Em tempos em que algumas das maiores redes sociais e sites de conteúdo baseiam-se de forma importante em fotos, a identidade aparentemente estática da fotografia começa a ser revisitada. Nascidos em um meio de fluxo de informação desimpedido, Instagram, Twitter, 9gag, Imgur ou Facebook aceitarão com facilidade as novas vertentes da fotografia. O que pode escapar aos filhos da internet é que, ao abrir as portas da interatividade, a essência da foto não vai mudar.

 

A FOTOGRAFIA, EM SI, NÃO ME INTERESSA. EU QUERO APENAS CAPTURAR UMA PARTE DA REALIDADE.
Henry Cartier-Bresson tweet

 

 

Desde sempre, os seres humanos parecem obcecados com o fato de reproduzir um determinado momento. Dentre vários os motivos prováveis, registrar um fato, fazer um julgamento, ganhar status, o que mais chama a atenção é o de contar uma história. Contar uma história significa criar cultura. É claro que os instrumentos para se contar uma história, muito antigamente, não passavam da voz, argila ou carvão. Pode-se arriscar que a humanidade sempre buscou algo que culminou com a invenção da fotografia. Capturar um momento com detalhes de realidade foi um divisor de águas na capacidade de se contar histórias. Abriu novas possibilidades para a como acreditamos no que nos contam – pelo menos até começar a era da adulteração fotográfica, logo no início do século passado.

 

Novos paradigmas

 

© Lytro

 

Após a informatização da fotografia, assim como aconteceu com a música, o equipamento deixou de ser um peso para o autor e para o espectador e o crivo passou de qualidade para quantidade. Isso permitiu plataformas com mais de 100 milhões de usuários ativos que sobem fotos freneticamente sem julgamento de valor. Essa pessoas não tiram fotografias com o zelo dos grandes fotógrafos de século XX. Elas estão contando suas histórias à maneira da Era da Informação. Mas não é comportamental a grande mudança da fotografia atual. Como do carvão para a pintura ou para a câmara escura, a mudança é tecnológica. Dois novos paradigmas estão sendo explorados por tecnologias e métodos digitais: interação e intervalo de tempo.

 

Em meados da década de 2000, Ren Ng, pesquisador de Stanford, percebeu a dificuldade de se focar rapidamente uma foto, enquanto tentava capturar o sorriso da filha de seu amigo com uma câmera. Ng resolveu inaugurar o mercado de câmeras de campo de luz e fundou a Refocus, mais tarde rebatizada de Lytro. Em 2011, foi lançada a primeira câmera plenótica da Lytro, um retângulo de apenas 200g que, apesar de ser maior, lembra um pequeno objeto popular até os anos 80, o monóculo, onde se via por uma lente um cromo colocado no tampa posterior.

 

A MÁGICA DE CAPTURAR A ESSÊNCIA DO MOMENTO ESTÁ GANHANDO NOVAS DIMENSÕES tweet

 

Com a Lytro, capturar a foto não necessita do ato de focar. Isso é feito depois, na própria câmera, ou em outros aparelhos. O mais surpreendente é: isso pode ser feito depois, inclusive pelo espectador. Suas muitas lentes, arrumadas ao longo do sensor, captam 11 milhões de raios de luz, ou seja, grande parte do campo focal. Escolher onde quer enxergar fica a critério do observador. As imagens podem ser incorporadas, vistas e, mais importante, manipuladas em qualquer plataforma.

Em 2014, uma nova câmera Lytro chegará ao mercado, a Illum, que, na aparência, lembra as DSLR (digital single-lens reflex) tradicionais. Mas, agora, a câmera promete capturar 40 milhões de raios de luz, com zoom e especificações que visam o mercado profissional. O campo de luz e até mesmo uma leve mudança de perspectiva poderão ser capturados e posteriormente manipulados. Desde que surgiu como estudo em laboratório na década de 90, a tecnologia da câmera se tornou uma realidade palpável. Mas a própria empresa prefere se esquivar do título de fabricante de câmeras. Prefere mesmo ser conhecida como a empresa que mudou a fotografia. As implicações dessa nova tecnologia são enormes: novos nichos e estilos de fotografia, fotógrafos e usos surgirão. Inclusive uma novo novo significado em que até os mais profissionais usarão uma câmera point-and-shoot (mirar e clicar), antes relegadas aos “amadores”.

