COMO A CULTURA DE REDE, O COMPARTILHAMENTO ABERTO DE INFORMAÇÃO E O ACESSO À TECNOLOGIA ESTÃO VIABILIZANDO A CULTURA DO EXECUTOR. tweet

 

O apreço pelo fazer andava meio de lado nos últimos anos. Nesse último século, marcado pela massificação a indústria, não precisamos mais fazer nada. Consumimos mais do que podemos acumular em produtos, aguardando ansiosamente o último lançamento e a última atualização. Mas o artesão sempre esteve ali, cultivado por pessoas que simplesmente não encontravam outra forma de extravasar sua criatividade.

 

Felizmente, a cultura do executor está de volta. Ressurge no começo de uma nova era de compartilhamento de conhecimento e de técnica – junto a questionamentos sobre o modo atual de vida baseado no consumo. O questionamento é crescente, já que o lixo produzido durante o século, sempre apartado de nossas vistas, agora aparece em grandes ameaças ambientais e sociais. O modo de vida confortável (para alguns), baseado na oferta e na conveniência, volta para nos assombrar, além do que já assombra há décadas a massa de miseráveis e excluídos. Esses sim, não tinham outra alternativa senão fazer – uma questão de sobrevivência. Muitos exemplos de soluções criativas vem de lugares onde reina a probreza e a falta de dignidade. Hoje, as corporações clamam por criatividade porque se afastaram dela, em escritórios confortáveis onde os executivos estão longe das consequências de suas decisões. A criatividade está, intrínseca, onde o problema está: onde não há abundância.

 

© © Rodrigo Franco

 

A DIGNIDADE ESTÁ EM ENCONTRAR A SOLUÇÃO PARA O SEU PROBLEMA. tweet

 

É um paradoxo. Há muita coisa sobrando e ressurge uma cultura de fazer coisas? A questão é que fazer não é, necessariamente, fazer mais. Nesse novo fazer, estamos experimentando soluções adaptadas ao problema. Essa lógica é contrária à lógica industrial: criar um problema e produzir uma solução em milhões de cópias padronizadas que só resolvem certas partes dele.

 

Fazer o quê? Não importa, apenas comece

 

Os brasileiros gostam de dizer que são um povo criativo, que supera diversidades. Assim como outros países com dificuldades como as nossas, isso é inquestionável. Entre os inventores do avião e do rádio, parece que podemos dizer que existem precedentes para essa crença. Porque no Brasil, existe gambiarra. No Brasil também existe a Gambiologia. Surgido em 2008, em Minas Gerais, e idealizado por três designers, Fred Paulino, Lucas Mafra e Paulo Henrique Pessoa “Ganso”, o movimento prega a experiência e a mistura de tecnologias. Definido nas palavras de Paulino, é a “ciência da gambiarra” usando fortemente a estética brasileira. As gambiarras são feitas principalmente com materiais analógicos, mas também são usadas placas como Arduino e computadores.

 

www.fracta.art.br

 

A importância de um movimento como esse é a sua característica de uma escola de experimetação. O coletivo tem incentivado exposições e reuniões para experimentar. Essas oficinas são frequentadas, na maior parte, por crianças. Isso não é nenhuma surpresa, já que crianças não têm medo de experimentar, ou seja, de aprender. Nessa experimentação, aparecem indícios da nossa identidade cultral, como o reaproveitamento de materiais, misturas inusitadas e o excesso de cores e elementos. Cada peça, torna-se uma expressão pessoal e cultural e, nesse sentido, muito mais rica que um objeto tradicional.

 

“AS ESCOLAS DE DESIGN TÊM RESISTÊNCIA AO CONCEITO DE PEÇA ÚNICA. PARECE QUE SE SENTEM AMEAÇADAS PELO CAOS”
Fred Paulino tweet

 

Capacete Gambiologia

 

Liberdade técnica e a era dos tutoriais

 

Pode parecer que a cultura do executor entra em conflito com o o ato de pensar. Fazer por fazer, criar sem compromisso. Mas a nova retomada dessa cultura tem mais a ver com o momento atual em que o conhecimento técnico – como fazer – é incrivelmente mais acessível que antes. Milhares de tutoriais, listas e receitas ensinam a fazer qualquer coisa, lícita ou não.

 

A diferença é em relação ao tempo, hoje mais acelerado por uma questão de quantidade de informação, e ao processo: com muito mais acesso a objetos e a tecnologia, fazer torna-se parte do processo de pensar. Prototipar e testar são etapas de tentativa e erro fundamentais para a realização tecnológica que está se desenhando.

