VIVEMOS NO MUNDO DO MEIO tweet

 

Vemos todos os dias listas e conselhos incríveis para sair da média, destacar-se profissionalmente ou criar coisas que sejam fantásticas. O medo quase instintivo de se tornar uma pessoa mediana é um sintoma de uma sociedade acelerada. Ou talvez seja um instinto de preservação do ego, justamente o alvo dos muitos apelos sociais que exaltam a individualidade. Outras pessoas reclamam de como a monotonia reina, de como todo mundo pensa igual e não há originalidade. Não se preocupe com isso: a mediocridade é a regra. A média existe, é universal e não vai a lugar nenhum. Não importa o quão incrível você seja ou queira ser. O motivo pelo qual se busca os “pontos fora da curva” não é por eles mesmos – mas sim para que se desenhe uma nova média.

 

TUDO QUE É ACEITÁVEL É, INVARIAVELMENTE, UMA MÉDIA tweet

 

©© Alexey_Kljatov @ Flickr
A perfeição dos cristais de gelo fotografados em superampliação.

 

Limites

 

Para mais ou para menos, a própria realidade é fisicamente delimitada. O olho humano tem uma resolução angular (é um globo) de aproximadamente 1 minuto, ou 1/60 grau. Em média, a uma distância de aproximadamente 400 mm, o menor objeto visível seria de 0.116 mm. Não enxergamos Saturno ou uma bactéria porque estão fora da resolução ocular. O espectro de cor também está limitado: entre o infravermelho (ondas de 400 THz) e ultravioleta (790 THz). O mesmo acontece com a audição, entre 20 Hz de um infra-som e as ondas dos 20 mil Hz, ultra-som. O olfato, excitado com a quantidade certa de moléculas que chegam às papilas olfativas, moléculas que se diluem na distância e no ambiente. O nosso tato só abrange quatro dimensões sensoriais – textura, espacial, temperatura e dor. Juntamente com o paladar são sentidos que usamos mais ou menos dependendo da quantidade de estímulo que chegam aos sensores – seu limite é o tamanho da pele e da língua ou acuidade do labirinto, somados à propriedade do objeto estimulador.

 

Além do aspecto físico, o comportamento em sociedade é uma média oscilante de dos comportamentos de todos nós. O que se espera de quem vive em sociedade, portanto, é uma média. Que pode variar, mas não muito. Quando se diz que alguma coisa é aceitável, ela é, invariavelmente, uma média. As chamadas competências, procuradas por qualquer empresa em um profissional, são médias do que o mercado de trabalho considera necessário. O profissional não tem que ter mais competências, e sim encaixar-se na média das competências. Até mesmo as ciências, que deveriam ser o que de mais ousado existe para a evolução humana atual, até mesmo elas são limitadas por uma média. Alguns chamam isso de Academia. Quem está fora do método científico, está fora da média, não é aceitável. Muitos dos grandes cientistas da história penaram para que suas ideias fossem aceitas. Algumas ideias só vieram a ser apenas consideradas séculos depois da morte de seus autores.

 

GRANDES IDEIAS EM VOGA HOJE NÃO PASSAM DE NOVIDADES COM EMBALAGEM PREMIUM tweet

 

Aliás, o que se usa na maioria dos estudos científicos novos são médias ou amostragens de outros estudos anteriores ou da medição empírica – esta última feita em cima de convenções, que são médias aceitas em tratados internacionais (“Hz”, por exemplo). Considere o que se aprende de conceitos como o “que é um computador” ou  “o que é o homem de Neanderthal”, por exemplo. O que vemos de cada uma dessas propostas é uma média de um homem ou de um computador, para efeitos de assimilação. É impossível conhecer um verdadeiro Neanderthal e é impossível conhecer todos os tipos de computador. Nosso cérebro aprende por padrões. Padrão: discernível regularidade, média.

 

©© Rodrigo Franco @ PURO

 

NO CAMINHO DA EVOLUÇÃO, APENAS O QUE É NECESSÁRIO:  O MENOS NÃO É SUFICIENTE E O MAIS É DESCARTADO tweet

 

Em suma, vivemos no mundo do meio. Entre microscópico e macroscópico. Entre passado e futuro. Entre a vida e a morte etc. Quanto mais quebramos átomos, achamos quarks. Quanto mais buscamos saturnos, encontramos plutões. No caminho da evolução, nem muito mais, nem muito menos, apenas o necessário para adaptar-se. Com todos esses limites, é natural pensar que não podemos perceber toda a realidade, que há muito mais do que enxergamos. Entre o que é real ou ilusão, estamos presos ao que percebemos, como já filosofaram muitos, entre eles Kant.

