Sonho: A menina

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A menina que morava embaixo da pia estava inquieta, sua presença sobrenatural anunciava-se pela cozinha. O chão escuro e a mobília colonial, antiga, o granito preto e a pouca luz completavam uma aura sombria que envolvia o cômodo, onde havia de se passar a história. A casa era muito bem habitada, sim, lugar de grandes almoços e festas. Agachada, pessoa desavisada não veria mais no móvel que poucas peças de alumínio velhas, mas estava lá a menina em seu cômodo de bastidor, enorme, com fundos de parede e chão de terra. Sua moradia era um porão metafísico totalmente rústico. Ao passar a mão pelas panelas, a procura de um arrepio, não tive encontro com a menina, que tinha desejos de morte, eu sabia; não lembro se chegou a haver alguma. Após algum alvoroço resolve meu pai um confronto, pois que abre decidido o armário, põe os braços para dentro e se vê sozinho ao meio do enorme porão, a pequena menina morena o encarando ao longe, com sua intenção estampada num sorriso irônico. Meu pai então se virou num grande leão que abocanhou o espírito e com ele na presa rasgou numa corrida estrondosa dali.