Sonho: O velho, os dois meninos

Dois meninos eram amigos, o mais novo gostava de brincar pela rua e pelos galpões, o mais velho tinha obrigações. Devia comprometer-se com as regras da religião. Andava com seu quipá branco mesmo quando acompanhava o outro pela rua em suas peregrinações de criança. O velho judeu e seus sermões pregavam o menino à sua rotina. O senhor vendia comida em um carrinho todo branco, próximo ao portão de saída. Naquele dia havia o menino mais novo escondio as facas do faqueiro da dona da casa dele por aí, enfiando-as nos buracos. Os dois garotos caminharam até o portão, onde encontraram a dona da casa conversando com um operário, recém-chegado de fora. Sua roupa, suas mãos e braços eram sujos. A mulher segurava um pedaço de carne assada, com osso, que, apesar de ser vermelha, dizia ser de pato e iria se desfazer dele para o lixo. Não poderia usá-lo, portanto o homem poderia aproveitá-lo. Ele arrancou um naco e pôs na boca, e o menino mais novo fez o mesmo com um pedaço menor. Apesar da vontade, o menino do quipá não pôde. A mulher resgatou do chão uma das facas escondidas, suja, mas não fez questão de usá-la para cortar a carne. Mais tarde, o menino mais velho, como todos os dias, encontrou o senhor judeu em seu carrinho, onde este lhe deu um copo alvo de leite e um quitute. Disse o senhor que o menino tomava o leite pois sabia de suas obrigações, mas o menino respondeu que tomava porque gostava de leite. E então repetiu o judeu o já conhecido sermão sobre as responsabilidades religiosas. O velho também tinha uma rotina, secreta. Ia algumas vezes à beira da represa e saía em sua jangada movida a compressor de ar, para além dos bancos de terra e aguapés a um destino que os meninos não sabiam, mas queriam imaginar. Então foram os dois até a represa. Subiram na jangada e ligaram o jato de ar que, em vez de uma hélice, a movia pela água. Ao passar por duas pequenas ilhotas, com surpresa avistaram à direita o judeu com engradados de cerveja e churrasco. “Por que você está aqui?”, perguntou o velho dirigindo-se ao menino do quipá. Antes que este pudesse responder, ouviu-se um barulho; uma canoa aproximava-se deles pela frente. Estava cheia de homens negros. O velho judeu, então, pegou uma espingarda e, após montá-la rapidamente com as duas partes, começou a matar os negros, um a um.