A criatividade é coletiva?

A criatividade é coletiva?

É POSSÍVEL PARA A MULTIDÃO CRIAR ALGO DE QUALIDADE?

A multidão de dados e de participantes já é realidade. Com novas tecnologias de inter-conexão e redes de informação, crescem as possibilidades para o uso dessa multidão como fonte de multidados. O termo crowdsource, que surgiu em meados dos anos 2000, tem sido largamente usado para todo tipo de empreendimento que envolva muitas pessoas inter-conectadas. A expressão surgiu como um contraponto ao outsourcing, a terceirização nas empresas. O fato é que o uso de informação da multidão não é algo tão novo, mas com certeza escalou a um nível sem precedentes por meio da informatização.

Em um artigo de 2009, o crowdsourcing chegou a ser chamado de "mito", mas, apesar de ter razão em alguns pontos, o autor, Dan Woods, não compreendeu a abrangência do conceito. A verdade é que o termo é muito mais amplo que sua concepção original e geralmente causa confusões e polêmicas quanto a ser uma estratégica eficaz. Não tenha dúvidas de que é.

Muitos modelos de negócio deram certo com essa nova safra de dados, colhidos à medida que vão amadurecendo nos milhões dispositivos que invadem escritórios, casas e pessoas. A maioria deles – Apple, Google, Facebook, iStockPhoto, TaskRabbit, Quora, etc – são campos férteis onde a informação floresce, de forma razoavelmente controlada. O maior varejista do mundo, a Amazon, também usa o crowdsourcing. Ao observar plataformas como eBay, onde a multidão povoa o negócio com seus próprios negócios, a Amazon percebeu que, para conseguir perseverar globalmente, teria que pulverizar-se em micronegociações. Novamente, a multidão é a fonte de dados e dinheiro. Mas não se engane: apesar dessas empresas inovarem criativamente em seus modelos de negócio, suas comunidades não geram criatividade per se.

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Uma multidão de variáveis

Alçar projetos com base na massa é uma tarefa com muitos desafios. Os que tiveram a visão pelo menos um pouco acertada do novo paradigma que surgiu com a internet na virada do século são hoje gigantes que valem bilhões. Mas nem mesmo esses visionários podem levar o crédito total pela condução de suas empresas naquele começo da rede. Elas foram um produto da emergência da era da informação, suas estruturas foram crescendo com a própria rede. Somente nos últimos anos podemos distinguir projetos que fazem uso guiado das massas, numa espécie de nado à tona, para respirar os supostos benefícios do crowdsource.

Dentre as aplicações mais apreciadas estão as competições, como o 99Designs e as colaborações, como o sistema operacional Linux, mas essas são apenas algumas das muitas facetas do fenômeno. Apesar de serem modelos muitos diferentes entre si, todos aqueles baseados em multidão têm algo em comum.

Então, listemos algumas variáveis:

  1. Contribuidor: voluntário/ não voluntário
  2. Contribuição: commodity/ personalizada
  3. Motivação: instrínseca/ extrínseca
  4. Resultado: esperado/ diverso
  5. Ambiente: aberto/ fechado
  6. Regra: colaborativo/ cooperativo/ competitivo/ singular (?)

O que conta é o resultado

Todos os quesitos são importantes para o entendimento da questão, mas, ao pensarmos sobre criatividade e multidões, e para não alongar o texto, as chaves são: o tipo de contribuidor, o tipo de contribuição e o resultado. Um contribuidor criativo tende a ser voluntário. E sua contribuição, para agregar criativamente, precisa ser personalizada. E, acima de tudo, o resultado buscado em uma jornada criativa é diverso; o que se espera é um resultado de qualidade diferente. Essa é a caracterização fundamental que explica por que um outro modelo de multidados dificilmente poderá alcançar uma veia criativa.

