Por que amamos listas

Por que amamos listas

EM VEZ DE PROCURAR INFORMAÇÃO, PROCURAMOS OPINIÃO

Muita gente, informação, ruído, produto, propaganda, novidade. Não é à toa que ultimamente vemos listas de tudo. A ansiedade de filtrar, o alívio de estar seguro com uma informação mastigada e organizada. Esse é o frenesi das listas: em vez de procurar informação, procuramos informadores, pessoas que percorrem os caminhos e depois nos conectam a eles..

Listas foram provavelmente um dos primeiros métodos de organização da informação. Receitas culinárias, por exemplo, já eram usadas por civilizações antigas. Mas, diferentemente do que se buscava antes, não estamos mais interessados na lista em si. É tudo uma questão de fonte: antigamente, havia poucos donos de listas. A pessoa que fazia um inventário, ou uma lista, era muito provavelmente a única responsável por esse trabalho. Numa era de complexidade, não há somente múltiplas listas, mas também múltiplos donos, ou curadores.

Esse é justamente o ponto da crise por qual passam sólidos jornais e veículos de imprensa. Se existem múltiplos autores, ao usar redundância e uma simples rotina de verificação, qualquer pessoa pode garantir informações com um grau de qualidade no mínimo satisfatório. Basta checar duas ou 3 três fontes para, com o tempo, formar uma rede de boas fontes. Jornalistas sempre foram, em todo caso, bons curadores que checam fatos e buscam novas perspectivas.

CURADORIA PARECE SER A NOVA FUNÇÃO DO ESPECIALISTA EM CONTEÚDO

Em outras palavras, uma lista é tão boa quanto sua curadoria. essa mesma lista será reeditada e compilada milhares de vezes, passando por outros crivos. Ou apenas alguns de seus itens serão repetidos em outras diferentes listas, para outros propósitos. Um argumento resguarda as listas de internet do método jornalístico, no entanto. As listas de hoje não querem ter o mesmo compromisso com a verdade ou com algum tipo de “qualidade editorial”, por assim dizer. São apenas sugestões refrescantes em tempos de sufoco. Afinal, mesmo os que não admitem se pegam lendo uma lista sobre os 7 alimentos a serem evitados ou os 10 melhores jogos de celular.

Isso não quer dizer que a a lista não precise de qualidade de informação. Dependendo do tema, o autor precisa de cuidado ao destilar os tópicos. A confiança nunca será descartada por um leitor: Bancas e livrarias estão empilhadas com listas – entre 1001 Lugares para Visitar Antes de Morrer e 100 Melhores Vinhos – mas nenhuma delas é desleixada no trato das informações. A coisa é tão séria que o autor da lista detém os direitos autorais sobre ela e ninguém pode copiá-la quando é devidamente registrada.

O QUE A CULTURA QUER? TORNAR O INFINITO COMPREENSÍVEL. E TAMBÉM CRIAR ORDEM. Umberto Eco
Rodrigo Franco
Rodrigo Franco

Nosso cérebro tenta incansavelmente fazer juízo das coisas que lemos e hoje, como um computador quente e cansado, fica embaralhado com quantidade, tipos de mídia e com distrações. Além do mais, o paradoxo da escolha nos faz sentir mal quando temos muito a que processar. As listas são altamente atrativas porque é um texto facilmente palatável – leia-se curta, organizada, consumível e formadora de uma conclusão simples e direta –, elas basicamente diminuem nossas escolhas e tiram as conclusões para nós.

Catálogo vs. Curadoria

No final das contas, o dilúvio de listas surge como uma interação social. Com qualidade ou não, é um fenômeno de afirmação que empresta uma aura de sabedoria. Muita gente quer compartilhar sua opinião sobre determinado tema de forma impositiva ou usar essa ferramenta profissionalmente nos mesmos moldes de uma receita. Empresas tem feito muitas listas na tentativa de humanizar suas marcas. Antigamente, receitas eram feitas por quem entendia do assunto. Hoje, listas de "verdades" são mais banais que receitas de bolo na internet.

Um lista poderia ser usada para registrar e comunicar uma certa quantidade de coisas, seja grande ou pequena. afinal, só existe lista para um conjunto finito de coisas e mais importante: que possa ser consultada e acionada. As tecnologias da informação tornaram as listas (banco de dados) virtualmente infinitas, mas ainda assim podem ser consultadas e acionadas. Ainda assim, existe uma diferença que poderíamos chamar de uma lógica de catálogo ou uma lógica de curadoria. Em um catálogo, listamos todos os objetos de determinada categoria, visando uma lista exaustiva. Em uma curadoria, listamos objetos seguindo determinado critério (geralmente qualitativo) e tomamos cuidado (curamos) visando uma lista suficiente para aquele propósito.

É muito mais provável que uma lista que gostamos seja uma curadoria, portanto o critério e o modo como foi feita determina sua adequação ao nosso gosto. É claro que existem curadorias de grandes conjuntos de objetos, portanto listas enormes e cuidadosas de coisas que levamos muito tempo para apreciar, a exemplo de grandes museus.

AS LISTAS DE HOJE SÃO PEÇAS DE AUTOAFIRMAÇÃO SOCIAL

As 7 sabedorias populares sobre listas

  1. Não liste para os outros o que você não gostaria que listassem pra você Procure temas em que você se interesse.
  2. O valor da lista é bem maior que a soma dos valores de cada item Faça com que cada item traga mais valor: polemize, renove, ilustre.
  3. Quem na lista escolhe um número tem de respeitá-lo Ou seja, como em qualquer lista, priorize. Não a aumente com besteiras.
  4. O nome muitas vezes ajuda a definir algo Escolha um nome para sua lista como para um filho.
  5. O que precisa ser explicado, deve ser feito de forma breve
  6. O que não tem explicação, explicado está Como explicações óbvias que repetem o item da lista e não trazem nada de novo.
  7. Toda lista está aonde o leitor interessado vai Seja relevante.

Algumas listas de listas

Interessantes são os que fazem listas interessantes.

As listas da Rolling Stone

http://rollingstone.uol.com.br/listas

🏹

Outros caminhos