Um fio branco

Um fio branco

Olhava-me no espelho essa manhã. Determinadamente, espremido entre os dias, entre os cafés-da-manhã-almoço-jantar, esgueirando-se por contas de luz e notas fiscais, quietinho nas horas de sono, coçando nas demais, estava um pelinho branco. Não na sobrancelha direita, que se levantou imediatamente num reflexo, nem no bigode meio ralo que se comprimiu num bico pra levantar a boca. Estava no queixo, audacioso, leve por cima dos seus pares. Era branco mesmo por trás o embaço do vidro, de uma alvura fantasmagórica, reconhecidamente um exemplar muito vivo da sua espécie e que não correia risco de extinção, muito pelo contrário.

A primeira sensação é "hum!", algo aconteceu. Sim, algo entre as mais incríveis das constatações de uma vida, mas calma. Chego lá; a paciência não é feita de esperar, mas de contemplar. Poucas coisas no nosso caminho têm a força que tem esse cabelinho, menos por ser espesso e agulhado, mais por ser pequeno e implacável: na sua ponta branca, o mundo, na sua base – branca –, eu. Penso em várias explicações para o fato de esse serzinho estar agora no meu queixo, mas a que eu mais gosto é a que traz a mania de coçar o queixo e ele aparecer lá, na minha raia olímpica particular de preocupações do dia, como uma placa que diz "não coce demais a grama".

É muito mais que isso. Entre todos os significados de um cabelo branco, entre todas os ditados populares e teses científicas, regras e desobediências, posso dizer uma coisa. O tempo é branco. Não nasce colorido e perde a cor, ele nasce branco com a casca e aparência das coisas, as máscaras e as experiências, os truques que vivemos e desperdiçarmos e vai, aos poucos, revelando sua identidade que há por baixo do verniz. Sempre tinha sido branco. Uma vez assim, ah! Uma vez assim e está descoberto! Agora é livre para desfrutar tempos sedosos, lisos ou cacheados, curtos ou longos. A vida começa aos quarenta para alguns, não para mim. A vida começou faz tempo, mas como ela se revela para uns e para outros de maneira mais prática ou singela, porque uns puxam os fios, não importa quais, outros fazem cafuné. Para uns, seus pobres cabelos são pavios, reflexos lembrando-lhes de que não se gostam. Para outros são só cafuné.

Não compro muito o que se diz por aí que a minha recém-nascida barba branca é sinal de que o tempo está passando e que a velhice está na porta. O tempo não passa para umas e outras coisas, ele somente passa. O tempo passa para barbas, cabelos, bigodes e pentes. O tempo passou para meus pelinhos loiros, que se tornarem escurecidos, mas eles não escureceram por causa o tempo. Pensar assim, faz com que as pessoas escureçam também, depois envelheçam pensando no que o tempo fez a elas, quando essa implacável força da natureza não tem nada a ver com isso. Minha barba quem faz sou eu. Não há ser jovem para sempre. Lêem essas histórias para nós quando nem jovens somos. Ser jovem é uma etapa que acaba no começo de outra etapa, mas podemos ganhar sabedoria e serenidade desde cedo como também podemos cultivar audácia e curiosidade até tarde. Viver é morrer lentamente tanto quanto é existir rapidamente. Não é necessária aceitação, pelo menos não mais que a aceitação de uma chuva ou sol. No contexto geral do meu queixo, existe agora um fio branco.

E lá está ele, orgulhoso. No espelho, não dá pra evitar contá-lo, ainda. Talvez pare de prestar atenção quando forem quatro, ou sete. Agora serve de lembrete de muitas coisas por quais já passei, serve como alerta quando automaticamente passo os dedos preocupados pelo queixo, quando espeta mais meia dedos que os outros fios. Serve para pequenas mãozinhas de menina que brincam e puxam para matar a curiosidade. E para tentar um ar mais sério. Aliás, no meu caso essa é a única coisa para que ele não serve.