Annalium Novi é uma experiência de narrativa em forma de ficção sobre o novo onde histórias trazem as perspectivas e as transformações que algo novo provoca.

 

Abriu os olhos pela primeira vez, pela segunda, na terceira preferiu fechá-los. Estava confuso, sabia que era, tinha consciência, mas não tinha certezas. Queria fazer perguntas, mas não sabia quais. Preferiu fechar os olhos, com a calma que vem a quem sabe que precisa de tempo. Aos poucos foi tomando conta dos formigamentos tímidos em suas partes e tentou sentir o que sua pele sentia. Desistiu. Mais alguns minutos, talvez mais algumas horas. Passou-se talvez algum tempo, talvez não. Pensou ter ouvido pessoas. Podia ser ainda algo na sua cabeça, como as agulhadas sonoras que tivera algum tempo antes. Criou coragem e descolou as pálpebras – sentia uma estranha resignação, sabia que eram pálpebras, sabia que eram seu olhos, mas tudo era sem lógica, sem antes e (agora o medo) talvez sem depois. Uma pergunta do tipo “quem sou eu” soaria tão ridícula quanto em histórias passadas de amnésia, aliás, amnésia agora parece tão amplo quanto os dias confusos que pressentia. Disso sabia: eram dias confusos. Pôs-se, então, a lembrar; dados, nomes, ruas, lugares. Mas vinham-lhe fragmentos ossudos e contundidos de corredores e pessoas sem rosto. Sentia-se inteiro, pensava claramente, mas os contornos eram fracos. Ruas eram planos escuros, multidões como insetos aglomerados. Em cada uma delas, enquanto franzia a testa para que a mente se concentrasse, uma visão genérica de pessoa, com corpo, membros, mas como frascos translúcidos e vazios que precisam de substância. Achou que seria ele também um translúcido, um vazio.

 

Esperava ver pessoas ou alguém que surgisse ao seu lado com afagos e explicações. Mas o que viu foi uma parede, um quadro vivo e plantas incubadas. Seus membros demoraram a lhe responder. Tentou levantar o braço, mas, mole, só conseguiu com esforço. Depois de alguns momentos, conseguiu se levantar e, ao colocar os pés no chão – as pontadas do sangue repentino na solas –, e viu que estava vestido normalmente, uma camisa preta, calças de techron e sapatos. Estava de sapatos, deitado na cama de sua casa. Sabia que era sua casa, que o ambiente lhe era familiar, mas, de alguma forma, aquilo era para ele estranho. Não havia antes, não se lembrava de quem era e como tinha chegado ali, e tão pouco o que viria a seguir. Era como se tivesse sido colocado em um veículo em movimento, sem saber como e para onde ia.

 

*

 

Uma mulher com roupas claras e sérias caminhava calmamente pelo largo corredor, olhando o pulso, que brilhava com letras e números. Ao chegar ao final, virou e, olhando a porta aberta, soltou um resmungo. Vasculhou o quarto por alguns instantes. Alguém havia liberado o paciente antes da hora. Chamou o supervisor e uma voz respondeu dentro de seu ouvido. “Paciente Gérson Kenai continua em observação”, disse o supervisor. “Não é possível”, pensou. “Câmera da sala 2, movimentação até 2 horas atrás”, pediu a mulher. “Duas ocorrências”, respondeu a máquina. “Me dá a última”. A mulher assistiu à imagem de um homem hesitante deixando a sala. Ele olha demoradamente para o corredor como se pensasse para onde deveria ir. Até que se decide e vai andando até desaparecer. “Hum, que coisa. Tá, me dá primeira ocorrência”. Cerca de uma hora e meia antes, ela observou, Renato, um dos donos da empresa entra na sala e sai alguns minutos depois. A mulher sabia que não haveria imagens dentro da sala, já que câmeras eram equipamentos cada vez menos necessários. Teria que falar com o Renato.

 

Ao sair pelo corredor, encontrou, no chão, um estranho pedaço de tecido, mais parecido com os papéis que eram muito comuns há uns 30 anos. Nele estava escrito em letras muito torcidas, no que ela pode ler antes da parte rasgada:

 

[ …sentia rarefeita

dou-me respirar

esse ar

de que era feita ]

 

Isso era muito estranho. Intrigada e, por algum motivo, ansiosa, a mulher deixou o setor em direção ao salão principal. No caminho, chamou o supervisor: “Conecte o paciente Gerson Kenai”, ao que teve como resposta, “Não é possível conectar o cliente. ID não encontrado”. Parou insitntivamente. “Hã”?! Agora, tinha ficado sério! Precisava encontrar Renato. Apesar de poder conectá-lo a qualquer momento, queria primeiro ter alguma ideia sobre como resolver o problema. Pôs-se em movimento novamente, enquanto disse, “Busque Gerson Kenai e associações, depois me conecte com alguém de registros”.

 

*

 

Ao chegar ao fim do corredor, Gerson, apesar de não saber que esse era o seu nome, se achou diante de outro quadro vivo. Esse era bem bonito: formas abstratas com milhares de cores mudavam de configuração, em verde, amarelo vivo e laranja, ora apareciam pequenas explosões azuis e ora tudo ficava mais escuro, como um coral vívido e pulsante. Fico teso por alguns segundos, virou-se e encarou um grade salão.

