ENTRAMOS NESSE CICLO PERDIDO EM PETABYTES DE DADOS, CONSUMINDO A NÓS MESMOS EM FORMA DE PEDAÇOS DE AUTOAFIRMAÇÃO EM QUE NOSSOS AMIGOS DÃO UM “LIKE”. tweet

A paranóia surge como uma parasita de muitas bocas. Mas duas são bem visíveis e são, também, dois terminais da rede coletiva de informação. O primeiro é a necessidade de consumo de informação e o segundo, a exploração de informação — cuja existência depende do primeiro. E o intermediário e facilitador em meio de tudo isso, o grande articulador dessa ansiedade coletiva: o algoritmo.

 

Vivemos uma ansiedade, não à toa. O paradigma do individualismo materialista tem dado sinais de cansaço. Aos poucos, a recompensa por consumir bens nos parece cada vez mais sem o propósito costumeiro, nosso bem estar com posses e o alívio de ter vêm sendo substituídos por outra coisa. A expressão da individualidade vendida durante décadas por meio de objetos de desejo sofre uma esquizofrenia com um milhão de vozes que pedem ao mesmo tempo outras coisas. O que são, ainda não está claro.

@ Rodrigo Franco

Parece, também, que o próprio individualismo, pelo menos esse com o qual ficamos acostumados nas últimas gerações, em que temos uma personalidade constituída e facilmente distinta no nosso meio, esse também está sofrendo agulhadas da nova era da informação. Afinal, nosso meio aumentou e gradativamente descobrimos milhares de pessoas “iguais” a nós, fato que aceitamos com dificuldade.

 

É nesse cenário que a informação sobre alguém ou algo começa a ganhar um valor comparável ao de um bem físico. Os bens físicos sendo substituídos por lotes encapsulados de cultura, tornando-se bens culturais. A posse da personalidade única, que diferencia você de outra pessoa é uma constante luta para agregar bens culturais em busca de diferenciação. Entramos nesse ciclo perdido em petabytes de dados, consumindo a nós mesmos em forma de pedaços de autoafirmação em que nossos amigos dão um “like”.

 

ARRASAMOS LA SELVA, LAS SELVAS VERDADERAS, E IMPLANTAMOS SELVAS ANÓNIMAS DE CEMENTO. ENFRENTAMOS AL SEDENTARISMO CON CAMINADORES, AL INSOMNIO CON PASTILLAS, LA SOLEDAD CON ELECTRÓNICOS, PORQUE SOMOS FELICES ALEJADOS DEL ENTORNO HUMANO.
José ‘Pepe’ Mujica tweet

 

Produtos como o Snapchat, em que imagens enviadas são perecíveis são o primeiro indício de que estamos percebendo o valor da informação. Ao darmos um fim à informação, damos a ela vida e propósito. Até onde podemos confiar em que elas realmente foram destruídas?

 

Uma intervenção recente do artista Plastic Jesus chamada Useless Box levanta questões sobre esse novo sentimento. Caixas de plástico semelhantes a produtos eletrônicos foram colocadas nas prateleiras camuflando-se com etiquetas e comunicação idêntica a da loja. Nos dizeres: “Outro gadget de que você não precisa. Não vai funcionar quando você chegar em casa. (…)”. O design é crucial, porque engana quanto a utilidade real do produto, parece que realmente serve pra alguma coisa, já que é muito parecido com os aparelhos atuais: limpo, sem indicações ou deixas visíveis.

 

@ Plasticjesus.net

 

Antes, nossas relações eram cadenciadas por restrições como localidade e ocasião. Hoje, o imprinting social começa a exigir uma sincronia. Essa constância, inerente ao que agora chamamos de estar conectado é uma demanda que aumenta cada vez mais. Hoje temos um status constantemente atualizado em relação aos nossos pares. Produzimos bens culturais e muita coisa sobre nós mesmos como forma de afirmação social e influência. A paranóia de estar acompanhando o fluxo do enorme rio e não perder o barco é irresistível e, de certa forma, cada vez necessária para uma relação social eficiente.

 

POÇOS CARTESIANOS

 

Em corredores subterrâneos e galerias geladas de prédios despercebidos repousa o outro terminal. Suas intenções e seu potencial começam somente agora a despontar sob nomes como Big Data e Data Mining, não à toa nomes em inglês. São norte-americanas as principais empresas responsáveis por processar a enorme massa de informação que é produzida segundo a segundo pela coletividade. E o mercado que começa a se formar em torno desse enorme potencial surge com empresas americanas com forte ligação a centros de pequisa nos currais do Vale do Silício.

