Sonho: catedral da Luz

Manhã ou final de tarde, a luz já não grassa. Viajo em um trem não tão familiar, limpo e moderno. Aparentemente, vou rumo ao trabalho ou volto dele. Aos lados, pessoas-rotinas sedadas pelo balanço, olham paredes e janelas. Algo estranho: o trem não funciona direito, troca de via, passa plataformas escuras com gente resignada que acompanha a composição – enquanto ela vai-se embora sem diminuir. Em uma das portas, percebo cinco homens uniformizados que montam-se no esforço de abri-la e fechá-la quando necessário. O trem permeia por elevados e túneis mas não vai chegar ao destino, estação Luz. Desço na estação anterior, disposto a seguir à pé. O lugar é grande e aberto, um misto de estação antiga de trem com espaços ocupados por mobília moderna. O chão está molhado, vejo trilhos em nível cortando poças espelhadas e pessoas carregando malas de todos os tamanhos. Um amigo me reconhece e acena, oferecendo uma carona, seguimos em três pessoas numa caminhonete preta, acompanhamos a linha dos trilhos, passando por terrenos vazios e paisagens urbanas das quais só vemos as costas Rapidamente chegamos a um pátio mais estreito à parte da plataforma: estação da Luz. Não vejo trens ou pessoas, apenas casas baixas de tijolos antigos em uma rua estreita de terra, árvores, uma porta de madeira, tudo muito acolhedor. Meu conhecido se despede e segue por entre os muros rústicos na pequena estrada. O lugar me instiga. Decido acompanhar uma ruela e conhecer esse lugarejo curioso. Próximo de onde estava, mais árvores, abre-se um pequeno vale e uma grande catedral recortada, sua nave de paredes amarelas forma com o lusco-fusco uma luz melancólica e silenciosa. Paro no topo de uma escada lateral que desce até o passeio de pedras vermelhas, perfeito, em que pessoas vêm e vão em grande movimentação. Sentadas nos degraus, duas mulheres discutem e traduzem frases para outra língua. Vejo jovens e velhos, executivas e marinheiros conversando alternadamente com seus pares. Animado, pergunto a outra mulher o nome daquela igreja e ela pronuncia um nome completamente estranho a mim, de som gutural e ao mesmo tempo melódico, logo depois me aconselha a visitar a igreja, que é muito bonita. Penso em entrar pela grande porta arqueada que está no fim da nave, do lado esquerdo, mas antes pego uma câmera para tirar uma foto, aproveitando o pôr-do-sol, num quadro de tons de roxo, azul, vermelho, laranja, amarelo e ocre. Mas nenhum ângulo parece bom o suficiente comparado à cena real. Nenhum.