Quem presta atenção na maneira como mudamos nossa relação com o tempo nas últimas décadas deve ter percebido outro fenômeno. Com a aceleração exponencial com que estamos mergulhando no oceano tecnológico, nossa tolerância e paciência com coisas (antes) banais está diminuindo. Não temos mais tempo para detalhes ou pequenas preocupações que possam atrasar nosso fluxo.

 

Enquanto escrevo em um editor de texto, as palavras vão somando-se rapidamente sem hesitação. As correções ou preocupações com pequenos erros de digitação praticamente não fazem mais parte da rotina e escrever. O mesmo arquivo, agora, é salvo automaticamente a cada caractere inserido e não mais ao clicar num botão. Passos e etapas vão sendo eliminados. Ao chamar alguém ao telefone, por exemplo, não significa que se sabe o número da pessoa. Apenas clica-se no nome dela.

 

 COM O EDITOR DE TEXTO, A PRÁTICA DE ESCREVER AGORA É NÃO-LINEAR tweet

 

Essa lógica vai, aos poucos, ficando mais complexa. Um exemplo é o editor de texto, que modificou a forma como pensamos o texto e, também na forma como contamos histórias; antes, refletíamos-nos nas histórias, agora passamos a refletir as consequências dessas histórias dentro delas mesmas. Em vez de pensar toda sua estrutura previamente, agora é possível lançar parágrafos e reeditá-los, inverter sua ordem. É possível inserir informações de apoio, como links ou observações que podem ser facilmente retiradas ou complementadas. O editor de texto transformou o ato de escrever um ato não-linear na prática (traduzindo, talvez, o modo de raciocinar do cérebro com associações e digressões constantes).

 

©© National Pinball Museum @ flickr

 

Sair em direção a um endereço hoje, não requer mais o ritual e preparação de antigamente: checar o endereço, verificar pontos de referência, tempo e o meio e transporte. É muito mais provável que qualquer um saia de casa e somente insira as coordenadas após fechar a porta de saída. Assim, vamos lançando e recuperando dados sobre nosso destino e ajustando a rota, como morcegos guiados por dados. À beira da estrada, acenamos para o enorme fluxo de dados que se aproxima. Queremos uma carona.

 

Todos no mesmo fluxo

 

A lógica do desfazer, ou melhor, do refazer – o CRTL+Z –, que emergiu com as simulações dos video-games e com os computadores, transformou o modo como fazemos as coisas. Ela trouxe a possibilidade do remix à geração de ideias praticamente em tempo real. Isso impulsionou a criatividade de uma maneira tremenda, afinal o processo criativo bebe incondicionalmente da repetição e da cópia. Após uma geração inteira crescer com as simulações desde os anos 80, nos tornamos acostumados com a ideia. Nas telas, os homenzinhos pulavam plataformas e abismos e as naves desviavam de asteróides. Após o game over, basta reiniciar. A punição não é “fatal”, é apenas ter que continuar de onde parou.

 

A LÓGICA DO CRTL+Z TRANSFORMOU O JEITO COMO FAZEMOS AS COISAS tweet

 

Na mesma época, uma novidade sutil, mas muito significativa, passou a fazer parte dos dispositivos de mídia que existiam. O pause, ao lado do play, que depois evoluiu para o play/pause. A partir daí, com as mídias digitais, não havia mais parar o fluxo (sair dele), mas apenas pausá-lo – exatamente a diferença entre um processo mecânico e um eletrônico. Quando surgiu o iPod e outros tocadores digitais, o ouvinte teve, pela primeira vez, sensação de navegar por sua audioteca como se toda ela fosse uma só música. Parece que estamos hackeando o paradoxo da escolha com um pequeno truque. Resta saber no que vai dar.

 

Muitas vidas, nenhuma reencarnação – a vida como mídia

 

No jogos de criança anteriores ao séc. XXI, a graça era justamente não poder voltar atrás, como no jogo e labirinto ou de tabuleiro. Em muitos jogos atuais, você está a salvo pois pode memorizar sua progressão. A recompensa é evoluir no jogo. Ou, mais recentemente, a recompensa é viver o jogo, no caso dos grandes jogos de simulação da realidade. Mas a diversidade veio para ficar. Um bom exemplo é o jogo Flappy Bird, sucesso meteórico em 2014, que levou tanto isso ao extremo que inverteu o processo: o jogo se torna tão difícil que fato de voltar é banal. É intrínseco ao jogo. Isso faz com que ele resgate a questão da dificuldade em uma outra perspectiva.

 

NON STOP: PAUSAMOS NOSSO PONTO DE VISTA, MAS NUNCA O FLUXO DE DADOS. VOCÊ É A MÍDIA. tweet

 

Como podemos perceber, a evolução tecnológica e, portanto, a evolução dos dados é exponencial. Seu crescimento não é somente para melhores tecnologias, mas também para mais tipos de tecnologias, diferentes propósitos. Ironicamente, veremos cada vez mais propostas diferentes para a mesma coisa.

 

©© Amit Agarwal @ labnol.org
O que faria se pudesse voltar atrás e mudar o jogo? (Reprodução de imagem feita em planilha de Excel)

 

Conforme entramos nessa imensa simulação as limitações deixam de ser aquelas pequenas barreiras físicas, como o teclado e a tela, e passam a um novo patamar. As dificuldades agora são em relação aos muitos tipos de simulação, cada um com regras diferentes. Essas várias simulações – games, celulares, computadores, objetos – terão que se comunicar entre si e nós seremos a principal mídia. Ou, melhor dizendo, nós seremos a mídia que importa. Esse será, por enquanto, um fenômeno com que não teremos como retroceder. Até sermos, finalmente, homenzinhos pulando entre esses mesmos objetos e redes em um complexo jogo que está por vir.

 

Imagem 1: ©© National Pinball Museum @ flickr

Imagem 2 : ©© Amit Agarwal @ labnol.org

 

Outros caminhos

PURO

Criar é muito simples

Paradoxo da escolha – video

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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