Design da Paranóia

Design da Paranóia

DEPENDEMOS DOS OBJETOS QUE INVENTAMOS PARA DEPENDER DE NÓS

Paranóia do autoconsumo

A paranóia surge como uma parasita de muitas bocas. Mas duas são bem visíveis e são, também, dois terminais da rede coletiva de informação. S primeiro é a necessidade de consumo de informação e o segundo, a exploração de informação – cuja existência depende do primeiro. E o intermediário e facilitador em meio de tudo isso, o grande articulador dessa ansiedade coletiva: o algoritmo.

Vivemos uma ansiedade, não à toa. O paradigma do individualismo materialista tem dado sinais de cansaço. Aos poucos, a recompensa por consumir bens nos parece cada vez mais sem o propósito costumeiro, nosso bem estar com posses e o alívio de ter vêm sendo substituídas por outra coisa. A expressão da individualidade vendida durante décadas por meio de objetos de desejo sofre uma esquizofrenia com um milhão de vozes que pedem ao mesmo tempo outras coisas. O que são, ainda não está claro.

Parece, também, que o próprio individualismo, pelo menos esse com o qual ficamos acostumados nas últimas gerações, em que temos uma personalidade constituída e facilmente distinta no nosso meio, esse também está sofrendo agulhadas da nova era da informação. Afinal, nosso meio aumentou e gradativamente descobrimos milhares de pessoas “iguais” a nós, fato que aceitamos com dificuldade.

É nesse cenário que a informação sobre alguém ou algo começa a ganhar um valor comparável ao de um bem físico. Os bens físicos sendo substituídos por lotes encapsulados de cultura, tornando-se bens culturais. A posse da personalidade única, que diferencia você de outra pessoa é uma constante luta para agregar bens culturais em busca de diferenciação. Entramos nesse ciclo perdido em petabytes de dados, consumindo a nós mesmos em forma de pedaços de autoafirmação em que nossos amigos dão um “like”.

Produtos como o Snapchat, em que imagens enviadas são perecíveis são o primeiro indício de que estamos percebendo o valor da informação. Ao darmos um fim à informação, damos a ela vida e propósito. Até onde podemos confiar em que elas realmente foram destruídas?

Uma intervenção do artista Plastic Jesus chamada Useless Box levanta questões sobre esse novo sentimento. Caixa de plástico semelhantes a produtos eletrônicos foram colocadas nas prateleiras camuflando-se com etiquetas e comunicação idêntica a da loja. Nos dizeres: "Outro gadget de que você não precisa. Não vai funcionar quando você chegar em casa. (...)". O design é crucial, porque engana quanto a utilidade real do produto, parece que realmente serve pra alguma coisa, já que é muito parecido com os aparelhos atuais: limpo, sem indicações ou deixas visíveis.

Antes, nossas relações eram cadenciadas por restrições como localidade e ocasião. Hoje, o imprinting social começa a exigir uma sincronia. Essa constância, inerente ao que agora chamamos de estar conectado é uma demanda que aumenta cada vez mais. Hoje temos um status constantemente atualizado em relação aos nossos pares. Produzimos bens culturais e muita coisa sobre nós mesmos como forma de afirmação social e influência. A paranóia de estar acompanhando o fluxo do enorme rio e não perder o barco é irresistível e, de certa forma, cada vez necessária para uma relação social eficiente.

Em corredores subterrâneos e galerias geladas de prédios despercebidos repousa o outro terminal. Suas intenções e seu potencial começam somente agora a despontar sob nomes como Big Data e Data Mining, não à toa nomes em inglês. São norte-americanas as principais empresas responsáveis por processar a enorme massa de informação que é produzida segundo a segundo pela coletividade.E o mercado que começa a se formar em torno desse enorme potencial surge com empresas americanas com forte ligação a centros de pequisa nos currais do Vale do Silício.

A exploração dos dados exige vigilância constante, assim, ao mesmo passo do primeiro terminal, não se perde a sincronia. A paranóia retro-alimenta a ansiedade coletiva.

Ninguém sabia ao certo como os governos estavam explorando a rede. Mas, de tão plausível, era fácil acreditar em teorias da conspiração em que nossas online eram devassadas e dados pessoais coletados e armazenados. Até que veio à tona o fato: o governo dos EUA usa softwares como o Prism para isso. É claro que não há máquina mais prepara para colher e processar informações sobre populações que aquela que faz isso a um século. O imaginário coletivo da conspiração governista, soprado pela cultura americana, não fica longe da realidade, agora com ares de conspiração global.

A ironia dessa situação é que nos sentimos vigiados também por pessoas próximas, conhecidos e desconhecidos. Um coletivo fluido de pessoas que têm acesso à nossas informações pessoais de um jeito para o qual não estamos preparados ainda. Nesse começo, em que ainda somos crianças brincando com as enormes possibilidades dessa rede, não nos preocupamos muito. Afinal, o que há para esconder?

