Por onde andam as ideias? Nos livros, nas obras de arte, nas pessoas, nos lugares? Muitas vezes vemos pessoas em busca de inspiração e novas ideias. Ironicamente, nenhum lugar é mais propício para encontrá-las do que dentro de si mesmo. O que chamamos repertório é um acervo combinatório de referências e padrões que memorizamos e aprendemos experimentando, em um processo muito pessoal. Nenhuma memória é efetivamente pura, já que para ser percebida passou pelo crivo da consciência – e, se não passou, passará quando voltar e for expressada ao mundo exterior.

 

NENHUMA MEMÓRIA É EFETIVAMENTE PURA, LIVRE DE IMPRESSÕES PESSOAIS. tweet

 

©© Rodrigo Franco

 

Portanto, como uma etapa do processo criativo, o ato de combinar é praticamente inerente a ele. Criar não é algo linear ou dificilmente pode ser explicado com uma teoria sistêmica, já que nutre-se de si mesmo constantemente e puxa elementos tanto do fim como do começo, e do meio, associando-os.

 

A forma mais clara da combinação é a mistura. Muitas vezes a mistura é visível, mostra traços do que foi misturado, mas outras muitas não: torna-se homogênea. Ainda assim é uma mistura. Exige identificar certos aspectos do que vai ser misturado para que o produto disso tenha determinado valor ou atinja objetivo. Podemos não descobrir de imediato o que nos levou a misturar essa ou aquela coisa, mas é certo que resultado de uma mistura leva a os agentes e o ambiente a um estado diferente do anterior.

 

 

A discussão sobre a remixagem (mistura) é popular na cultura de hoje. Sua influência surgiu com a apropriação explícita e declarada de trechos de músicas que começou na década de 1970, e que evoluiu com o uso de trechos e a adição de outros instrumentos em uma obra existente criando uma nova mistura de faixas. Como toda apropriação técnica, foi resultado do acesso mais fácil à tecnologia, no caso aos gravadores e aparelhos não lineares, que permitiram a repetição de trechos que formam, em si, outra música. Um fenômeno mais recente é a justaposição, ou mashup, que é a criação de uma música original somente a partir de outras músicas, por vezes usando excerto ou até faixas inteiras. A internet e o acesso aos programas de manipulação de áudio propiciaram esse novo tipo de experimentação.

 

Mas a coisa, em si, não é nova. Aliás, não se admite, mas a prática da  mistura acontece em todos os níveis onde a criatividade se aplica, desde sempre. Em padrões e vertentes culturais, ou tendências, para as técnicas, como assemblage, colagem, releitura, tributo etc. Escritores, políticos e comunicadores combinam narrativas entre si. Vemos moldes (templates) de comportamentos onde novidades são misturadas aos poucos.

 

COMBINAÇÕES SÃO A FORMA MAIS COMUM DE EXPERIMENTAÇÃO. tweet

 

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Mitologia

 

Da língua à religião, todas as práticas humanas misturam. Grandes mitologias são colagens de arquétipos. Esculturas e arquitetura de povos antigos carregam a influência das culturas que dominaram. Pode parecer que religiões não fazem concessões,  mas, nesse campo, os dogmas servem apenas como autoafirmação. Afinal, algumas religiões nascem da apropriação de elementos de outras, como o Candomblé e a Santeria – até mesmo as grandes religiões, diriam alguns –,  em um comportamento chamado de sincretismo religioso. Um remix.

 

Vejamos a esfinge, uma figura antiga com simbologia muito forte. Algumas vezes representada com a combinação de cabeça humana e corpo de leão, outras ainda acrescentam cauda de serpente e asas de águia. A esfinge é guardiã de entradas e frequentemente associada a um enigma (“Decifra-me ou devoro-te”). Essa combinação é a guardiã das respostas que buscamos quando misturamos (experimentamos) algo. Devemos arriscar entender as transformações que derivam disso ou deixar que a dúvida nos devore.

 

A MISTURA FAZ PARTE DA CULTURA DA INTERNET. ASSIM COMO A DÚVIDA. tweet

 

E se misturarmos as duas maiores dúvidas do ser humano, vida e morte? E se adicionarmos tecnologia? Surge um  mito mais moderno, na fabulosa história que todo mundo conhece: Frankenstein. Um homem costurado cruamente de outros homens. Esse sim um mito que diz muito sobre nossa angústia atual, essa sim a esfinge que está agora na nossa frente. Conforme a tecnologia avança, o que vale a pena, o que não vale?

 

©© navidnavab @ flickr

 

Florilegium

 

No fim da idade média, as coletâneas de excertos de grandes tratados  relacionadas principalmente à botânica eram chamados de Florilegium, que significa algo como apanhado de flores. Os florilégios podem ser definidos como antologias e seu sentido se estendeu para outros tipos de obra.

 

As antologias são coletâneas de um mesmo autor ou vários, a fim de atribuir um determinado sentido, tema ou didática. Mas essa mistura tem um valor de originalidade implícito tanto que até mesmo as leis de propriedade intelectual garantem seu valor autêntico.

 

NÃO SE CRIA MAIS DO QUE SE CRIAVA ANTES. MAS HÁ MUITO MAIS GENTE PENSANDO SOBRE CRIATIVIDADE. tweet

 

As possibilidades de combinação são infinitas hoje como foram sempre. Porém nunca tivemos tantas possibilidades na combinação de informação. Hoje essa prática já faz parte da cultura. Muito do que é consumido hoje, em informação, é uma remixagem ou mistura de outras obras ou de outras misturas.

 

Ferramentas como o MixBit, Vine e o Instagram mostram como a combinação é parte essencial da cultura da internet. Elas permitem a combinar momentos na medida em que acontecem. Um florilégio de instantes descartáveis que servem para agregar à experiência.

 

Florilegium

 

O instantâneo leva tempo

 

Experimentar é parte de um processo em que testamos possibilidades e não necessariamente de um processo criativo em que chegamos a um produto inteiramente acabado. Na maior parte das vezes, combinar é extrair conhecimento pelo caminho que percorremos na criatividade.

 

Gênios são constantemente lembrados por seu momento “eureka”. Na verdade, como muitos autores sustentam, esse é apenas o momento em que o processo criativo dá o salto que precisa depois de um período onde várias etapas foram contempladas.

 

QUE TIPO DE VIDA VOCÊ PROPORCIONA ÀS  SUAS IDEIAS? tweet

 

A criatividade, portanto, não depende apenas de repertório, mas de como anda a combinação e, poderíamos dizer, a diversidade em um sentido quase biológico. Não se pergunte onde estão as ideias e sim como vivem as suas ideias.

 

Processo criativo

Copiar   >   Associar   >   Transformar   >   Associar   >   Combinar   >   Associar…

 

Outros caminhos

 

PURO

Criar é muito simples

Copiar

Associar

Transformar

 

Florilegium – wikipedia

Pensamento em rede e criatividade combinatória – artigo

Similaridades – artigo

Everything is a Remix – série

Cultura do remix – wikipedia

Cultura do remix – artigo

Wax Audio – youtube

Mixbit

Vine

Instagram

 

 

 

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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