Annalium Novi é uma experiência de narrativa em forma de ficção sobre o novo onde histórias trazem as perspectivas e as transformações que algo novo provoca.

 

Um minuto de silêncio – e tudo pereceu. Não é verdade: tudo se suspendeu – parece algo mais apropriado. E poderia, sim, ter sido um minuto ou uma hora, o que evidentemente não importa. Na grama, duas de pegadas formavam um par chamuscado que deixava ver a terra, preta. Ao lado, jaz um corpo nu enfumaçado pelos olhos pudicos dos que passam e olham, ou melhor, por um motivo mais prosaico: um raio caiu ali, ali bem em cima da estatística preferida dos jornais da tarde. Em cima de alguém.

Qual abriu os olhos, Rita (ou talvez Sílvia) pôde enxergar por entre lágrimas que encharcavam de ardência suas órbitas uma senhora tocando-a com as mãos, segurando um casaco ou manta e dizendo algo tão surdamente que só foi compreender depois de alguns minutos. Depois de algumas perguntas, resgate, ambulância, hospital, documentos, macas, jalecos, desconhecidos com olhos curiosos e/ou sofridos em alas cor de creme-sujeira. Sentia seus cabelos curtos desgrenhados e, agora que entendeu o que tinha acontecido, perguntava-se se tinha mudado de cor – não – e passou os dedos acariciando o couro cabeludo mesmo assim, sentindo um arrepio contido ao tatear o que pensou ser areia ou grânulos.

Em algumas horas, deitada na cama, percebeu que não tinha pensado nas suas coisas. Ela, que sempre fora uma pessoa de hábitos simples, estivera com a mente ocupada em cortinas quase brancas, uma TV quebrada e a tentativa de lembrar para onde ia quando o impossível aconteceu. Não conseguia. O tempo passou muito devagar e os mais pequenos pensamentos pareciam afogados em gel, tornando-se grandes, lentos e inconclusivos. “Efeito do acidente”, como lhe explicara um certo doutor jovem com uma cara rasa e testa grande, ou seria um incidente pensou ela, já que raios incidem. Pois bem: finalmente pensou também que precisava avisar a Jorge e resolveu perguntar se seu marido já havia sido contatado sobre o ocorrido. Após esperar vários minutos até que uma enfermeira emburrada passasse correndo, quase ignorando seu grito curto, foi dito a ela que ninguém tinha sido avisado porque não havia ninguém para avisar.

Ninguém! Quis levantar da cama, mas foi impedida pela forte enfermeira, “calma, calma…”, que disse que ia trazer “suas coisas, sua bolsa”. Um enjoo repentino tomou conta, o peito quente como se pequenas chamas tocassem a parede de seu peito – “como, ninguém para avisar?!” Começou a duvidar do que tinha acontecido, do que as pessoas tinham contado a ela, porque, afinal, não tinha passado por nada, tudo o que aconteceu, para ela durou menos do que a mente foi capaz de registrar. Estariam eles mentindo?, teria acontecido algo mais grave, algo que não se lembrava pelo lapso que acidentes costumam causar? Vou sair daqui e resolver isso.

Ao abrir afobadamente a bolsa com os documentos, não reconheceu nada ali, “Me deram a bolsa errada, essa não é minha”, disse nervosa, e ouviu que aqueles eram os pertences encontrados com ela após o acidente. Fui roubada, pensou, mas outros funcionários testemunharam a favor da história: encontraram com ela, além dos restos de roupa chamuscada, uma bolsa e um colar. Perguntou novamente por Jorge com um pressentimento de que era em vão, mas com a sensação de que era o que tinha que fazer e com a repetida negativa seu semblante se tornou contemplativo e cansado. Com a bolsa semi-aberta entre as mãos tomou a decisão racional de ver a quem pertencia a bolsa, para que pudesse trocar pertences; em um minuto, com o documento na mão, sentiu o sangue ferver na face: Sílvia Amaro Santos, nascida em 1977, era parecida com ela. Mas aquele não era seu documento, disso tinha certeza. A semelhança devia ter induzido o erro a administração do hospital e não havia indícios do paradeiro de seus pertences.

Passou dois penosos dias de exames e espera (mais espera que exames) e a constatação de que estava “tudo bem”, depois do que saiu a pernadas incertas por calçadas que não conhecia. Mas o destino, esse ela conhecia muito bem, o edifício Flamboyant da rua Cícero oitavo andar. Um sentimento esquisito de uma situação transitória que seria resolvida em breve, que piorou quando estendeu ao cobrador os trocados que pegou emprestado da bolsa de Sílvia  que deixou no hospital sob o registro oficial de que não era sua (ela poderia muito bem se sensibilizar pela situação e alguns trocados não faziam falta).