A única exceção seria quando se trata de uma regra competitiva, o caso de muitos sites de concursos de design e até mesmo de serviços. Apesar de muito criticada por profissionais da Economia Criativa, as redes competitivas são, sim, crowdsourcing. Entretanto, até mesmo nesses casos a tendência é uma média, já que cada um é por si e o único fator de impacto seria o maior número possível de participantes, deixando de lado outros fatores como qualidade dos contribuidores e, principalmente, a subjetividade do resultado. Ou seja, existem muitas ideias diferentes entre si e o processo de avaliação quase não vale a pena, porque também se torna subjetivo. Muitas vezes não há melhor ou pior resultado, há apenas resultados diferentes e esses resultados não necessariamente evoluem para solução do problema.

Abaixo uma ilustração especulativa sobre as variáveis:

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Um por todos

Quando a força motriz desses modelos é uma commoditie, regras simples e abertura costumam deixar que a multidão faça seu trabalho. Como eletricidade para um motor, contanto que a fonte de energia não mude, tudo continua girando. Aumento de transações, mais cadastros, mais conversas, mais dados, mais "likes". Quando o resultado é esperado, a multidão cumpre seu papel sem maiores espasmos. É assim em um dos mais antigos modos conhecidos, a democracia. Mas, ao tratarmos de criatividade, massas e colaboração, tudo fica mais complicado.

MUITAS PLATAFORMAS DE CONCURSOS EXISTEM PORQUE SÃO OS ÚNICOS MODELOS MAIS OU MENOS VIÁVEIS PARA A CRIATIVIDADE DAS MULTIDÕES

Ideias são contribuições pessoais, mesmo em relação ao crowdsourcing. Se são pessoais, poderia-se dizer que uma ideia é proprietária, já que (ainda) não se pode entrar na cabeça do autor. Porém, como disse Benjamin Frankilin, citado por Steven Johnson em seu fantástico De Onde Vêm as Boas Ideias, uma ideia, assim que se torna pública, não pode mais ser estancada. Uma vez exposta, não há sentido em alegar propriedade. Ninguém é realmente dono de um pensamento. Portanto, uma simples ideia pode ter, em seu DNA, algo diferente que vai servir de novo padrão para o que vem pela frente, e isso só é possível pela característica viral que as ideias tomam na sociedade.

Um estudo recente sugere que as pessoas naturalmente dão menos valor a obras que pensam ser feitas por mais pessoas – e tendem a valorizar mais uma obra feita por uma ou poucas pessoas. Aparentemente, todos imaginam e dão valor ao modo como a obra é feita.

É DITO QUE UMA IMAGEM VALE POR MIL PALAVRAS, MAS ISSO É DITO COM PALAVRAS.

O tipo de contribuição e o método importam no processo criativo mais que o próprio contribuidor. O contribuidor tende a ser voluntário, mas inspiração nasce onde menos se espera. Por isso, mesmo sem querer alguém pode levar outra pessoa à evoluir no processo. Mas não é essa a percepção geral que se têm. Se uma obra é fruto de muitas pessoas, fica difícil compactuar com o não pertencimento. Queremos que o fruto do nosso empenho seja nosso de alguma maneira.

A questão não é formar multidões sábias. É conhecer como extrair sabedoria das multidões; portanto a sabedoria está no conhecimento e não na informação. A diferença está ente querer que uma produção criativa em massa seja guiada – algo ainda não alcançado – ou buscar uma extração guiada de criatividade originada na massa. No primeiro caso, uma tentantiva de nadar, no oceano de dados brutos, de uma costa a outra. No segundo, o verdadeiro sentido do crowdsource (crowd: multidão; source: fonte, origem), sendo o conhecimento que tem origem na multidão. Esse sentido usa o conceito de emergência, plenamente presente nas dinâmicas da natureza.

SE AS PIRÂMIDES TIVESSEM SIDO FEITAS POR APENAS 2 PESSOAS, A CONSIDERARÍAMOS UMA OBRA AINDA MAIOR

Haveria um meio termo? Provavelmente; com certeza usando menos pessoas, em um processo mais harmonioso, como já é feito em muitos projetos de forma desestruturada. Em uma era de fragmentação e hiperconectividade, a sintonia torna-se um conceito que pode muito bem amarrar as pontas da criatividade coletiva. Quem quiser saber mais sobre esse meio termo, deixe um comentário.

