórias sobre como seria de fato viver em outro planeta, como Marte. Ir “aonde nenhum homem jamais foi” (Star Trek) é mesmo coisa recente. Seria essa busca algo inerente ao destino dos humanos ou apenas uma necessidade?

Exemplos: Great Stories of Space Travel (livro, 1963), Odisséia no Espaço (série de livros, 1968), Star Trek (série, 1966), Planeta dos Macacos (filme, 1968), O Vingador do Futuro (filme, 1990), O Guia do Mochileiro das Galáxias (série, 1978), O Marciano (filme, 2015)

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Os mitos que ajudam a entender a nossa época?

5. Nós e os alienígenas

Trata-se de uma das mais sérias mitologias do nosso tempo. No mundo, milhares de pessoas dedicam tempo à procura de provas da existência de seres de outro planeta que nos visitam. O avistamento dos chamados OVNIS – que não são necessariamente alienígenas – é tão frequente que o nome correto é “fenômeno OVNI”. A liberação de documentos militares e governamentais é aguardada com ansiedade e, de fato, os registros alimentam as dúvidas e as suposições. Uma variedade imensa de teorias são levantadas todos os anos e existe uma enorme gama de tipos de nave e correlações existentes entre os alienígenas e a vida na Terra.

Apesar do pensamento sobre outras formas de vida extraterrestres existir de algum jeito há quase dois mil anos e ter ganhado tração após a adoção do modelo heliocêntrico (sec. XVII), o termo “extraterrestre” é bem recente. Isso não parece intimidar os entusiastas. Da construção das pirâmides egípcias aos hieróglifos de Nazca, dos avanços científicos do pós-segunda Guerra Mundial às mudanças climáticas, muitas teorias sugerem que temos uma platéia cativa há milênios. As Grandes Guerras, aliás, aguçaram a mente da sociedade para essa narrativa. Em 1938, o diretor de cinema Orson Welles resolveu transmitir no rádio uma espécie de experimento jornalístico em que simulava o anúncio de uma invasão alienígena e o resultado foram seis milhões de pessoas em pânico real.

Outras abordagens mais céticas apontam para a possibilidade de haver vida, porém não inteligente; ou ultra-inteligente, o que no caso nos torna insignificantes e não material de visitas. Assim como outras mitologias, tudo isso nos faz refletir sobre nosso papel no universo, e no planeta.

Exemplos: o caso Roswell (fenômeno, 1947), Operação Prato (fenômeno, 1977), ET (filme, 1982), Guerra dos Mundos (1897),  o ET de Varginha (fenômeno, 1996), Flash Gordon (quadrinhos, 1934), ET (filme, Sinais (filme, 2002), Contatos Imediatos de 3º Grau (filme, 1977)

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6. Vermes urbanos

“As cidades são a maior invenção humana.” Concorde-se ou não com essa frase do economista norte-americano Edward Glaeser não dá pra negar que o urbano é o contexto social de grande parte da humanidade há alguns séculos. Grande parte do conhecimento gerado teve origem nas cidades, assim como boa parte das histórias que nos influenciam hoje. As cidades aos poucos se tornaram, também, aglomerações de pessoas, pestes e lixo, e túneis, becos e vida noturna. O asqueroso do inconsciente humano refletido nas metrópoles. Nada mais natural que dessa poça escura nascessem lendas urbanas (termo aliás bem recente, de algumas décadas atrás). Esses vermes são espelhos dos nossos medos e desprezos: monstros, assassinos, usurpadores, criaturas paranormais que fazem o que (quase) ninguém consegue flagrar mas que muita gente acredita, por via das dúvidas.

Banheiros, por exemplo, parecem ser um local propício para a aparição de fantasmas de suicidas, mulheres assassinas e serial killers. Muitas dessas histórias têm algo em comum, uma pecha moralista: as vítimas vermes são pessoas que se comportam mal e portanto são punidas. Considerando a probabilidade de se pecar contra a moralidade (em qualquer época), é claro que a próxima vítima pode ser você. Outras histórias dizem respeito aos marginais e os execrados, àqueles que se transformam em coisas que a sociedade decide não enfrentar.