@ New York Times

 

NA REDE, NOS AFASTAREMOS DA NOSSA VERDADEIRA PERSONALIDADE, OU ROMPEREMOS: NOS CANTOS COMUNS SEREMOS ADEQUADOS, ENQUANTO NOS CANTOS ESCUROS DEIXAREMOS REPRESENTAR NOSSOS DESEJOS ÍNTIMOS. tweet

 

A exploração dos dados exige vigilância constante, assim, ao mesmo passo do primeiro terminal, não se perde a sincronia. A paranóia retro-alimenta a ansiedade coletiva.

 

Ninguém sabia ao certo como os governos estavam explorando a rede. Mas, de tão plausível, era fácil acreditar em teorias da conspiração em que nossas vidas online eram devassadas e dados pessoais coletados e armazenados. Até que veio à tona o fato: o governo dos EUA usa softwares como o Prism para isso. É claro que não há máquina mais preparada para colher e processar informações sobre populações que aquela que faz isso há um século. O imaginário coletivo da conspiração governista, soprado pela cultura americana, não fica longe da realidade, agora com ares de conspiração global.

 

A ironia dessa situação é que nos sentimos vigiados também por pessoas próximas, conhecidos e desconhecidos. Um coletivo fluido de pessoas que têm acesso à nossas informações pessoais de um jeito para o qual não estamos preparados ainda. Nesse começo, em que ainda somos crianças brincando com as enormes possibilidades dessa rede, não nos preocupamos muito. Afinal, o que há para esconder? Aos poucos percebemos que há muito.

 

A INICIATIVA DOS GRANDES DADOS (BIG DATA) ACHA QUE INTERPRETA A INTELIGÊNCIA COLETIVA. tweet

 

Um caminho óbvio dessa visão já começa a ser detectado. Os nosso avatares na rede cada vez mais se afastam da nossa verdadeira personalidade, ou então a romperão: nos cantos comuns representaremos um papel social adequado e sincronizado, enquanto nos cantos escuros deixaremos representar nossos desejos íntimos; o risco é que nem esses estão seguros o bastante. Hoje somos pontos de acesso pessoais, ativos e rastreáveis, à rede, e finalmente começa a se desenhar uma complexidade que facilita a emergência de padrões.

 

 

 

 

A iniciativa dos grandes dados (Big Data), já sob a alçada de corporações e marqueteiros, suga e interpreta, ou acha que interpreta, a inteligência coletiva. Ainda engatinha nessa jornada. Ainda estamos com infográficos de certa forma estáticos, mas os dados esperam por novas formas de se apresentar à nossa consciência. Essa ponta da rede pode nos trazer mais falsas verdades que todas as outras formas de manipulação já usadas. O Self Quantificável ou autoquantificação , em que algorítmos nos oferecem vislumbres de nós mesmos já começa a ser realidade. A pergunta é, como fica a maior ameaça à individualidade, que é o medo de ser apenas um número na estatística? Poderiam os dados nos oferecer padrões em que pudéssemos encaixar grupos de pessoas muito parecidas?

@ Rodrigo Franco

OS BENS FÍSICOS ESTÃO SENDO SUBSTITUÍDOS POR LOTES ENCAPSULADOS DE CULTURA, TORNANDO-SE BENS CULTURAIS. tweet

 

Quanto mais abrimos as possibilidades para uma ponta, quanto mais exploramos a possibilidade da massa de dados e a inteligência coletiva para o aprimoramento social, mas abrimos caminho para os parasitas e mais engordamos o algoritmo, ao ponto de algoritmos alimentarem a si mesmos em uma retro-alimentação (feedback) positiva estranha até mesmo para nós. Eles alimentarão nossos espríritos com novas coleções do que queremos ser. Uma visão que amedronta como quando assistíamos às ficções científicas e robôs que dominam o mundo.

Outros caminhos

 

Todos somos câmeras móveis – vídeo

Qualquer um é terrorista – Artigo na The Verge

Summon the NSA

Sahron Turkle – Connected but alone? – video

Zygmunt Bauman – wikipedia

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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