 

Naquele átrio com um suspiro de cores quentes, muito bem iluminado pelo sol, serpentinas vítrias desciam quase até tocar o chão. Nelas, uma multidão de círculos escuros de vários tamanhos flutuavam em pleno ar. Cada uma delas parecia ter vontade própria e viajava entre rápida e lentamente enquanto passava por outras. Tudo isso formava uma escultura que parecia mais um sonho e, dentro, um logotipo por nome Nanoz. Ao admirar tal visual, teve uma vontade imensa de se deitar novamente, fechar os olhos e esperar. Talvez ainda estivesse dormindo.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

*

 

“Quando criei essa empresa, foi para que pudéssemos evoluir como espécie, toda aquela conversa de transhumanismo que tinha naquela época, as revoltas e tudo”, disse um homem à uma mulher bonita que estava virada para ele, e o encarava. “As pesquisas, e tudo que a gente fez, tomaram uma proporção absurda (em todos os sentidos). Em algum momento eu vi que essa seria uma daquelas revoluções que a gente sempre fala que são impossíveis de acontecer. Mas acontecem. Aconteceu, oras”. A mulher fez um aceno com a cabeça, numa indicação de que ele poderia continuar. “Enfim, sei que pareço velha-guarda, falando como aqueles que se recusaram a ver as coisas como eu via, como aqueles que não quiseram as maravilhas do que veio depois. Sei que pareço quem me criticou antes. Mas também sei que o passo que demos não tem volta. Você está gravando isso?”. “Ainda bem”, disse, após um aceno negativo de sua companheira. A alguns metros, um jovem observava o ambiente, completamente hipnotizado.

 

“Tudo isso”, continuou, “nós criamos tudo isso para nós mesmos. Viver em outra realidade se tornou a única saída pra nós”. No outro lado da grande sala, Gerson começou a caminhar lentamente em direção a ele, que estava de costas. “Acho que pusemos todo mundo em ris..” Sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Virou-se e reconheceu a mesma mulher que há pouco deixar o quarto de Gerson. Ela era a chefe da ala de observação. Ouviu dela que o paciente Gerson havia sumido. Sorriu.

 

“Quebramos um protocolo, hein?”, disse ele voltado para a atônita moça de branco. “Como assim, ‘quebramos’? Estou sabendo agora! Não consigo encontrá-lo em lugar nenhum!” “Relaxa, ele está bem atrás de nós. Não olhe, deixe ele ter o tempo que precisa”, respondeu o homem. “Mas… isso é um puta problema, você quebrou o protocolo 6! Não sei como não fomos notificados, ainda!”, disse a moça, espantada. “Eu quebrei o protocolo, deixe que eu responda por isso. Agora, me faça um favor e conecte o administrador e depois me procure. Eu preciso que alguns arranjos sejam feitos”.

 

Gerson sentiu-se estranhamente atraído por um casal que conversava no espaço central e resolveu caminhar até lá. Não sentiu medo, apesar de saber que deveria sentir. Tinha a impressão de que as perguntas começariam a aflorar em pouco tempo. Parou a alguns passos e ficou observando o homem que estava de costas. Este se virou e sorriu. “Você está bem?”, perguntou. Não esperou resposta, virando-se para a moça ao seu lado, “Esse é José Ignácio, de quem eu te falei. Ele está desconectado”. A moça olhou-o por alguns instantes, com aparência de surpresa, e resolveu testar. “Conecte Gerson Kenai”, disse e prontamente recebeu aviso negativo. Aquele que estava a sua frente era, realmente um desconectado. Agora sabia que teria a história da sua carreira. Era só ter cuidado. Virou-se novamente para o lado quando o homem disse, “Esse é o meu filho”.

 

Gerson, ou José, como seja, ficou parado. Sua única reação foi se sentar lentamente e colocar as mãos na cabeça. Estava cansado e as plantas dos seus pé fisgavam pontadas, assim como os músculos do seu corpo. Quando a levantou novamente, seus olhos estavam cheios de lágrimas. Não sabia se aquele era seu pai, não se lembrava de seu nome, de sua vida. Não se lembrava de que tinha um pai. Daí por diante, ouviu, anuviado, tudo o que mais queria, a explicação. Mas não veio fácil. E não veio completa. De tudo que foi dito, calma e confortantemente pelo que dizia ser seu pai, o seguinte foi o que ficou.

 

José Inácio, 132 anos, foi iniciado no protocolo de atualização. Seu corpo foi substituído por trilhões de nanobactérias, pequenos seres híbridos e organo-robóticos, que fizeram a gravação e realocação da sua consciência no Areo, a dimensão coletiva de consciências e dados. Há muitos anos, todos que nascem são conectados e o anonimato não é permitido. Vive-se normalmente ao limite do corpo, com quantidades mistas de nanoz, e, quando chega a hora, a mente é salva e o corpo é atualizado e restituído. Então, a mente volta ao receptáculo. Por questões de segurança do intelecto, primeiramente é estabelecido o arcabouço da consciência e depois ela é inserida e entra em funcionamento. O indivíduo, então, conecta-se à rede. Sem o anonimato, qualquer crime contra a vida é detectado automaticamente e comprovado por dados reais, coletados do próprio indivíduo. Houve tempos difíceis, mas hoje tudo parecia melhor que antes. O homem a sua frente, um dos fundadores da primeira empresa usar essa tecnologia, queria fazer um teste e escolheu alguém que lhe era muito caro. Queria retribuir uma promessa, uma dívida de amor. “Amor”. Essa palavra entrou com toda dificuldade do mundo no ouvidos de José, retesando todos os músculos de uma só vez em um calafrio. Com José, aquele homem quebrou o protocolo na primeira fase, e a memória nunca foi colocada. Essa era a única forma de não haver conexão. Nunca mais.

 

A mulher de branco estendeu ao homem que explicava um pedaço de tecido. A ele, o homem juntou outro pedaço e entregou os dois a José. Eles diziam:

 

A José

 

Sublime o meu ser

quente sopro

Houvesse infinitas vidas
ou uma, nua,

quando me sentia sua

e me sentia rarefeita

dou-me respirar

esse ar

de que era feita

 

(que meu amor o tenha sempre, sua mulher, Julia)

 

 

 

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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