Um caminho óbvio dessa visão já começa a ser detectado. Os nosso avatares na rede cada vez mais se afastam da nossa verdadeira personalidade, ou então a romperão: nos cantos comuns representaremos um papel social adequado e sincronizado, enquanto nos cantos escuros deixaremos representar nossos desejos íntimos; o risco é que nem esses estão seguros o bastante. Hoje somos pontos de acesso pessoais, ativos e rastreáveis, à rede, e finalmente começa a se desenhar uma complexidade que facilita a emergência de padrões.

A iniciativa dos grandes dados (Big Data), já sob a alçada de corporações e marqueteiros, suga e interpreta, ou acha que interpreta, a inteligência coletiva. Ainda engatinha nessa jornada. Ainda estamos com infográficos de certa forma estáticos, mas os dados esperam por novas formas de se apresentar à nossa consciência. Essa ponta da rede pode nos trazer mais falsas verdades que todas as outras formas de manipulação já usadas. O Self Quantificável ou autoquantificação , em que algorítmos nos oferecem vislumbres de nós mesmos já começa a ser realidade. A pergunta é, como fica a maior ameaça à individualidade, que é o medo de ser apenas um número na estatística? Poderiam os dados nos oferecer padrões em que pudéssemos encaixar grupos de pessoas muito parecidas?

Quanto mais abrimos as possibilidades para uma ponta, quanto mais exploramos a possibilidade da massa de dados e a inteligência coletiva para o aprimoramento social, mas abrimos caminho para os parasitas e mais engordamos o algoritmo, ao ponto de algoritmos alimentarem a si mesmos em uma retro-alimentação (feedback) positiva estranha até mesmo para nós. Eles alimentarão nossos espríritos com novas coleções do que queremos ser. Uma visão que amedronta como quando assistíamos às ficções científicas e robôs que dominam o mundo.

Design da paranóia

O design, principalmente o industrial, criado para suprir a demanda de consumo, estreitou as relações com as visões do marketing durante o último século. Não à toa que se constituiu uma confusão entre design e estética, já que grande parcela do design de hoje serve para suprir a demanda alucinada de criação e manutenção de desejos repetitivos para o mercado de bens de consumo.

Nem estética, nem função, nem estratégia, o design hoje obedece e tem dificuldades de surgi como uma iniciativa – essa que é sua característica principal, a inciativa humana para se adaptar. No âmbito da internet e do virtual, rapidamente subsitiuiu-se as demandas de produtos por aplicativos e cápsulas de informação que devem ser consumidas, adaptadas e conectadas.

Os instrumentos necessários para estarmos sempre conectados e alimentando nosso status na coletividade são muitos. Em termos de tecnologia, eles existem há milênios e servem muitas vezes também como instrumentos de poder.

Alimentamos com informação a nossa imagem em relação às pessoas. Ao fazer isso, também alimentamos as instituições que usam essas informações para vender produtos e serviços a nós mesmos. Ou seja, consumimos os produtos da nossa própria construção na rede.

Alternando entre uma função pessoal e uma função social, tecnologias modificam o ambiente de tal forma que nos vemos obrigados a nos adaptar a estas mudanças. Foi assim com o fogo, é assim com a comunicação móvel.

A paranóia que envolve estar atualizado com uma sociedade inundada por tecnologia é crescente. Modificamos nosso ambiente com tal profundidade que mal conseguimos escapar dos buracos adaptativos que criamos. Desde as ferramentas simples da antiguidade a dependência cresce, e atinge uma nova fase com o advento da internet: um novo universo de tecnologias está se abrindo para nos conectar e nos manter conectados.

Smartphones

Quanto mais smart, mais conectado e mais notificações você receberá, de jogos, aplicativos, lembretes, diários, notícias e, é claro, anunciantes. A tendêcia é que cada pessoa torne-se uma central móvel de recepção de informações, muitas delas geradas por outras pessoas. É assim que funciona a rede. Pelo menos uma rede em que a estrutura de distribuição (provedores e telefônicas) são facilmente pressionadas por interesses privados e alguns outros governamentais.

O smartphones são instrumentos de atualização. São unidades frenéticas de envio de dados pessoais e de personalidade às muitas corporações ávidas em aplicar o modelo marqueteiro e vender produtos e serviços personalizados.

Nada nos prepara para a revolução que está se desenhando em relação aos dispositivos móveis. Assim pensa a maior rede social da atualidade. Não precisamos mais alcançar aparelhos que nos logam na rede. A rede nos alcança em uma instância pessoal, a qualquer momento, com mensagens de push, que são empurradas, a cada nova atualização do nosso self na rede.

Vestíveis

Seguros?