 

 

Alguns pensadores levam em conta observador como parte da equação, deixando tudo com uma complexidade abstrata: a realidade depende de quem observa. Tudo muda, tudo é relativo. Mas, no cotidiano, acaba valendo a mesma prática hoje que há milênios, a mesma física, não importa a teoria. Estamos no meio. A coisa começa a ficar estranha quando nos desafiamos a ir além, ou aquém.

 

Novidades não são inovações

 

Ao expandir a percepção e buscar o novo, abre-se caminho para que outros sigam por ele. E, dessa forma, a média engessa gradativamente o que era original. É de se esperar que novas tecnologias ou técnicas tenham o mesmo comportamento. Existe uma armadilha para quem trabalha criatividade: tomar novidades por inovações. Novidades são exatamente as ideias presas à média, talvez oscilando em maior altura, mas longe do limite. São ótimas, mas passam longe da verdadeira inovação. A grande maioria das boas ideias da atualidade não são mais que novidades – e não tem nada de errado com isso.

 

O que, para uns, é uma prisão sufocante entre paredes e grades de rotina e mesmice, para outros se torna uma grande oportunidade de realização e significação. Aceitar que nossas decisões serão pautadas pela média faz a média expandir-se. Não se pode cobrar inovações quando só são possíveis com um nível de atitude e autonomia que não cabem em seu meio. Pequenas novidades abrem o caminho para um salto que acontecerá mais cedo ou mais tarde.

 

Nebulosa do Carangueijo

 

Conhecer o seu meio

 

O QUE SE ESPERA DE QUEM VIVE EM SOCIEDADE É UMA MÉDIA tweet

 

Muitas das pessoas que vemos destarcar-se em relação a outras simplesmente conhecem o seu meio e sabem usá-lo a seu favor. Não são pontos fora da curva. A questão é que a média oscila, e também a tal da curva. Essas pessoas são pontos que beiram o limite da curva. Se estivessem fora da curva, não seriam aceitos. Aquele gênio inventor ou político habilidosíssimo? Sim, estão na média, como você.

 

Aprende a velejar pela média quem busca conhecer não apenas os seus limites, mas os limites do seu meio. Não há outro modo como fazer isso que observar, no sentido de perceber. Para fugir da prisão tediosa do mesocosmo, busque compreendê-lo nos seus detalhes ou na sua vastidão. Busque não necessariamente sair da média, mas encontrar os limites da onda, onde começa o mistério. Para fazer alguma coisa com suas ideias, use o normal como balizador e desafie-o. O que há além disso não seria aceito; o que há além disso, deixe para a religião, o ateísmo e a arte.

 

Saber enxergar brevemente os mistérios e trazê-los para o meio, esse é o sentido da criatividade segundo o que se propõe aqui. Não é sobre ser mediano, porque todos são, mas sobre abraçar e entender a “média” e dela extrair novos pensamentos. Não é pensar fora da caixa, mas expandir a caixa, concetá-la, associá-la, misturá-la com outras, porque com caixas maiores e mais sólidas se constrói mais.

 
 

Com dados de Wikipedia.

 Imagem 1:

Alexey Kljatov @ Flickr


 

Outros caminhos

Fotos macro dos cristais de gelo – Flickr

Espectro Visível – wikipedia

Espectro Sonoro – wikipedia

Tato – wikipedia

Apenas começamos a explorar o mistério – artigo

Microcosmo e Macrocosmo – Pinterest

Curtis Carlson conta seu processo de inovação que busca equilíbrio – artigo

A doença da “normalidade” na universidade – artigo


 
 
 

Designer estratégico, consultor, "especialista-generalista" em criatividade, empreendedor, facilitador, ilustrador e curioso. Fundador da CARBONO, uma plataforma colaborativa que une pessoas e empresas em um processo criativo de iniciativas e valores compartilhados e da Alquimia, uma curadoria de ferramentas e técnicas para empreendedorismo criativo. Saiba mais sobre mim AQUI

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