Exemplos: A metamorfose (livro, 1925), Almoço Nu (livro, 1959), O Bebê de Rosemary (filme, 1968), a Loira do Banheiro, Psicopatas, Maníacos, Slenderman, Jack, o estripador, jacarés nos esgotos, o homem do saco, Snuff Films, Máfia, ladrões de órgãos, seitas, invocação de espíritos

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7. Zumbis e a coisificação das pessoas

Não dá pra negar a popularidade crescente do tema de zumbis na chamada cultura pop atual. Consegue-se rastrear o termo “zombie” (afinal, estamos falando de pop culture) no entre-guerras e com uma explosão a partir da década de 1960. O termo tem origem no vodu haitiano, onde pessoas vítimas de práticas necromânticas são subjugadas pelo praticante. Na verdade, existem casos análogos na natureza em que o termo é empregado, por exemplo quando formigas e outros insetos são tomados por fungos que os controlam.

Diferentemente do fenômeno original, em que há em jogo os interesses de um mestre (bokor ou caplata), as versões mais atuais da narrativa se referem geralmente a uma convulsão social. No imaginário popular, zumbis se tornaram aqueles que voltam dos mortos “sem cérebro”, condenados a vagar sem um porquê – e a ironia: os humanos e seus cérebros agora são as presas. Ecos claros de um Frankenstein mais visceral e quase sem sentido.

No apocalipse zumbi, violento e desumano, sai a magia, entra a biologia e esses seres podres se espalham como doença. Os zumbis não têm cérebro, mas curiosamente o único jeito de “matar” um zumbi é estourando seus miolos. Algo como: não há cérebro (vida), mas em todo caso é melhor acabar com a esperança. Muitas metáforas já foram atribuídas ao fenômeno zumbi. Nos casos mais recentes, uma crítica à sociedade de consumo e à alienação, o que pode muito bem servir aos tempos de telas e redes sociais. Somos coisas, andamos no meio de coisas, consumindo coisas. Outra associação realmente assustadora é com chacinas que acontecem em determinadas épocas, como em Ruanda, no Congo, no Brasil Resta saber se a sociedade enxerga essa crítica ou se apocalipse zumbi é só diversão mesmo.

CONSEGUIREMOS RESGATAR NOSSA HUMANIDADE À TEMPO? tweet

Exemplos: A Noite dos Mortos Vivos (filme, 1968), The Magic Island (livro 1929), Indiana Jones e o Templo da Perdição (filme,1984), Guia de Sobrevivência aos Zumbis (livro, 2003), The Walking Dead (série, 2010)

8. Super-heróis

“Personagem fictício, geralmente dotado de poderes sobre-humanos, personificação do bem e opositor do mal” (Dic. Aurélio). É claro que essa descrição serve para quase todos os heróis, inclusive aqueles ancestrais como Jasão. Mas no período logo após a Primeira Grande Guerra e logo após a Segunda, surgiram os super-heróis (pressupõe-se mais que heróis). Parece que só mesmo seres além da imaginação poderiam atacar os problemas inimagináveis daquela época. Esses problemas apareciam geralmente de forma muito mais prosaica nos quadrinhos, que foram o primeiro suporte a trazer essas figuras. O “mal” eram bandidos, monstros e injustiças. Em alguns momentos os super-heróis lutaram nas Guerras, mas em aparições intermitentes. Sua narrativa era outra, que começou no começo do séc. XX, de carona em revistas de ficção consideradas literatura de segunda linha, numa curiosa gênese das sombras, sempre abusando do monomito (ou a jornada do herói).