O porteiro do Flamboyant fez uma cara de portão. Quem? “Camila, do 808”. O rapaz incerto por trás da janela semi-aberta da guarita do prédio sessentista feito para que os porteiros, a alguns metros da calçada, observassem pessoas e não carros, fez menção de procurar em anotações inexistentes uma pessoa inexistente. “Moça, não tem nenhuma Camila no 808… e me desculpe eu não estou lembrando da senhora não.” “Quero falar com o Jorge!”. Em vão. Jorge, celular, maquinou seu cérebro disparando um espasmo nas mãos agitadas em busca do celular na bolsa que não era sua. Somente para perceber que não estava com ela.

Sentou na sarjeta com um olhar perdido, num longo suspiro de cansaço genuíno, como nas noites em que, resignada, se colocava lavar copos e talheres da pequena casa de sua mãe, aquela casa com cheiro de éter e gaze e móveis flácidos e vencidos. Naquela casa sua mãe morrera mas a memória mais marcante era a azia do fim do dia plasmada num suspiro que parecia devolver ao mundo a estafa que havia inalado. Tinha resolvido esperar o dono do apartamento 808, decisão que não levaria a nada como saberia em algumas horas. Nesse tempo, olhava as caras indiferentes de vizinhos que entravam e saíam do prédio, olhava com uma esperança quase ridícula de ser reconhecida, mesmo tendo ignorado o aviso do porteiro de que a dona do 808 era uma senhora magra de cabelos ralos que chegava sempre às cinco.

Hoje parece apagada aquela conversa com a velha senhora de sotaque carregado, a surpresa, a negativa e o olhar de piedade restrita ao horário, “olha tenho que subir, mas você errou de prédio, acho melhor buscar ajuda”, “me desculpe, não não”. Quase certamente perguntou de Jorge, do carro. Quer dizer, a gente que precisa de chão tropeça em cotidianos que servem para reafirmar que vivemos, pois sem o habitual tudo é sonho e tropeçava já nas palavras. Mas não houve Jorge, o carro, o celular, não houve o habitual. Isso já faz um ano e meio.

Raios, diâmetros e mundos

Desde que foram morar juntos, fizeram aquele tipo de pacto que fazem os casais, “seremos simples, não daremos ouvido aos outros”, parte do ideal que ajuda como cola de marceneiro para partes recém-adquiridas. Ela estava realmente apaixonada, sentia a vida fluir com gosto. Agora, vivia o gole seco de um ano e meio sem líquido, numa sede inexorável e roxa. Resistia ao pensamento de que tinha desistido. E também à dúvida quase paralisante, estava louca? Como perdeu tudo que tinha vivido? Seguiu seu instinto e arrumou um jeito de viver para se reencontrar. Voltou ao hospital pela bolsa que não era sua, onde havia dinheiro e outras coisas. Arrumou um emprego, uma pensão, e até amigos de corredor. Coçava distraída a tatuagem elétrica indelével que o raio tinha desenhado em seu corpo – uma grande árvore púrpura que nascia no calcanhar esquerdo e sobrava pelo corpo como num eterno inverno e cujas folhas eram suas minúsculas pintas que pareciam sopradas ao vento. Mas nunca, nunca, procurou saber sobre a dona dos documentos pálidos que viu pela primeira vez no leito do hospital. Estivera uma vez no lugar onde sua vida caiu, logo após deixar o prédio em que acreditava morar. Pôs os pés nos buracos quase refeitos de grama e pensou, por um minuto, em rezar mas desejou mesmo que o gesto ativasse alguma mágica de restauração, algo que fizesse o universo refluir suas tramas. Mas o que teve foi a sensação agridoce as coisas se regeneram à revelia dos espectadores.

Tempos depois, mudou de emprego e nesse mesmo dia viu Jorge. Seu coração parou e um raio caiu de baixo para cima dentro de si – estacou, sentou numa mureta e o assistiu entrar num prédio comercial, com pressa. Tirou da bolsa o colar que estava usando no dia do incidentes, presente de Jorge, e apertou cada conta como a um rosário até o momento de tê-lo novamente sob seus olhos, saindo do prédio. Foi ao seu encontro.

“Júlia?! Mas…?” Inevitável: um grito, passos rápidos e um abraço longo. E sim, lágrimas e hesitação e suspensão. “Jorge…”. No calor de mil graus daquele abraço ambos deixaram passar aqueles nomes, que não eram deles. Ambos deixaram cair papéis e couros enquanto fincavam as solas pretas na calçada derretida. Nem Jorge, nem Júlia. Agora estava tudo bem, tudo bem antes das próximas palavras.

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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