 

LIBERDADE DE EXPRESSÃO + LIBERDADE TÉCNICA = EXPERIMENTAÇÃO tweet

 

O conhecimento se tornou especializado. Agora, podemos compartilhar cada lote dessa informação tratada (especial) e combinar para fazer novos experimentos. Isso já acontece com softwares há algum tempo e, de alguma forma, essa lógica está sendo transportada para o mundo físico. Nos softwares, existem componentes que são usados para criar outros componentes e sistemas inteiros, como o Node.js e o Meteor.js. Em hardware, peças como o Arduino e Raspberry Pi tornam física a prática dos módulos. Com essas placas, a pessoa tem um computador funcionando com sistema operacional e tudo, por um preço absurdamente barato. Cabe a ela decidir o que fazer com isso.

 

Não são poucas possibilidades, já que as placas podem trabalhar em conjunto – em rede – para potencializar sua capacidade. A evolução nesse campo é praticamente orgânica. Placas e softwares são combinados, alterados, adaptados e realocados para novos usos que antes não eram possíveis. A maioria das experiências visuais dos últimos anos tem por trás uma junção de módulos tecnológicos trabalhados por milhares de pessoas e incorporados em diferentes projetos.

 

A CULTURA LIVRE DA INTERNET ERA INGREDIENTE QUE FALTAVA tweet

 

As possibilidades aumentaram exponencialmente em alguns anos. Apesar de exigirem certo conhecimento técnico, o interessante é a possibilidade de qualquer pessoa se interesse experimentar e recombinar para um resultado individual. Essa é a diferença entre a produção tecnológica atual e a de uma década atrás. A cultural digital livre influencia agora um pensamento de apropriação livre, inclusive com uma alternativa às leis de propriedade intelectual, o Creative Commons. Essa possibilidade de se apropriar livremente é fundamental não só para experimentação, mas para a criatividade em geral.

 

Arduino

 

Um indício claro de mudança é que áreas rígidas, como a pesquisa científica, estão tomando as rédeas de sua capacidade de realizar e não apenas restringir sua atuação às quatro paredes dos laboratórios. Um belo exemplo pode ser visto no video abaixo, sobre o MirOculus, um kit para testes relacionados ao câncer.

 

 

 

Mais que artesanato

 

A expressão mais tradicional da cultura do executor é o artesanato. A classe dos artesãos é antiga e ofício confunde-se com a origem de muitas das áreas técnicas que conhecemos hoje. Mas a onda cultural do novo milênio envolve uma forma mais complexa de expressão. Não são apenas objetos, mas agora processadores, aparelhos, programas, aplicativos e simulações como manifestações culturais.

 

Artesãos reuniram durante milênios técnica e trabalho manual. Os novos artesãos, apesar de provavelmente não gostarem de ser chamados assim, gradualmente vão inserir a variável intelectual (informação) nesse caldo. A modus operandi também mudou. O talento individual perde o reinado e junta-se democraticamente à técnica da informação e ao coletivo.

 

O TALENTO INDIVIDUAL NÃO REINA MAIS SOZINHO. tweet

tweet

Ao moldar a informação, moldamos conhecimento e tecnologia. Lapidamos as novas realidades virtuais, agregamos e aumentamos, criamos novas simulações que beiram a ficção. Sem surpresa, já que toda ficção, até mesmo a científica, tem uma forte carga autoral. O resultado são experimentos que usam a informação como ponto principal, e são totalmente acessíveis. O fazer, de qualquer forma, parece está mais fácil, ou pelo menos mais acessível.

 

 

 


Notas

Imagem de capa – Serra Tico-Tico adaptada em Máquina de Costura Singer. © Mário Esteves

Imagem 1 – ©© Rodrigo Franco

Imagem 2 – Extraído de Fracta – Revista de Gambiologia

Imagem 3 – Capacete – Gambiologia

Imagem 4 – Placa de Arduino

 

Outros Caminhos


Gambiologia – site // palestra com Fred Paulino // revista Fracta

Porque você deveria falar menos e fazer mais – artigo

Fabrique você mesmo – artigo

Africano faz impressora 3D com lixo – reportagem

MirOculus – site

Make – site

MakerShed – site

Node.js – site

Meteor.js – site

Raspberry Pi – wikipedia // software para RP

Arduino – site

10 outras placas para ficar de olho – artigo

Atari Punk Console – wikipedia

Creative Commons BR – site

 

 

 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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