Os meios de produção em massa de conhecimento começam a atingir o usuário médio de internet. O tempo necessário para aprender a produzir e compartilhar informação é muito menor hoje que há poucos anos. Saímos de um cenário em que havia produção em massa simplesmente porque havia muita gente no mundo, para um cenário em que há muita gente produzindo conteúdo, em termos absolutos.

NINGUÉM CONSEGUE TER, AINDA, A DIMENSÃO DA INTELIGÊNCIA DAS MULTIDÕES

Essa simples diferença tem impacto fundamental na diversidade do conhecimento produzido. O que antes ficava restrito a círculos pequenos, agora poder estar acessível ao um número muito grande de pessoas, as contribuições e comentários são onipresentes e a evolução técnica permite mudanças rápidas de forma simples. Tudo isso deixa o cenário empolgante e ao mesmo tempo difuso.

Aqui entram os mecanismos de busca e os grandes portais, que agregam ou listam esse conteúdo, de acordo com suas próprias regras. Se temos mais acesso que antes, podemos afirmar com certeza que não temos acesso a tudo que é produzido. Por outro lado, a informação existe, sem dúvida, e a única coisa que impede que seja encontrada é a cara e árdua tarefa tecnológica e estrutural de montar uma empresa como o Google.

TER PROPRIEDADE SOBRE UMA IDEIA, HOJE EM DIA, ESTÁ FICANDO INVIÁVEL.

A facilidade de engajamento e criação de informação fez com que diversas empresas e instituições criassem métodos para aproveitar a multidão. Os métodos e plataformas, de tão novos, batem de frente com a norma atual sobre autoria e domínio intelectual.

Propriedade

Sem entrar no âmbito legal, acho que o mais importante é reunir um consenso razoável sobre o próprio termo, propriedade intelectual. Temos como pensar em termos de propriedade quando falamos sobre informação, ideias, conceitos? O crowdsourcing, como ferramenta de negócio, começa a esbarrar em questões como essa: faz sentido voltar-se para a multidão em busca de respostas e negócios e depois apropriar-se disso?

Toda informação na rede, de certa forma, é capaz de receber um registro de entrada. Esse log nos diz cronologicamente quando aquela informação entrou e podemos rastrear sua influência na rede até um certo grau. É nossa tentativa de responder a perguntas como, Quem teve a ideia primeiro, quem foi original?, perguntas que derivam da mentalidade constituída da propriedade intelectual. Faz diferença?

Essa mentalidade foi adaptada daquela mais antiga ligada à posse de terra, ser o primeiro a chegar a um lugar, de acordo com a ética dominante, dá o direito legítimo à propriedade. Mas, se todos já estão lá, faz mais sentido pensar em uso. Qual o uso faço da informação é o que importa, e uso não tem dono. Mesmo porque ter propriedade sobre uma ideia, hoje em dia, está ficando inviável.

PESSOAS REÚNEM-SE AO REDOR DE UM INTERESSE COMUM DESDE SEMPRE

A vertente mais promissora é aquela que busca retribuir as pessoas pela informação que produzem e existem muitas formas de fazer isso. Dinheiro é apenas uma delas. Quando usamos um serviço como a busca do Google, estamos usufruindo da informação da coletividade, mas estamos também retribuindo com os dados sobre nossos interesses e comportamento. [Isso é exatamente o que não faz a Natura em seu projeto de colaboração. O Co-criando Natura reúne contribuidores das mais diversas áreas, entre fornecedores, colaboradores e clientes, e se baseia em uma “paixão” pela marca que ultrapasse a necessidade de receber algo em troca. Em seu termo de uso, o projeto é insistentemente "voluntário" e "gratuito".]

“A multidão produz tanto quanto a interface permite individualmente, o resto é emergência.

É claro que grandes corporações, valendo-se de leis fatigadas e dessintonizadas, lutam para manter o status de donos de grande parte das ideias, principalmente da metade do século XX para cá. Uma rocha ainda resistente, mas que, tudo indica, vai ceder.