Memento mori

 

QUAL O TEMPO DE UMA FOTOGRAFIA? tweet

 

Desde a invenção da animação como recurso narrativo, a imagem estática vem desdobrando novos caminhos. Assim como nas fotos mais antigas, o suporte é essencial. Com a informatização e a internet, na forma de arquivo, a animação encontrou uma plataforma simples e possível de ser replicada facilmente. Um arquivo GIF animado é incrivelmente fácil de manipular e apreciar. O suporte do GIF, assim como o JPG e o Lytro, em formato de um arquivo que pode ser incorporado, é fundamental para sua aceitação.

 

 

Ainda recentemente, o Twitter buscou ampliar uma forma de narrativa com a mesma lógica da animação. Criou o Vine, uma animação entre o vídeo e o estático onde o autor captura vários momentos um após o outro, construindo uma história. O Instagram não perdeu tempo e aplicou a mesma ferramenta em seu aplicativo. O que esses dois gigantes da internet buscam é o segundo novo paradigma, além da interatividade: o intervalo de tempo.

 

Esse paradigma faz surgir uma pergunta antes impensável: quanto tempo dura uma fotografia? Ou: poderia uma fotografia ser mais que uma imagem estática? Argumentos técnicos ou definições podem afastar essa ideia. Talvez a pergunta possa ser feita de outra forma: quanto tempo dura um momento? Segundos ou milésimos? A vontade de capturar esse intervalo e  contar uma história é a mesma que levou à invenção da máquina fotográfica. Se, por um lado, temos acesso ao que é considerada a primeira fotografia tirada, por Nicéphore Niepce entre 1826 e 1827, por outro, parece que a foto que tiramos ontem se torna plenamente descartável com a facilidade de tirarmos outras na sequência.

 

@ cinematographs.com

 

Menos polêmico, um outro tipo de mídia explora esse mesmo paradigma, usando o mesmo suporte. A fotógrafa de moda Jamie Beck usou o GIF para animar detalhes sutis de fotografias, dando, assim, a impressão de um breve momento preso em uma moldura. Uma brisa que balança os cabelos, olhos que piscam ou pessoas que passam. Essas amenidades servem de enquadre para a cena principal, entregando ao observador mais sobre a intenção do fotógrafo. Ela chamou essas imagens de Cinematógraficos (Cinematgraphs), nome emprestado de uma invenção do século XIX ligada aos irmãos Lumière. O formato se tornou popular e um outro bom exemplo são os GIFs do site If We Don´t Remember Me, com cenas de filmes clássicos do cinema.

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A MELHOR COISA SOBRE UMA FOTOGRAFIA É QUE ELA NÃO MUDA, MESMO QUANDO AS PESSOAS MUDAM.
Roland Barthes tweet

 

Talvez os cinematográficos estejam querendo contar as mesmas histórias das imagens do Vine ou Instagram, de outra forma. Imagens de momentos que querem entregar novas dimensões ao apreciador, além daquela realidade subjetiva congelada pelos fotógrafos até hoje. Talvez a subjetividade estivesse mesmo buscando mais. Poderiam os autores dessas novas imagens serem chamados de fotógrafos?

 

@ cinematographs.com


Fotos interativas: Lytro
Fotos animadas: Cinematographs.com
Com algumas informações de The Verge

Outros caminhos

Lytro – site

Cinematographs – site

Cinematográficos – wikipedia

Lytro Illum – artigos 1 e 2

Fotografia de Nicéphore Niepce – wikipedia

If We Don´t Remember Me – site e Pinterest

Giphy – site

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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