As imagens do coletivo

No século XVI, Giordano Bruno ampliou a teoria de Nicolau Copérnico de que a Terra não era o centro do universo, como pregava a Igreja Católica. Essa era uma mudança tão grande de paradigma que séculos se passaram até que suas ideias fossem, finalmente, aceitas. Foram os primeiros passos de uma tomada de consciência sobre a verdadeira posição do ser humano no contexto do cosmo.

Em 1960, satélites registraram as primeiras imagens da Terra de fora dela. Mais tarde houve o primeiro ponto de vista humano à respeito: “A Terra é Azul”, disse Yuri Gagarin. Em alguns anos surgiu a nossa concepção de planeta, para além do “mundo” em que vivemos. Passamos a enxergar a Terra, e ter uma prova de que os mapas que víamos desenhados eram realmente os continentes em que estávamos, e sobretudo com uma visão humana. Tudo isso pode ter contribuído para o início da mudança mental e social em relação ao que pensamos sobre nosso planeta, sua finitude (agora cabe em uma foto) e nosso papel no consumo individualista ocidental. Que consequências poderia trazer o fato de que hoje temos acesso quase irrestrito ao mapa preciso do nosso planeta, com ferramentas de extração de milhares de dados em segundos?

O MODO COMO ENXERGAMOS O MUNDO MUDOU QUANDO PUDEMOS VÊ-LO DE FORA.

Imagens do coletivo

Nesse mapa, avançamos com câmeras que espalham-se por grande parte das metrópoles mundias, em milhões de esquinas, e estão nos notebooks, tablets, telefones, carros, aviões e casas. Temos virtualmente imagens de todos os lugares habitados. O que entendemos como privacidade está gradativamente mudando a medida em que nos acostumamos a ser observados. Com uma diferença fundamental em relação a processos anteriores: as ferramentas se interseccionam, as imagens aparecem em sites, que ligam mapas, que contêm imagens, nomes e referências pessoais. Perdemos o controle sobre como essas informações são usadas. O controle foi perdido no momento em que empresas vislumbraram o enorme potencial de achar não pessoas, mas consumidores, públicos-alvo de seus esforços de vendas.

Entre a esfera privada, em casas, carros, condomínios e escritórios, e a esfera íntima, nos nossos aparelhos móveis e computadores, sensores que nem imaginamos vão se instalar numa simbiose estranha com os próprios objetos, aguardando o momento de captarem o que que que seja. No futuro, se descobrirão sensores secretos que antes não estavam lá, com propósitos dos mais variados, mas que sempre podem ser usados para tornar pública uma informação.

AS FERRAMENTAS DE PUBLICIDADE SE INTERSECCIONAM, NÃO HÁ MAIS CONTROLE

Vídeos e imagens existem hoje ao infinito, mas o mais importante é a banalidade das ferramentas de manipulação. Elas ajudam a criar e recriar significados, ou seja, a viralizar determinados conteúdos, fato a que estamos constantemente expostos. Além das câmeras, milhares de outros tipos de sensores vão inundar o cotidiano. Programas que prometem avaliar sensações, emoções e comportamento entrarão no grande mapa virtual dessa nova camada social, a camada de dados. O mapa não é mais um plano. É um holograma em 4 dimensões onde estão posicionados nossas informações -- as que queremos e as que não queremos -- na largura, altura, profundidade e tempo.

A publicidade do conhecimento

Em contraponto à privacidade, a publicidade dos dados pode trazer novas fronteiras ao conhecimento. Ao analizar grandes quantidades de dados (PURO > Há algo além da cortina de dados) a humanidade pode atingir um outro estágio na compreensão de seu próprio cosmo, até no nível mais complexo, o microcosmo.

Novas possibilidades para governos compreenderem a complexidade de suas sociedades e da ciência descobrir novos caminhos dentro da complexidade.Estatísticas sobre comportamento de massa em relação à violência, alimentação, pobreza e transporte serão escrutinados e usados, pela primeira vez, em referências cruzadas à outros dados complexos, trazendo resultados que nunca antes foram vislumbrados. Um exemplo interessante é do cientista Deb Roy que levou ao extremo a invasão de privacidade de sua família em prol da ciência.

IDEIAS COMPLEXAS IRÃO SE CRUZAR COMO NUNCA ANTES FOI POSSÍVEL

A cultura hacker que traz o conceito de abertura de informações na sua essência, é, ao mesmo tempo, temida e ovacionada ao redor do mundo. Enquanto presidentes de vários países mostram sua indignação com a espionagem norte-americana com sua agência NSA, outros órgãos públicos adotam a estratégia de hackear as instuições na busca de inovação e abertura.

Assim como a noção de trabalho e de modo de vida mudou com o advento da industrialização, provavelmente a noção de privacidade também mudará. Novos becos e refúgios serão criados para que as pessoas mantenham a integridade de sua intimidade, para guardar o que não podem compartilhar com a sociedade, mas o novo arranjo será o determinador dos limites legais que devem surgir nas próximas décadas.

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