Comunidade como ferramenta

A questão que surge dessa tendência é como gerenciar ou guiar essa produção massiva de informação. Quais regras ou estudos sobre a própria sociedade podemos extrapolar para a condução de uma rede? O conceito de comunidade não é, de forma alguma, novo. Pessoas reúnem-se em grupos em torno de um interesse comum desde sempre. Interesses em comum são a alma da comunidade e influenciam em sua força e no grau de interatividade das pessoas. É importante lembrar que a comunidade existe dentro e fora da rede, sendo um e outro apenas representações de um conjunto de pessoas.

FAZ SENTIDO UM NEGÓCIO APELAR PARA O COLETIVO EM BUSCA DE IDEIAS E DEPOIS APROPRIAR-SE DELAS?

Na rede, a gestão de comunidades tem ganhado espaço. É uma atividade que usa as aglomerações de pessoas, como redes sociais, fóruns e portais para obter resultados específicos, geralmente ligados à produção de valor, financeiro ou não. Por mais genérico que possa parecer, é nessa definição onde encontramos oportunidades valiosas para resolver problemas ou oferecer valor. Pessoas aglomeram-se por razões específicas, por meio de interações e dinâmicas específicas, com muitas variáveis. Mas sempre em torno de um forte interesse em comum. A pesca, por exemplo.

O Big Banging da Coletividade

O uso da informação coletiva aponta para dois caminhos. Usar as informações que emergem naturalmente do grupo como o faz o chamado Big Data e a exemplo do TweetMap de Harvard; ou canalizar o coletivo para a produção de informações específicas, como tentam algumas empresas e outros projetos, como o sensacional The Johnny Cash Project. Seria algo como o crowdsourcing passivo (emergente) e o crowdsourcing ativo, dois caminhos que começam a ser trilhados por empresas e indivíduos. Atualmente temos muitos projetos dependentes e independentes que exploram a inteligência coletiva.

Outra área que cresce muito explora os dados gerados em áreas ainda não digitalizadas. Em livros, por exemplo. Com o Google Books, o Google tem o singelo objetivo de digitalizar todo o acervo de livros produzido pela humanidade. Isso teria implicações que podemos imaginar, mas não ainda medir. Com alguns anos de andamento, as possibilidades de busca e interpretação dos dados são virtualmente infinitas. Um exemplo é o conceito de n-gramas (n-grams), que significa um termo ou texto (por exemplo “criatividade”) repetido ao longo de um parâmetro, por exemplo em relação ao tempo. IssoHoje podemos buscar qualquer expressão ou palavra em todo o acervo já digitalizado, desde séculos atrás. O Google disponibilizou no seu projeto do Books um Ngram Viewer, permitindo, inclusive, a comparação com mais de um termo. Seguindo o exemplo, segue o gráfico do termo (n-grama) “criatividade” versus o termo “inovação”:

A INTERPRETAÇÃO DA MATÉRIA BRUTA DE INFORMAÇÕES TEM DIVERSOS AGENTES E DIVERSOS PROPÓSITOS

O que acontece se extrapolarmos a análise e o uso dos dados para uma aplicação em tempo real? Existem vários projetos que querem uma experiência interativa baseada nas reações do espectador. Na área de música e entretenimento, surgiu O Algorave, um projeto em que DJs usam algorítmos para tocar sequências musicais que variam de acordo com o a reação de quem está na pista. São usados sistemas como IXI Lang, overtone, puredata, Max/MSP, SuperCollider, Impromptu e Fluxus. Um exemplo de como somos cada vez mais retro-alimentados pelos dados que produzimos e que interpeetamos.

Que a unanimidade é burra, todo mundo já sabe. Mas ninguém tem ainda a dimensão da inteligência divergente das multidões. E, principalmente, como lidar com isso, já que o processamento dessa matéria bruta será feito por diferentes agentes, para diferentes propósitos. Em breve, será feito, mais provavelmente, por um algorítmo que faz o papel de uma inteligência otimizada. E novamente relegaremos à inteligência artificial os números e relatórios nos quais baseamos nossa visão de mundo e, em alguns casos, até o próprio ato de interpretar.

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Outros caminhos

O despontar do Crowdsourcing - artigo

Código Aberto (Open Source)