Um dos aspectos mais interessantes que têm surgido atualmente é a nova abordagem em relação ao erro. Artigos e falas calorosas associam a inovação ao erro contínuo e suas implicações. Inovar, segundo essas dissertações, é aprender a errar. Muito cuidado. Ao contrário do que virou praxe se dizer por aí, não se deve buscar o erro. Com a justificativa de que o erro ensina, tornaram-se comuns conselhos como “erre muito“, ou “cultive o erro.” Só por que aprendemos algo com um erro – e de fato aprendemos – não quer dizer que devemos nos dedicar a ele. Dessa forma, estaríamos sendo apenas relapsos. O erro é uma falha no processo que gasta, desgasta e quebra. Ele não precisa ser procurado, porque vai acontecer em algum momento e, apesar de ser uma fonte valiosa de aprendizados, o custo ultrapassa os benefícios em muitos casos. E não dá pra saber quando o erro vai custar mais que o aprendizado que ele produz. Não devemos cultuar o erro, devemos nos preparar para aceitá-lo, o que é bem diferente. Em vez do erro, busque a experiência. Aí, sim, estaremos testando hipóteses e experimentando com variáveis. Teremos uma dimensão mais clara de onde podemos errar e colocando os erros e acertos como base sólida para avançar. Isso se chama gerenciar os riscos. Esse é verdadeiro o sentido da frase “não tenha medo de errar”.

 

O ERRO NÃO PRECISA SER PROCURADO, PORQUE VAI ACONTECER CEDO OU TARDE tweet

 

Aceitar o erro, então, significa abraçar uma cultura de experiência. Mas a cultura profissional e acadêmica atual baseia-se única e exclusivamente em acertos. Provas, exames e avaliações são gargalos e o maior sintoma disso, já que não deixam espaço para o erro – ou para a experiência. Sendo assim, ao contrário do que pensamos, noções como competência, conhecimento e aptidão são mensuradas pelo número de acertos dentro de uma parâmetro pré-estabelecido e não por sua cumulação ou qualidade. E o pior de tudo, esse parâmetro pode muito bem ser equivocado.

 

A CULTURA PROFISSIONAL BASEIA-SE NO LADO ERRADO DA CIÊNCIA tweet

 

Essa visão, em parte, pretende se basear nos hábitos do método científico, a mais bem sucedida máquina de conhecimento humano. Um método que prima por provas empíricas e em fatos comprovados e verificados. Mas essa cultura profissional apoia-se no lado errado da ciência. O valor do método científico não está nas mais convincentes provas e nos fatos em si, mas no conceito de que as experimentações bem verificadas servem como base sólida e comprovada para que outras possam ser feitas. O valor está no processo. Claro que cada descoberta é importante em si, mas é muito mais que isso. A evidência, nesse contexto, serve como tijolo de construção para uma evolução continuada e não meramente como mensuração de o quanto se acertou. Assim, ela auxilia o processo e não serve como um juízo de valor se há algo certo ou errado (ou pelo menos não deveria).

 

 

Aceitar o erro deveria ser humano

 

Errar é mais que humano, é natural. A natureza também erra, e seus erros consertam-se sob as suas próprias regras. Leva tempo. Ela não precisa aceitar o erro, porque este é inerente ao seu processo. Isso é muito diferente de uma organização anunciar, determinado dia, que agora aceita erros. Um pensamento como esse simplesmente não pode ser imposto por uma vontade hierárquica, já que não faz parte de sistema calcado na compartimentalização e na onipresença do que os chefes adoram repetir: produtividade. A cultura de produtividade e eficiência levou a uma tabuada de competências e habilidades tanto nas empresas como, mais grave, nas escolas, onde a educação é serial (em séries) e parametrizada.

 

A CULTURA DE PRODUTIVIDADE LEVOU A UMA TABUADA DE COMPETÊNCIAS E HABILIDADES tweet

 

Não há como uma pessoa que cresceu e teve educação dessa forma se acostumar com o fato de que pode experimentar. Afinal, a experiência consome recursos e tempo, justamente os dois principais elementos de qualquer planilha de projetos que prima pela eficiência. A questão é: a maior eficiência de uma tarefa não estaria subjugando a eficiência do processo como um todo? Essa neurose por eficiência é justamente a maior contradição do discurso atual de “erre mais” ou “erre rápido”. O paradigma de gestão em que estamos, de produtividade – tempo vs. recursos vs. competência – não abarca a noção de erro:

 

  1. O tempo é sempre o menor tempo possível
  2. Os recursos são sempre os menores possíveis
  3. As competências são medidas por provas que visam a média

 

A experiência, por outro lado nos leva à uma abordagem mais flexível:

 

  1. O tempo é aquele em que a experiência acontece
  2. Os recursos são os necessários
  3. As competências são aplicadas

 

E podemos adicionar um quarto elemento: o conhecimento, que serve para levar a outro conhecimento. A produtividade supõe, sim, uma evolução. Mas funciona quase sempre amarrada na repetição de fórmulas “que já deram certo”. Por exemplo, não dá pra ser inocente e achar que dá pra experimentar com tudo. O que se espera de um médico em uma emergência é que tenha uma linha de trabalho bem definida na eficácia e eficiência de sua atuação para que o resultado seja o melhor possível. Ou seja, que ele use as ferramentas que já funcionaram antes. Por outro lado, a medicina como ciência só avança com experimentação; o que nos leva a uma conclusão simples: as duas formas estão corretas, talvez o que esteja confusa é a aplicação. Existe um gradiente onde, de um lado, a produtividade é desejável; do outro, processos baseados na experiência.

 

A PRODUTIVIDADE É UMA VISÃO DE CURTO PRAZO, A EXPERIÊNCIA É UMA VISÃO DE LONGO PRAZO tweet

 

Poderia existir um esforço para diferenciar entre trabalhos focados em produtividade e em descoberta. Nesse sentido, uma linha de ação ficaria mais clara: em que momentos a experimentação é melhor e em que outros deveria entrar em ação a produtividade? Mas essa diferenciação oferece riscos, porque a repetição faz parte do próprio processo criativo. Outro problema é que a repetição é mais previsível, portanto mais barata – por isso é tão popular nas empresas. Então, porque vemos agora um ovação ao erro? O que as pessoas querem, na verdade, é a liberdade de experimentar. Quanto ao erro em si, bem, muitas vezes ele só é usado como sentença. Quem erra, muda o caminho – ou é trocado pelo chefe – e o aprendizado não se desenvolve.

 

 

Quem sabe a solução esteja no lado do aprendizado: nos momentos e nos espaços dedicados a aprender, a produtividade deveria ter muito menos importância que a experimentação. Não dá pra exigir que as pessoas “abracem o erro” num esquema totalmente voltado à mesquinhez operacional. A produtividade é uma visão de curto prazo, a experiência é uma visão de longo prazo. Por isso, a exigência de “erro e aprendizado”, numa gestão otimizada e curta, como são a maioria das gestões (principalmente no Brasil) é uma falácia. Isso entra em um conflito claro com a noção geral de que, “no Brasil se deixa tudo pra última hora”. Aqui, para começar a aceitar o erro, devemos primeiro começar a aceitar que existiremos no longo prazo. Assim, cada experiência pode ser levada com a tranquilidade de quem não tem medo de errar.

 

Outros caminhos

Restauradora de “Ecce homo” receberá por lucros de imagem – notícia

A Teoria do Erro – artigo

Por que deveríamos parar de cultuar o erro – artigo

Designer estratégico, consultor, professor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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