A partir de determinado momento, o mal assume forma de uma antítese – o supervilão. Esse maniqueísmo simplificador do bem vs. mal serviu muito bem a uma sociedade que gosta do conforto de não ter que decidir. Está bem claro de qual lado seu ponto de vista está: do lado daquele que é sobre-humano e sacia os desejos agir sem medo. A maior parte dos personagens em todas as épocas, heróis ou vilões, são do sexo masculino, raras são as excessões como a da vilã Viúva Negra e a heroína Scarlet O’Neil. A característica mais comum a muitas dessas figuras é o uso de máscara ou a ocultação da real identidade. Afinal, a sociedade não está pronta para aceitar o que é sobre-humano, mesmo que seja a personificação do bem e da justiça, talvez um estranho medo do “bem supremo”?

Mais recentemente essa super-simplificação deu lugar a uma desmistificação. O super-herói passa a ter problemas e demonstra fraquezas como qualquer humano e não tem necessariamente um compromisso com a justiça. Por outro lado, marcas aproveitam essa brecha para usar ícones e celebridades sob o manto dessa mitologia: astronautas, velocistas, aventureiros, todos super-heróis obviamente patrocinados. Surgem também personagens e narrativas mais complexas e abre-se mais espaço para o anti-herói.

Exemplos: Zorro (1919), o Fantasma (1936), Ogon Bat (1931), Mandrake (1934), Superman (1938), X-Men (1963), Astro Boy (1952), Heroes (série, 2010), Hancock (filme, 2008), Batman vs. Superman (1991) Universos Marvel e DC Comics

SUPER-HUMANOS TAMBÉM SOFREM. QUEM IRÁ NOS DEFENDER? tweet

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9. O mundo no limite

Para o final, a ideia  que deu origem à reflexão desse artigo: estamos no limite de uma mudança global. Só não sabemos quem serão os responsáveis ou quem serão os salvadores. Quem serão os arautos do fim do mundo ou os heróis salvadores. A narrativa dos cavaleiros vem da Bíblia, do livro do Apocalipse. Cavalos são símbolos de impetuosidade e força. Os cavaleiros originais – a peste, a guerra, a fome e a morte –, além das cores associadas a cada um, carregavam artefatos simbólicos – um arco (ou arco-íris), uma espada, uma balança e uma gadanha (foice), respectivamente. Claro que os quatro cairiam como uma luva nos dias atuais. Mas pela diversão proponho aqui uma releitura:

Os 4 cavaleiros do apocalipse pós-moderno

  1. Poluição. Traz um espelho (mas poderia ser um arco)
  2. Extinção do trabalho. Traz um relógio (mas poderia ser uma espada)
  3. Superpopulação. Traz um punhado de sementes transgênicas estéreis (mas poderia ser uma balança)
  4. Mudança climática. Traz uma borboleta (mas poderia ser uma gadanha)

Os 4 cavaleiros do graal pós-moderno

  1. Tecnologia. Traz um monolito
  2. Educação. Traz uma luz-fátua
  3. Novas economias. Traz uma rede
  4. Ciência. Traz uma caixa

Os novos artefatos seguem a lógica dos antigos, seu simbolismo não é diretamente negativo, mas antes é profundo e traduz a época. Nossos ancestrais pareciam ter muita certeza do que seria o fim do mundo para eles (supondo que o fim do mundo não chegou). A salvação, por outro lado, era quase uma exclusividade de Deus. Em nosso novo mundo complexo e enorme, o fim dos tempos pode vir de um monte de lados e a “salvação” também. Qualquer um dos cavaleiros do apocalipse citados pode pôr fim ao mundo que conhecemos mas nossa fé quase cega parece mesmo ter se deslocado para as narrativas dos cavaleiros da salvação.

FICAREMOS ESPERANDO OS CAVALEIROS OU SEREMOS NÓS OS CAVALEIROS? tweet

 

Cada um desses mitos daria um livro. Você concorda? Esquecemos algum exemplo muito óbvio? Contribua nos comentários.

Todas as imagens por Rodrigo Franco @ PURO

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Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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