Annalium Novi é uma experiência de narrativa em forma de ficção sobre o novo onde histórias trazem as perspectivas e as transformações que algo novo provoca.

 

Pensou nos papeis enquanto sorvia displicentemente seu milk-shake de baunilha. Derramou uma gota que limpou com a manga da camiseta branca. Não nos papeis dos livros, mas nos papeis das personagens, estas presas e eternamente obrigadas a repetir mesma história por anos, às vezes séculos. Das boas histórias, deve-se esperar serem contadas para sempre.

 

A despeito da pouca idade, gostava daquele lugar, de sentar nos pufes olhando para as estantes. Sua inexperiência, na verdade, era um trunfo. Reconsiderava os papeis. Se entrava lá tantas vezes, na mesma livraria e se era diferente para cada vez, talvez as personagens não se importassem em repetir a história porque não a estariam repetindo, mas saboreando, eram, pois, o próprio enredo de si mesmos e de sua imagem e semelhança, o autor, que não era como se fosse um pai. Era mais como um regente, e o seu livro a impossível fotografia de sua música, do começo ao fim. Sua batuta não aparece senão subentendida nas pausas e ataques.

 

Tinha inventado uma brincadeira sua, gostava de marcar encontros entre os personagens por entre as prateleiras. Era assim: escolhia uma seção para servir de marco. Então passava os olhos rapidamente pelos títulos e escolhia os personagens que nunca se encontrariam, não fosse ela, a regente. Sorrateiros, vivazes, despreocupados, condizentes com suas crases, espiavam de entre as páginas e caminhavam por lombadas coloridas com boa vontade ao encontro uns dos outros.

 

Foi assim com Narizinho e K. num encontro surreal na seção de culinária. Deram-se muito bem. Raskólnikov e Dorian Gray ficaram sem assunto, mas pelo menos não trocaram insultos como Mrs. Dalloway e Capitu. O Jesus de Saramago com o de Miller sentados na mesa de jantar com o criador, ou melhor, o Criador, não o respectivo de cada, repassavam suas peripécias com jeito de meninos tímidos na presença do pai. Às vezes compunha ares de ambiente, como o úmido parque escuro em que Fausto e Drácula deram comida aos pombos.

 

Outras vezes imaginava os olhos pequenos dos famosos autores nas frestas dos livros, impotentes, incrédulos ao verem suas criações com ímpetos nunca por eles imaginados, como pais que não sabem se sentem orgulho ou desprezo. Impedidos de participar, voltavam emburrados para trás das folhas de rosto e suas máscaras.

 

Não ela, Julia. Gosta das pessoas dos livros mais que os livros e dos livros mais que os autores. Não sente por eles orgulho nem desprezo. Fome. De sua história, conta apenas seus 31 anos, hoje, e vai buscar um bom brigadeiro antes de ir para casa ler um pouco.

 

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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